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"Escabroso, delirante e assustador! Perfeito!" Por Drauzio Marqezini em 12/04/2012 no site Recanto das Letras.
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sábado, 24 de fevereiro de 2018

Inefável


“A melancolia da paixão arrebatadora é o sentimento de existência efêmera e urgente”


1 – O parlamento da chuva

Foi durante o outono.
As montagens dele eram excepcionais, um imenso sucesso de crítica e público. Todos queriam um pedaço de Raul, o cultuado Raul¹.
Tinha lenda de uma personalidade complexa, metódica, repleta de contornos míticos. Era cheio de manias e tiques, diziam que era versado em diversas áreas.
Quando consegui o papel em sua adaptação para o teatro de Pensamento Atropelado sabia que era a chance da minha vida.
Imagine só uma atriz fresca prestes a estrear trabalhando com ele, um bilhete de loteria sorteado. Nos primeiros dias a ansiedade para conhecer o diretor quase me consumiu. Para agravar a situação ele tinha aplicado um de seus habituais sumiços.
Duravam sempre uma semana.
Então esperei os dias, mordendo os lábios, para ver a mente corajosa de Empalando Freiras Virgens.
Começou uma chuva forte numa tarde e eis que surge ensopado nas portas do teatro. Apolíneo e dionisíaco em si, pediu enquanto mastigava suas balas de goma.
- Podem me encontrar lá fora?
Boquiaberto, o elenco acompanhou a força de sua figura e fomos de encontro ao brilho dos raios. Em poucos segundos todos pareciam que tinham saído do mar. Alguns rostos demonstravam raiva e descontentamento, Raul sentou-se ao meio fio e com sua voz grave e a risada característica solicitou:
- Sentem-se comigo, apreciem a chuva!
Ele estava ali em seu bruto, um vanguardista brilhando na rua encharcada, naquele momento todos os presentes sorriram olhando o criador, que sentia milhares de gotas como abraços calorosos.
Fizemos um círculo na calçada e apreciamos a chuva, apreciamos nossas pessoas, apreciamos a arte.
E dali em diante torcíamos para que chovesse para mais um parlamento da chuva.

Natalia Gomes, atriz revelação vencedora do prêmio Esplendor.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Fim do expediente



"Seja bom, pelo amor de Satã... seja bom!"


 Todos os dias Yves acordava cedo. Os olhos cansados contemplavam o rosto acabado.
 Murmurava para o espelho sua oração:
 - Patético.
 E andava rápido em seu patético carro, enfiava-se no engarrafamento patético para chegar ao emprego igualmente patético.

 O dia passa entre as malditas ligações. Subemprego, soa como deve soar. A comida da lanchonete o fez engordar, a rotina o tornou ansioso.
 Duas décadas e meia de uma vida insignificante. Sentado, com o fone ao ouvido sentindo a existência escoar lentamente.
 Acostumou a atender os mal-educados que costumavam ofender sua adorável mãe todos os dias. Era gentil e bom com os novos funcionários que iam aprender o ofício com ele.
 Estava acostumado a ouvir:
 - Como você aguentou ficar três anos neste inferno?
 Respondia automático:
 - Não é tão ruim quando se acostuma.
 Quando se acostuma a destruir o orgulho, seus ouvidos, sua voz. Quando se acostuma a ver os puxa-sacos ganharem puxa-sacos ao subirem de cargo.
 Acostuma-se a ganhar dinheiro para instituições que claramente o viam como algarismo.
 Um número de funcionário.

 Ia começar a seleção interna para escolha do funcionário do mês, se ganhasse lhe dariam um broche idiota. Seu nome enfeitaria uma folha de sulfite imbecil.
 Poderia usufruir de uma folga bônus.
 Uma.

