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"Escabroso, delirante e assustador! Perfeito!" Por Drauzio Marqezini em 12/04/2012 no site Recanto das Letras.
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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Como um Leproso






Não me convidaram, por consequência minha família não foi convidada.
E isso me faz pensar.
Não é de hoje que me distancio, que pouco me afeto, que tão pouco me importo.
Me sinto como um leproso, preso numa bolha imposta por meu espírito, encarcerado pela minha vontade, cárcere este, auto imposto.
E como a lepra o processo foi progressivo, sou mais pária hoje do que era ontem. Já caminhava na estrada sem destino desde meus primeiros relacionamentos.
Um exemplo simples dos sintomas foi minha carreira profissional. Era incapaz de manter máscaras nos primeiros empregos portanto incapaz de manter. Duravam em média um ano se tanto.
Bastava um dia ruim para que eu pedisse a conta, bastava meu comportamento bizarro para que fosse mandado embora.
E nunca lamentei nenhum deles.
Conheci muitas mulheres e poucas me afetaram.
Pensava que não sabia amar, pobre tolo imaturo, até os que padecem como eu são capazes de amar.
Reflito aqui esperando o coletivo nesse sábado tétrico dando respostas do porquê não ter sido convidado.
Tenho receio de ter um rompante de meu fantasma passado e chutar a mesa com as cartas que tenho hoje.
Desenvolvi máscaras, quando percebi com a maturidade que meu modo de viver não era aceitável pela sociedade.
Afinal, tenho mais prazer lendo do que falando com pessoas que não me interessam, prefiro ouvir boa música do que ir a festivais onde me tocam involuntariamente, escrever meus textos de autor frustrado do que socializar.
Socializar, palavra difícil de falar e pior, difícil de praticar. Para mim, sem máscara, quase impossível. Minha “doença” não tem cura e aumenta com a idade, diferente da lepra que pode ser tratada mesmo que já tenha mutilado bastante seu portador.
Com a necessidade de expor detalhes das vidas nas redes sociais com fotos, áudios e posts ruins me torno um leproso dos tempos modernos.
Visto como o frio doente(cadáver) que não deseja sair com os “amigos” do trabalho.
Amigos do trabalho.
Outra mentira corporativa, posso dizer que tive poucos amigos reais na vida e destes pouquíssimos vieram dos trabalhos.
Uma forma amarga de ver a vida?
Nunca pensei assim, saboreio um livro bom como um macarrão bem feito, escuto músicas boas como se saboreasse um bolo de chocolate. Mas dá pra contar nos dedos as pessoas que me causaram isso com conversa, com brincadeiras ou com sexo.
Tentei ser o melhor possível com minhas namoradas. Algumas compreenderam minha patologia de maneira mais fácil, algumas partilhavam de outras doenças, algumas não me entendem até hoje.
Parei de me culpar (ou tentar) pelas traições muito cedo, parei de me culpar (ou tentar) por dizer as verdades nos relacionamentos mais tarde.
As traições, verdades utilizadas para destruir ou mudar na marra a dinâmica dos relacionamentos amorosos.
Traí e fui traído, dou risada quando escuto pessoas que dizem não trair.
Já nos traímos ao acordar e seguir uma rotina torturante para sobreviver com um sorriso no rosto. Nos traímos em relações de merda com folgados e folgadas.
Trair a si mesmo é uma característica do sapiens.
Se eu fosse uma carta de tarô seria o eremita. Viveria bem sozinho, com bons livros e boa música.
Eu odeio o mundo?
Eu não odeio ninguém, eu odeio ter de ir a encontros idiotas, conversar com gente vazia, sorrir em comemorações que não me apetecem, falar que amo só para tornar vidas suportáveis, odeio amar e não ter, odeio visitar pessoas quando poderia escrever ou ler, eu odeio conviver.
E isso é e sempre será perigoso pra todo o resto.
Eu posso fingir empatia e chorar em uma cena tocante para a maioria.
Mas eu não sinto nada por quase ninguém.
Eu sou aquele que na situação extrema causará o maior dano e tentará sair impune.
Aquele que envenenaria o café que todos tomam para atingir um único e igualmente insignificante ser.
E vou sobreviver a todos vocês.
Mesmo que me conheça a mais de dez anos e viva a três casas da minha. Mesmo que eu não te visite pois não gosto disso e não por que não gosto de você, mesmo que tenha chorado a morte do seu pai verdadeiramente e não espere nada disso.
Mesmo que não tenha me convidado ao seu casamento.
Hoje dizem que correspondemos de um a três por cento da população mundial.
O coletivo chegou.
Olho da janela uma menina contida em seus movimentos, sentada no banco procurando não encostar em ninguém. Tem um livro nas mãos e não quer fazer contato visual, não quer ser reconhecida.
A porcentagem aumenta a cada dia.
Que máscara vou vestir?
Só por hoje¹.