 Neste mês, ele cumprira os requisitos básicos da eleição. Para ser elegível o candidato não podia ter faltas injustificadas e advertências.
 No mês anterior Yves teve de assistir Willian se tornar o funcionário do mês.
 Willian, que tinha a supervisora em boa conta, que escondia suas faltas com resultados em vendas, que era um supremo lambe-botas. Um safado protegido.
 Yves faltou uma única vez no mês anterior por uma emergência familiar. Explicou tudo a supervisão e ganhou uma advertência.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um pedaço de mau caminho






 1 - Desgraçado


 Nasceu com olhos azuis e parecia...
 - Um anjinho.
 Essa foi a frase da mãe ao ver o bebê, para piorar a situação o bastardinho veio com cabelo loiro e ganhou nome de anjo.
 - Vai se chamar Gabriel.
 Dã.
 Mais típico impossível, desde o começo foi mimado. O pequeno gordinho mal saiu do hospital e era convidado a fazer comerciais. E foi enriquecendo os pais ainda sem saber limpar a bunda sozinho.
 Foi crescendo e habituando-se a receber de pronto seus desejos. Com oito anos, descobriu o valor de um rosto para o mundo.
 Estava na escola e roubou o giz colorido do Paulinho, a professora descobriu e veio tirar satisfação.
 - Gabriel. Isso não se faz...
 Ainda nem tinha beijado alguém e descobriu o cinismo.
 - Mas professora esse giz é meu.
 O Paulinho tinha um histórico horrível, batia em todo mundo e ferrava tudo mas ladrão, ladrão não era.
 - Ele tá mentindo professora!
 Doeu no querubim ser contrariado em sua farsa.
 - É meu sim. É meu sim.
 Começou a chorar como um rio, chorava de raiva.
 Vendo que o artifício não funcionava apelou, partiu para pancadaria. Nunca havia batido em ninguém. Talvez por isso tenha sido tão brutal, tão primitivo. Pegou o parrudo Paulinho de surpresa, este caiu para trás e perdeu dois dentes.
 Paulinho levantou com olhos de um carniceiro. Num salto avançou sobre o anjinho.
 Mas um braço forte o conteve de sua satisfação imediata. Era o diretor da escola que passava por ali.
 Gabriel levou sua mentira até as últimas consequências, como reparação, Paulinho foi expulso da escola.
 Neste mesmo dia esperou a saída de Gabriel da escola. Mas os pais do modelo-mirim foram buscar.
 - Não deixo mais meu filho nesta escola de ladrões.
 Sentenciou a mãe e o mudou para a melhor escola paga da região.
 Já o Paulinho; além de perder dois dentes levou uma surra ainda maior do Paulão, o pai, que era famoso por ter mão pesada e praticar boxe no filho.
 - Acho que o Gabriel vai precisar de terapia depois desse trauma, ele ficou tão mal que até bateu no ladrãozinho.
 A terapia do Paulinho pra aprender a não mexer com anjos foi de vários hematomas pelo corpo.
 Gabriel. Boa aparência, bem de vida, requisitos essenciais para surgir um desgraçado.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Rolê pacífico




Amigo, eu sou negro, nasci pobre e estava com meus irmãos no rolê pacífico. Não fica de pé me encarando, senta aí que eu conto.
Dizem no clube que se chama noche pacifica, mas amigo; eu vivia nas ruas.
Então eu chamo de rolê pacífico.
É quando um bando de veteranos, caras que foram baleados, torturados, mutilados, afogados e viveram para...
Viveram para um novo trabalho se reúnem para celebrar sem “interferir” no ambiente.
E por que isso?
Porque isso é um encerramento honroso que lembra a cerne de cada um de nós. Subimos de um buraco sozinhos, sobrevivemos a uma mãe, pai, marido ou esposa sozinhos. Tanto para o positivo quanto para o negativo. Sobrevivemos sozinhos, a tudo; sozinhos.
Mas o clube nos une.
Ali conversamos, bebemos, juntamos amigos de anos e é lógico arrumamos uns bicos. Um cagando pra vida do outro. Desde que nada ameace o clube.
Que bicos?
Que bicos, você pergunta.
Alguns serviços de extermínio de insetos, erradicação. Sim, isso mesmo que o senhor ouviu.
Erradicação.
Mas eles começaram senhor. Só queremos sair daqui, foi legítima defesa. Depois de tudo, o pessoal que estava lá disse que o bar quase tinha sido destruído na semana passada. Na ocasião, disseram que um cara doido acalmou todos com diálogo. Nós só conversamos com os nossos.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Diga mamãe