Publicado no site Recanto das Letras em 15/11/2016.



1 - Referência ao espírito do cidadão comum revoltado, presente no conto homônimo.


sábado, 24 de fevereiro de 2018

Inefável


“A melancolia da paixão arrebatadora é o sentimento de existência efêmera e urgente”


1 – O parlamento da chuva

Foi durante o outono.
As montagens dele eram excepcionais, um imenso sucesso de crítica e público. Todos queriam um pedaço de Raul, o cultuado Raul¹.
Tinha lenda de uma personalidade complexa, metódica, repleta de contornos míticos. Era cheio de manias e tiques, diziam que era versado em diversas áreas.
Quando consegui o papel em sua adaptação para o teatro de Pensamento Atropelado sabia que era a chance da minha vida.
Imagine só uma atriz fresca prestes a estrear trabalhando com ele, um bilhete de loteria sorteado. Nos primeiros dias a ansiedade para conhecer o diretor quase me consumiu. Para agravar a situação ele tinha aplicado um de seus habituais sumiços.
Duravam sempre uma semana.
Então esperei os dias, mordendo os lábios, para ver a mente corajosa de Empalando Freiras Virgens.
Começou uma chuva forte numa tarde e eis que surge ensopado nas portas do teatro. Apolíneo e dionisíaco em si, pediu enquanto mastigava suas balas de goma.
- Podem me encontrar lá fora?
Boquiaberto, o elenco acompanhou a força de sua figura e fomos de encontro ao brilho dos raios. Em poucos segundos todos pareciam que tinham saído do mar. Alguns rostos demonstravam raiva e descontentamento, Raul sentou-se ao meio fio e com sua voz grave e a risada característica solicitou:
- Sentem-se comigo, apreciem a chuva!
Ele estava ali em seu bruto, um vanguardista brilhando na rua encharcada, naquele momento todos os presentes sorriram olhando o criador, que sentia milhares de gotas como abraços calorosos.
Fizemos um círculo na calçada e apreciamos a chuva, apreciamos nossas pessoas, apreciamos a arte.
E dali em diante torcíamos para que chovesse para mais um parlamento da chuva.

Natalia Gomes, atriz revelação vencedora do prêmio Esplendor.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A propaganda





Era veiculado durante as madrugadas.
Da varanda de uma casa antiga de madeira um velho de chapéu olha para a câmera, olha pra você.

“Sim senhor, venha conhecer o pedaço. Temos em torno de 25 milhões de habitantes e baldes de ódio pra todo mundo.
Ó deserto imenso de paisagens tétricas, como a vida conseguiu perseverar aqui?
Ódio amigo, do mais puro!
Conhece a história das nações?
Manchadas de sangue, traições e crimes macabros. Nada se compara com isso aqui compadre, nada mesmo!
Odiamos brancos, que odeiam negros, que odeiam índios, que odeiam chineses.
A própria terra daqui nos odeia. Lembrem das grandes caravanas, da fome, das pragas. Aqui o escalpo já foi bem pago, quanto maior a quantidade melhor. Livre das amarras da sociedade no cenário desolado o estupro era impune, nativos tinham como único direito assegurado o de ter uma morte horrível.

sábado, 7 de outubro de 2017

Coceira



             “As palavras são a pintura e as mãos a moldura”