                              “Opus destruit hominem”


Eu odeio o seu mundo.
Vocês adoram se sentar em suas salas, fechados em cubículos e maquinando contra todos. Claramente engordando a cada segundo com suas idas cada vez mais frequentes a restaurantes e aos fast food enquanto alguns de seus subordinados nem trazem algo pra almoçar.
Adoram quando eles entram no seu “salão sagrado” mendigando algo que pode ajuda-los e vocês podem olhar de cima, sentados em suas cadeiras confortáveis.
Raramente me perguntam sobre meu filho, raramente perguntam se estou bem.
Fingem que a empresa possui valores e preenchem um mural com sua questionável moral. Seu código de conduta é um disfarce para a livre delação e outras práticas detestáveis. Aqui se você pisa fora de um dos parâmetros é traído sem pestanejar.
Devo dizer, nos quase nove anos nessa divisão do purgatório me tornei mais falso, mais amoral e mais cruel do que alguém que não seguiu essa carreira. Quanto mais alto o escalão nessa máquina, mais distante dos outros seres ficamos.
Eu sei por que estou aqui.
Você iria apontar o dedo na minha cara e enfiar goela abaixo que minhas atitudes não condizem com a firma. Na verdade, eu quero falar e você vai ouvir tudo. Tire a mão do telefone! Nenhum segurança deste monte de merda fodida chegará a tempo de te salvar.

domingo, 19 de novembro de 2017

O clube do escorpião





 1 - Longe da vista do mundo


 - Vou contar pra você o que aconteceu...


 "Aqueles dois só queriam um dia de descanso, uma visita ao bar parecia uma boa idéia.
 E ninguém no mundo "normal" espera por um sequestro.
 Na saída do bar foram dominados e encapuzados. Jogados em um porta-malas.
 Por quê um sequestro?
 Fausto e Oscar.
 Amigos inseparáveis até mesmo no sofrimento.
 Foram retirados do porta-malas num paradeiro desconhecido. Retiraram tudo o que lhes seria útil.
 Removeram os capuzes, Fausto e Oscar fitaram uma escuridão tão infindável quanto fria.
 - O que vocês querem? Dinheiro?
 Perguntou Oscar para a escuridão, um dos indivíduos ocultos respondeu:
 - Se tudo der certo tiramos vocês daí.
 Foram empurrados, a queda foi grande. Ao atingir o solo Fausto quebrou o tornozelo esquerdo.
 Oscar feriu a testa.
 Estavam abandonados em um buraco de paredes concretadas lisas. Lá embaixo não havia comida, água ou cobertores.
 Grandes amigos feridos.
 - Nós vamos sair dessa.


 As horas passam, a agonia traz companhia da fome e da sede. Especulam sobre o resgate que seria solicitado, para quem?


 Fausto lembra-se do pai inválido num colchão sujo do asilo. O mesmo inválido que em seus tempos áureos costumava usar o cinto para ensinar lições.
 A mãe era muda sem possuir deficiência alguma, distante e ausente. Morreu sem causar estardalhaço, dormindo.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Oscar lembra-se da rua, fugiu de casa com doze anos e não voltou. Contrariou estatísticas e ainda estava vivo.
 Saiu do grande vazio do seio familiar e buscou o vazio eterno da rua. Seria melhor que rostos estranhos o pudessem fazer mal, não toleraria mais que pessoas de sua família o fizessem trabalhar. Ou as visitas noturnas do seu tio.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Se corroíam com as lembranças e o silêncio. Os pulmões cansados de gritar.


 Cai a noite, a estação traz a chuva.
 Abençoada chuva.
 Fausto e Oscar bebem água da chuva das paredes lisas. Preciosa chuva, aguentariam a sede por hora.
 A temperatura cai rapidamente.
 Maldita chuva.
 Encharcados, morrendo congelados. Esfregam os corpos para diminuir a sensação.