Eu sabia que você iria me chamar.
Fiquei lá esperando, perto daquele cara coberto de tatuagens infantis, perto do alucinado que diz ter se expandido e o cara que fez a Terceira Guerra Mundial na rua dele¹. Acho que sei até o que você pensou me chamando “vou falar com aquele farrapo humano pois ele me incomoda raspando a cara na parede”.
Quem sabe eu não paro com isso enquanto falo contigo, não é?
Tem partes da minha cabeça que o cabelo nem cresce mais.
Ahh... Me pergunta como isso começou, de novo?
A desconfiança, a perturbação, a coceira?
É preciso falar de Tania.
Eu tinha conhecido todas as drogas, todo o prazer que o mundo poderia me proporcionar. Ela se encaixou em mim pois me perturbava, me fazia olhar quando eu não queria, me fazia pensar nela enquanto comia. E nada me perturbava, parecia um instinto, um ato involuntário.
O que eu fazia?
Era um colecionador de livros, editor e crítico literário. Dei o mundo para ela, nos casamos rapidamente. Viajamos, visitamos os melhores restaurantes. Bon vivant.
Ela dizia que queria crescer e voltou a estudar em aulas particulares. Dizia que queria tratar sua mente como tabula rasa e na viagem a Bogotá teve um estalo “preciso aprender Matemática”. No retorno procuramos um bom professor da disciplina.
Quid pro quo, recebi o melhor sexo que ela podia oferecer no período. Depois de um tempo o professor de Matemática começou a me inquietar, só de lembrar dele minha barba coçava, saudades da minha barba.
Não ligue para as lágrimas, hoje aceito melhor a minha condição. É o que posso fazer, não é? O ato, o ferimento, a ação me diz que estou vivo.
O que eu fiz?
Disse a ela, perguntei se tinha algo com o professor. Completávamos quatro anos juntos e ela mentiu. Mentiu para quem conhecia seu cerne mais do que seus pais, para quem viu todas as suas fases e inconstâncias.
Olhou nos meus olhos e mentiu!

sábado, 5 de agosto de 2017

Todo mundo comeu





                "Desconfiaremos primeiramente dos tímidos"


 1 - Ritinha

 Ritinha já estava desaparecida desde segunda. Onde foi parar aquela do riso inesquecível?
 É o que se perguntava o pai, Seu Aristides estava desconsolado, admirava a beleza da filha profundamente.
 - Perdi ano passado a Mirtes. E agora isso.
 E chorava como carpideira adiantada.
 - Com quem ela costumava sair?
 A pergunta do policial era simples para Aristides.
 - A melhor amiga os senhores já ouviram.
 O policial com o pescoço rígido foi incisivo.
 - Não. Ela tinha algum namorado, algum paquera?
 O pai não sabia responder sem denegrir, afinal aqueles policiais eram meros estranhos, achariam que a filha era uma perdida. Sem saberem o quanto Ritinha era doce, amuado ele nada falou.


 Frase de um banheiro da faculdade:
 "Ritinha doce vagabunda, todo mundo já comeu!"



 Se o pai soubesse mais da vida universitária da filha, teria morrido mais cedo.

domingo, 2 de julho de 2017

Singular



“Ocasião que torna infiéis os prometidos”


 - Agora ela deu pra achar que eu vou abandoná-la. Você acredita?
 Omar encheu a mão de salgadinhos e respondeu.
 - Grávidas são assim mesmo. Elas ficam mais sensíveis e o escambau, o que você diz de forma simples vira a terceira guerra mundial.
 Leandro coçou o queixo.
 - Então você passou por isso quando a Amélia estava grávida?
 - Ô, ela achava que eu ia embora com a vizinha que só tinha dois dentes!
 Riram, Leandro olhava para a paisagem repetitiva. A vida estava nos eixos, emprego estável, filho a caminho, acabando a faculdade. Sempre quis ser pai, quando receberam o resultado do exame abriu um sorrisão.
 Tinha certeza que não iria deixá-la¹.

 A viagem de ônibus continuava. Omar empolgado, queria conversar sobre algo que lera.
 - Quem escapou disse que as luzes se apagam, ainda fico com isso na cabeça, é como uma bateria sem carga.
 Leandro concordou com a cabeça, Omar prosseguiu.
 - Outros disseram enxergar uma luz distante em um breu, um farol moribundo.
 A metáfora de Omar o levou a pensar em Tereza, sua mulher foi o farol de sua vida turbulenta.

 Três horas da manhã.
 Um ruído era o sinal nas trevas do quarto, Tereza estava chorando, ele a abraçou forte.
 - Estou aqui, está tudo bem.
 As lágrimas escorriam pelo rosto e molhavam o peito de Leandro.
 - Com o que sonhou linda?
 Ela comprimiu-se nos braços dele, não respondeu de imediato. Ele a conhecia como a palma da mão e lhe deu tempo.
 - Sabia que ia me deixar, foi embora com uma loira bonita! Eu não sou bonita.
 Ela chorava baixinho.
 - Eu não vou te deixar, já tenho tudo o que eu quero do mundo.
 A apertou, tocando o barrigão.

 - Estou falando sozinho aqui meu?
 Leandro voltou a si.
 - Desculpe Omar.
 - Ainda pensando na Tereza né? Você ama ela cara, não entre na paranoia. Lembre-se do que eu disse: grávidas são sensíveis.
 - Eu... eu não, eu nunca pensei em trai-la sabe? Como foi que ela colocou isso na cabeça?
 - Leandro, não precisa me convencer. Sei que nem pensa em fazer cachorrada com a Tereza. A sua mulher só teve um pesadelo! É só um pesadelo cara! Não alimente a ideia que não faz bem pra nenhum dos dois. Mudamos de assunto; eu acho que trabalhamos muito longe meu velho.
 Leandro sorriu, Omar podia ter razão. Tentar apagar um incêndio com jornais não daria certo, retomou a conversa.
 - Continue o assunto de que falava antes.
 Omar aprovou com brilho nos olhos.
 - Sobre o filme mental. Nossas melhores cenas em um compilado pessoal especial. Melhor que Copolla, Scorcese ou qualquer grande diretor². Nossas maiores conquistas, desejos, decepções, saudades e amores. Sempre achei esta ideia mais elegante. O que acha?
 - Gosto mais de outra ideia.
 - Qual?
 Leandro não respondeu, diante dele uma loira bonita procurava um lugar para sentar. Vinha sorrindo e era como a descrição de Tereza.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Amor em notas




1 - Conta o poeta


 O pessoal se reunia na praça para ouvir o poeta declamar suas poesias. Estranhamente ele diz a todos:
 - Hoje não recitarei minhas poesias. Mas contarei uma estória que é a pura poesia.
 E começou a contar.
 " Havia um casal perfeito formado na cidade, uma união de alquimia pura. Ela era uma poetisa de renome. Ele um multi-instrumentista premiado. Conheceram-se em um encontro de belas artes e nunca mais se largaram.
 Já se amavam antes de se conhecer pessoalmente, ela escrevia suas poesias escutando os discos que ele fizera. Ele lia as poesias dela e realizava composições.
 Tudo estava destinado.
 O casamento aconteceu pouco depois do primeiro beijo. Sentiam que pertenciam ao outro. A alegria dos dois transbordava e a festa foi luxuosa.
 Foram morar numa casa enorme e bela. Com um jardim imenso e quartos para a música e a poesia.
 Durante essa época lançaram suas mais conhecidas obras. E com o devido sucesso eles melhoraram ainda mais sua situação financeira.
 Difícil ver pessoas mais felizes que Rosa e Proteus. Tinham alguns empregados na vasta casa, arrumadeiras, mordomo e até um jardineiro.
 E o tempo passou, logo completaram cinco anos de casamento. Proteus tinha uma surpresa para Rosa.
 Após todos saírem, os convidados do aniversário e empregados, Proteus pegou seu violino.
 - Essa é tua música Rosa...
 E tocou a composição mais bela do mundo, a poetisa pôs-se a bailar. Seus olhos marejavam em felicidade. Nunca havia ouvido algo tão bonito, tão forte e ao mesmo tempo tão sentimental.
 - É linda Proteus. É a música mais linda que já ouvi.
 Proteus chorou após a execução, enxugou as lágrimas e disse.
 - Chama-se Réquiem para Rosa¹, um réquiem para a vida, enquanto essa música existir você será imortal nas notas.
 Beijaram-se fortemente.
 Da janela alguém observava o casal e de forma suja... cobriu as plantas do jardim com "amor solitário"."

sábado, 22 de abril de 2017

A maquete



 "No tédio criamos, ou destruímos."