 O cheiro, um odor forte que sentiram desde que aterrissaram ali os enchia de horror.
 Era um cheiro de morte.
 Alguém havia morrido naquele lugar.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Alva




      "O nosso maior medo é reconhecer como somos de verdade"


 - Que tal Alva?
 A escolha do nome foi difícil, não era um bebê que estava a caminho. Mas era de vital importância um nome de comum acordo ao casal.
 Irina ouviu a sugestão de Lúcio e concordou com a cabeça.
 Ele riu.
 - Será Alva então!
 E voltaram aos beijos.


 Irina e Lúcio eram amigos de longa data. Ela se casou e Lúcio seguiu quebrando a cabeça. A mãe dele sempre dizia:
 - Não arruma mulher casada! Lembra dos problemas que conseguiu.
 Se referia a um caso antigo de Lúcio, uma tal de Joana. Mas foi por infelicidade que bastou Irina casar para Lúcio descobrir que a amava.
 Os amigos se tornaram amantes, faziam de tudo para estar juntos. Secretamente sempre se encontravam e construíam planos.
 - Estaremos juntos de verdade logo.
 Irina queria se divorciar e ficar com Lúcio. Encontravam duas barreiras que atrapalhavam seus planos.
 Uma era o marido de Irina, outra a mãe de Lúcio. Queriam acertar as coisas de modo rápido.
 Estavam "namorando" por dois meses quando tiveram a ideia.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Ser como eles





 Do alto do prédio sede da empresa químico-farmacêutica¹ o homem olha.


 Os tons mudam da raiz ao topo, lá em cima o predominante cinza².
 Ele se serve da bebida na mesa e olha pela grande janela aberta do arranha-céu. Divaga com o copo na mão, olha transtornado para baixo.


 - Eu queria ser como eles.


 - Daqui de cima parecem minúsculas formigas operárias que trabalham para senhores como eu. Suas vidas possuem regras simples: colocar o pão na mesa, reunir pessoas queridas, diversões dentro dos limites monetários, amar.  Alheios a minha presença. Eles me olham nos jornais como notícia momentânea. Sou um assunto fraco nas conversas. Facilmente esquecido.


 Vai até a mesa e serve mais bebida. Volta a olhar o abismo.


 - Eu sou o desvio de caminho de suas vidas básicas. Com única decisão posso esmagar milhares de futuros, milhares de sonhos dos que estão lá embaixo. Crio crises em suas cadeias simples. Posso alimentar os males de toda uma geração. Poder com uma decisão.


 Ele sorri. O rosto rapidamente se contrai amargo.


 - Sobra somente a satisfação destrutiva para quem está no topo. Criamos corporações e empresas gigantescas, movemos a vida das formigas. Com o dinheiro-alimento, movem suas vidas transformando. Multiplicando-se. Enchendo as ruas e alavancando-me a prédios maiores. Fico cada vez mais alto, cada vez mais distante. Para me lembrar sempre que não sou como eles.


 Deposita o copo na mesa, vai novamente até a janela. Amargurado.


 - Contentam-se com pouco; abrem seus melhores sorrisos com beijos...


 Em tom mais alto:


 - Eu conheci o mundo inteiro! Eles se importam com a viagem que fizeram ao parente de outra cidade, tenho dinheiro para forrar minha casa! Eles só querem que sobre o suficiente para pagar as contas.


 Coloca as mãos nos bolsos, olha triste o vazio.


 - Riem; aproveitam a curta vida. Interagem expondo minha fragilidade. Eu sou um homem poderoso.


 Retira um cigarro do bolso e o coloca na boca. Faz menção de acendê-lo com o isqueiro. Joga o cigarro pela janela. Apoia a mão na beirada.


 - O abismo é aqui; não lá embaixo. As esperanças acabam quando se está tão alto. O solo é a segurança, ele te faz lembrar que você pertence a algo.


 Ele chora leve.


 - Vidas notáveis. Pessoas que eu adoraria conhecer, sujeitos que se unem por causas. Quando nascemos a vida nos invade com cheiros, com sons, com visões para nos ajudar a compreender seu propósito. Isso não se pode perder durante o tempo, quanto mais distanciamos menos vivemos. O abismo de cada um deles é onde estou. É onde a humanidade acaba.


 Joga o maço de cigarros lá embaixo.


 - Meus amigos de fachada são como eu. As pessoas somente se aproximam de alguém nesta posição quando querem algo.


 O vento açoita os cabelos.


 - Ela me abriu os olhos quando foi embora. Foi viver como eles e ainda sinto o calor de seu beijo de despedida. Disse que eu estava cada vez mais frio. Já se passaram dez anos e o calor do beijo permanece em meus lábios.


 Toca os lábios relembrando.


 - Já é tarde demais para mim, a distância é grande demais. Há quanto tempo não sinto o amor verdadeiro de alguém? Há quanto tempo não se importam verdadeiramente comigo? Há quanto tempo não me importo com alguém?


 Toca a beirada novamente.


 - É tarde. Não tenho tempo para encurtar a distância aos poucos, quero tudo ou nada! Eu queria ser como eles...


 Chora.


 - Devo alcançá-los, abraçá-los.


 Desajeitado sobe ao parapeito.


 - Abraçá-los. Devo alcançá-los, me misturar a eles.


 O homem salta.

 Mistura-se a multidão pasma, as sirenes tocam.







"Conto muito foda! É triste, é intenso, é real!"
Carla Garcia, professora, comentário postado em 15/06/2009.


Extras e referências:

1 - Xemox, complexo químico inspirada em uma fábrica que joga uma nuvem pútrida em uma cidade do interior de SP. A Xemox assombra vários contos do autor, exemplos: O único, Quando a esmola é demais.

2 - Novamente a cor cinza retrata algum sentimento negativo assim como em A maquete.



sábado, 15 de julho de 2017

Faixa 16




 1 – Ruptura¹


 - Eu não vou concordar nunca com essa merda!
 Segurava a foto da próxima capa incrédulo. Ela mostrava dois golfinhos nadando com uma moça de biquíni.
 Fred Fracasso não se conformava. Rud falou:
 - É mudança musical Fred. Aceita velho...
 Há algum tempo percebia que somente ele ainda andava com a jaqueta de couro surrada, os tênis detonados.
 Todos estavam diferentes.
 Cabelos lambidos da moda, detestável moda. Fred ainda era creditado com seu codinome. Mas era uma questão de tempo para que os patrões mudassem tudo.
 E a última coisa a ser mudada seria ele.
 Parecia um Sid Vicious num Coldplay.
 Uma roda e moshs num show da Enya.
 Ou seja...
 Ele era um peixe fora d'água. E desde quando aquele aquário deixou de ser seu?
 Agora ele estava ali com dois alienígenas que lembravam seus amigos.
 Onde estavam os piercings na cara de Dani Desastre? Onde estava o cabelo espetado e bizarro de Rud Ruína? Onde estavam as olheiras e os olhares vidrados dos dois?
 Fred mantinha suas olheiras e seu olhar vidrado, injetado ali.
 - Parece que nem o nome da banda se aplica mais a vocês, seus traíras!
 Fred saiu da sala. Dani o encontrou fora do prédio. Estava sentado num banco fumando um charuto vagabundo.
 A olhou com desprezo:
 - Se veio me convencer pode ir embora!
 Ela parou na frente dele:
 - Cresça Fred. Não dá para você pensar alto? Porra, não dá pra ganhar dinheiro de verdade daquele jeito.
 Ele arregalou os olhos:
 - Dani Desastre você está aí? Você disse porra. Bandas melosas não dizem porra! Eu sei que debaixo destas roupinhas da moda está uma baixista cabulosa.
 - As vezes você faz jus ao teu nome. Fred, faz isso por nós?
 - Dani... eu não faço música diluída.
 Ela sentou ao seu lado.
 - Fred, eu tenho uma filha agora. Não posso mais viver como uma porra-louca.
 - Dani.  Vocês colocaram golfinhos na capa. Golfinhos!
 Ela dá um tapa no ombro dele.
 - Para! Essa jogada vai dar certo, vai criar polêmica. É uma mudança radical cara. Eu e o Rud queremos muito isso. Até as composições estão prontas.
 - Aquelas merdas que eu ouvi na sala são as novas músicas? Eu nem participei de nada.
 Ela grita.
 - O senhor? O senhor estava com o nariz entupido. Com o braço recheado de agulhas! Não está nem aí pra nós Fred!
 Fala mais baixo.
 - Eu e o Rud fizemos até a parte das guitarras.
 - Isso está na cara. Não tinha nem um pouco de peso, nem uma sombra de distorção.
 - Nós sabíamos que não ia ser fácil com você.
 Fred traga o charuto, solta a fumaça e responde.
 - E eu sabia que este contrato com gravadora grande ia fazer isso com a gente.
 Dani segura a mão de Fred.
 - Você é nosso amigo, queremos você conosco.
 - Ou?
 - Evoluímos, aprendemos até o seu instrumento. Você entendeu, não é?
 Com o rosto em fúria.
 - Estão me chutando?
 Ela se levanta.
 - Pensa bem Fred.
 E vai embora, Fred grita.
 - Estão me chutando da banda que eu fundei!?