 Ele estava com um problema. Sua vida se tornara monocromática, cinza.
 Sua mulher não entendia seu dilema:
 - Deve ser coisa da idade.
 Mas ela raramente pensava sobre isso, afinal, tinha que cuidar de sua vida, também cinza.
 Infeliz, ele continuava suas rotinas.
 Beijava a mesma boca... recebia o mesmo beijo. Trabalhava num trabalho chato, porém útil. Fazia "amor" com a esposa a cada quinta feira...
 Certa vez pensou em ter filhos, mas ele rechaçou a ideia. Sua mulher estava bem em ser cinza.
 Tinha sonhos e fantasias em que chutava o pau da barraca. Sonhos em que ia morar afastado de tudo.
 Já lhe doía encarar aquela selva de pessoas, aquela que gritava o dia inteiro. E era cinza.
 - Onde foram parar as cores?
 Questionava-se sem achar resposta, em sua cabeça, as cores da selva de pessoas não viviam por si só. Somente alimentavam o maldito cinza.
 Tudo começou a mudar quando seu irmão lhe pediu:
 - Eu e minha mulher vamos viajar, cuida da Soninha pra nós?
 Desesperado para sair do tédio aceitou cuidar da sobrinha.
 - Lógico!
 E viu o irmão trazer aquela belezinha de olhos azuis.
 - Oi tio Júlio.
 Ele soltou algo como:
 - Oi Soninha. A gente vai se divertir, não vai?

domingo, 26 de março de 2017

Satânicos da mídia




- Como conseguiu se foder tanto?
Pergunta o barman, o Pensador do balcão pressionou a testa que sangrava.
- Falando a verdade!
Willy riu:
- Sua verdade. Como sempre, conte do começo.
- Bom... eles iriam destruir o Casulo.

“Entraram após seu culto, sabe como é. Após a pregação vem a bebedeira. A discussão começou após dois deles discordarem sobre o jeito de se criar os filhos. A turma se dividiu e eu tinha um “trabalho” a zelar. Começaram a se insultar, gritavam e assustavam os clientes “normais” do bar. Saltei do banco e entrei na treta.
- Ei. Sabe o que todos nós temos em comum? Somos marionetes do que vocês chamam de mal.
E quase levei um soco, logo de cara.
- Deixem-me explicar, sem citar nomes. Um deles é um camaleão, ele é o que todo homem quer ser. Comer mulheres a vida toda, todas lindas diga-se de passagem, fazer isso sem proteção alguma. Ter estilo e permissão para matar, mais poder do que qualquer presidente, podendo iniciar guerras mundiais. Ah, ser lindo em qualquer de suas representações bebericando seu drink batido, não mexido. Imaginem carregar armas de grande conteúdo bélico em suas roupas e aplicativos, infiltrar-se em qualquer fortaleza inexpugnável. Disfarçar-se, usar documentos falsos e viajar no mundo todo, até conhecer o espaço. Sua nomenclatura de três números¹ ser um símbolo de carisma, de perigo, que transforma a carreira de todo ator, produtor e até de músicos. Uma ode à testosterona e por fim um ode à classe.

sábado, 18 de março de 2017

Óculos novos




1 - Fardo


 Eu sofri um acidente quando era criança; meu irmão me empurrou de uma árvore.
 Parece que você cai em câmera lenta.
 Eu vi aquele sorriso sombrio pintado na cara dele. Podia ter me esquivado mas o desgraçado era meu irmão.
 E o mundo lhe diz para confiar na sua família.
 Fora o susto, não tive tempo para sentir dor. A pancada no solo atingiu a nuca e fiquei desacordado.
 Eu acordei no hospital com a voz doce de uma enfermeira. Quando abri os olhos comecei a chorar.
 O mundo havia ficado turvo.


 O médico tentou ser gentil:
 - Aguinaldo, você vai ter de usar óculos. Isso é legal... te torna diferente.
 Tudo que um garoto não quer é ser diferente. O diferente carrega zombarias e apelidos.
 A maior parte disso veio do meu irmão.
 Estava sempre radiante a me azucrinar. Confiante sempre, não levou nem uma palmada pelo que fez comigo.


 Sua felicidade durou pouco.
 Fomos a uma festa de aniversário, após apagar as velas o aniversariante chamou os amigos para andar de bicicleta.
 Meu irmão rechaçou meu pedido de acompanhá-los:
 - O quatro-olhos fica aqui! Se nos seguir leva porrada.


 Foram apanhados por um caminhão não muito longe dali¹, meu irmão morreu na hora.
 O enterro foi triste.
 Posso te dizer que perdoei meu irmão. Ele era só um moleque idiota.
 Responsável direto por eu carregar o fardo em cima do nariz.