 A raiva habitual invadiu os sentidos e inundou o corpo. Era o que o impulsionava.
 Surgiu em uma infância tão ruim quanto o inferno e se apegou a ele. Depois de um tempo ela precisou que ele a despejasse, a descarregasse.
 A adolescência e a música. A mistura volátil que lhe foi entregue com amigos tão revoltados quanto ele.
 A banda, os codinomes e toda vertente de autodestruição possível.
 Anos de abusos e perigos. Brigas, confusões e agressões. A raiva precisa de alimento para existir.


 Dani quase morreu com uma overdose cinco anos atrás. Rud perdeu alguns dentes.
 E a raiva vai mudando de alvo, de direção.
 Raiva por ver outros amigos do mundo caótico morrendo.
 Por acabar com todo o dinheiro ganho comprando coisas que lhe faziam mal. Que roubavam sua energia.
 Dois anos atrás Dani recusou-se a dormir com ele novamente. Fred estranhou, viviam livres, sem obrigações com ninguém.
 Dani respondeu que estava apaixonada por Rud.
 E Fred sentiu raiva.
 Ela havia parado com a diversão, depois que ficou com Rud. O que Fred não percebia é que para seus amigos não havia mais diversão.
 Só sequelas.
 Para completar o quadro ela teve uma filha.
 E Fred sentiu raiva por se importar com isso. O contrato da gravadora chegou em meio ao caos da banda. Eles tinham vários fãs no submundo da música. Lotavam os shows.
 Mas os lugares para tocar escasseavam, os fãs transbordavam de raiva e quebravam os estabelecimentos.
 Os cachês mal pagavam os estragos.
 Ficaram famosos por isso.
 Uma gravadora grande cresceu os olhos, achou que a banda conseguiria o estrelato em mídias maiores.
 Assinaram o contrato.
 Com o dinheiro do adiantamento para produzir um novo disco, Rud e Dani procuraram outras sonoridades.
 E Fred se encheu de drogas.


 Meia hora depois entrou na sala de reuniões novamente. Todos esperavam uma reação explosiva.
 E ficaram surpresos com o que ele disse.
 - Tá bem! Eu quero fazer uma faixa para o disco.
 Rud e Dani olharam para o figurão da gravadora. O chefão se pronunciou:
 - Certo. Poderá ser um bônus: faixa 16.
 Fred olhou para baixo escondendo seu olhar de ódio.
 - E depois saio da banda.
 Ninguém manifestou única objeção. Saiu rápido da sala.
 Entre os dois integrantes restantes e o chefão ficou tudo acertado.
 - Será bom... um petisco para seus antigos fãs.

domingo, 2 de julho de 2017

Singular



“Ocasião que torna infiéis os prometidos”


 - Agora ela deu pra achar que eu vou abandoná-la. Você acredita?
 Omar encheu a mão de salgadinhos e respondeu.
 - Grávidas são assim mesmo. Elas ficam mais sensíveis e o escambau, o que você diz de forma simples vira a terceira guerra mundial.
 Leandro coçou o queixo.
 - Então você passou por isso quando a Amélia estava grávida?
 - Ô, ela achava que eu ia embora com a vizinha que só tinha dois dentes!
 Riram, Leandro olhava para a paisagem repetitiva. A vida estava nos eixos, emprego estável, filho a caminho, acabando a faculdade. Sempre quis ser pai, quando receberam o resultado do exame abriu um sorrisão.
 Tinha certeza que não iria deixá-la¹.

 A viagem de ônibus continuava. Omar empolgado, queria conversar sobre algo que lera.
 - Quem escapou disse que as luzes se apagam, ainda fico com isso na cabeça, é como uma bateria sem carga.
 Leandro concordou com a cabeça, Omar prosseguiu.
 - Outros disseram enxergar uma luz distante em um breu, um farol moribundo.
 A metáfora de Omar o levou a pensar em Tereza, sua mulher foi o farol de sua vida turbulenta.

 Três horas da manhã.
 Um ruído era o sinal nas trevas do quarto, Tereza estava chorando, ele a abraçou forte.
 - Estou aqui, está tudo bem.
 As lágrimas escorriam pelo rosto e molhavam o peito de Leandro.
 - Com o que sonhou linda?
 Ela comprimiu-se nos braços dele, não respondeu de imediato. Ele a conhecia como a palma da mão e lhe deu tempo.
 - Sabia que ia me deixar, foi embora com uma loira bonita! Eu não sou bonita.
 Ela chorava baixinho.
 - Eu não vou te deixar, já tenho tudo o que eu quero do mundo.
 A apertou, tocando o barrigão.

 - Estou falando sozinho aqui meu?
 Leandro voltou a si.
 - Desculpe Omar.
 - Ainda pensando na Tereza né? Você ama ela cara, não entre na paranoia. Lembre-se do que eu disse: grávidas são sensíveis.
 - Eu... eu não, eu nunca pensei em trai-la sabe? Como foi que ela colocou isso na cabeça?
 - Leandro, não precisa me convencer. Sei que nem pensa em fazer cachorrada com a Tereza. A sua mulher só teve um pesadelo! É só um pesadelo cara! Não alimente a ideia que não faz bem pra nenhum dos dois. Mudamos de assunto; eu acho que trabalhamos muito longe meu velho.
 Leandro sorriu, Omar podia ter razão. Tentar apagar um incêndio com jornais não daria certo, retomou a conversa.
 - Continue o assunto de que falava antes.
 Omar aprovou com brilho nos olhos.
 - Sobre o filme mental. Nossas melhores cenas em um compilado pessoal especial. Melhor que Copolla, Scorcese ou qualquer grande diretor². Nossas maiores conquistas, desejos, decepções, saudades e amores. Sempre achei esta ideia mais elegante. O que acha?
 - Gosto mais de outra ideia.
 - Qual?
 Leandro não respondeu, diante dele uma loira bonita procurava um lugar para sentar. Vinha sorrindo e era como a descrição de Tereza.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Amor em notas




1 - Conta o poeta


 O pessoal se reunia na praça para ouvir o poeta declamar suas poesias. Estranhamente ele diz a todos:
 - Hoje não recitarei minhas poesias. Mas contarei uma estória que é a pura poesia.
 E começou a contar.
 " Havia um casal perfeito formado na cidade, uma união de alquimia pura. Ela era uma poetisa de renome. Ele um multi-instrumentista premiado. Conheceram-se em um encontro de belas artes e nunca mais se largaram.
 Já se amavam antes de se conhecer pessoalmente, ela escrevia suas poesias escutando os discos que ele fizera. Ele lia as poesias dela e realizava composições.
 Tudo estava destinado.
 O casamento aconteceu pouco depois do primeiro beijo. Sentiam que pertenciam ao outro. A alegria dos dois transbordava e a festa foi luxuosa.
 Foram morar numa casa enorme e bela. Com um jardim imenso e quartos para a música e a poesia.
 Durante essa época lançaram suas mais conhecidas obras. E com o devido sucesso eles melhoraram ainda mais sua situação financeira.
 Difícil ver pessoas mais felizes que Rosa e Proteus. Tinham alguns empregados na vasta casa, arrumadeiras, mordomo e até um jardineiro.
 E o tempo passou, logo completaram cinco anos de casamento. Proteus tinha uma surpresa para Rosa.
 Após todos saírem, os convidados do aniversário e empregados, Proteus pegou seu violino.
 - Essa é tua música Rosa...
 E tocou a composição mais bela do mundo, a poetisa pôs-se a bailar. Seus olhos marejavam em felicidade. Nunca havia ouvido algo tão bonito, tão forte e ao mesmo tempo tão sentimental.
 - É linda Proteus. É a música mais linda que já ouvi.
 Proteus chorou após a execução, enxugou as lágrimas e disse.
 - Chama-se Réquiem para Rosa¹, um réquiem para a vida, enquanto essa música existir você será imortal nas notas.
 Beijaram-se fortemente.
 Da janela alguém observava o casal e de forma suja... cobriu as plantas do jardim com "amor solitário"."

sábado, 22 de abril de 2017

A maquete



 "No tédio criamos, ou destruímos."



 Ele estava com um problema. Sua vida se tornara monocromática, cinza.
 Sua mulher não entendia seu dilema:
 - Deve ser coisa da idade.
 Mas ela raramente pensava sobre isso, afinal, tinha que cuidar de sua vida, também cinza.
 Infeliz, ele continuava suas rotinas.
 Beijava a mesma boca... recebia o mesmo beijo. Trabalhava num trabalho chato, porém útil. Fazia "amor" com a esposa a cada quinta feira...
 Certa vez pensou em ter filhos, mas ele rechaçou a ideia. Sua mulher estava bem em ser cinza.
 Tinha sonhos e fantasias em que chutava o pau da barraca. Sonhos em que ia morar afastado de tudo.
 Já lhe doía encarar aquela selva de pessoas, aquela que gritava o dia inteiro. E era cinza.
 - Onde foram parar as cores?
 Questionava-se sem achar resposta, em sua cabeça, as cores da selva de pessoas não viviam por si só. Somente alimentavam o maldito cinza.
 Tudo começou a mudar quando seu irmão lhe pediu:
 - Eu e minha mulher vamos viajar, cuida da Soninha pra nós?
 Desesperado para sair do tédio aceitou cuidar da sobrinha.
 - Lógico!
 E viu o irmão trazer aquela belezinha de olhos azuis.
 - Oi tio Júlio.
 Ele soltou algo como:
 - Oi Soninha. A gente vai se divertir, não vai?

sábado, 18 de março de 2017

Óculos novos




1 - Fardo


 Eu sofri um acidente quando era criança; meu irmão me empurrou de uma árvore.
 Parece que você cai em câmera lenta.
 Eu vi aquele sorriso sombrio pintado na cara dele. Podia ter me esquivado mas o desgraçado era meu irmão.
 E o mundo lhe diz para confiar na sua família.
 Fora o susto, não tive tempo para sentir dor. A pancada no solo atingiu a nuca e fiquei desacordado.
 Eu acordei no hospital com a voz doce de uma enfermeira. Quando abri os olhos comecei a chorar.
 O mundo havia ficado turvo.


 O médico tentou ser gentil:
 - Aguinaldo, você vai ter de usar óculos. Isso é legal... te torna diferente.
 Tudo que um garoto não quer é ser diferente. O diferente carrega zombarias e apelidos.
 A maior parte disso veio do meu irmão.
 Estava sempre radiante a me azucrinar. Confiante sempre, não levou nem uma palmada pelo que fez comigo.


 Sua felicidade durou pouco.
 Fomos a uma festa de aniversário, após apagar as velas o aniversariante chamou os amigos para andar de bicicleta.
 Meu irmão rechaçou meu pedido de acompanhá-los:
 - O quatro-olhos fica aqui! Se nos seguir leva porrada.


 Foram apanhados por um caminhão não muito longe dali¹, meu irmão morreu na hora.
 O enterro foi triste.
 Posso te dizer que perdoei meu irmão. Ele era só um moleque idiota.
 Responsável direto por eu carregar o fardo em cima do nariz.