Citações

"Escabroso, delirante e assustador! Perfeito!" Por Drauzio Marqezini em 12/04/2012 no site Recanto das Letras.
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terça-feira, 24 de julho de 2018

Pior do que eu




PIOR QUE EU, você é pior do que eu. Eu me levanto rasgado, sangrando, coberto de porra, cheio de suor, sem rosto.
Esperando que alguém creia, esperando um dia, por uns dias ter lábios para foder, para beijar, para sorrir.
Enquanto procuro um rosto, busco alguém que não quer um rosto. Alguém que quer ser um anônimo de manchete, facilmente esquecido, que tenha um grande ato apenas.
NÃO ACHAVA QUE FUNCIONARIA DE NOVO mas vocês sempre querem agir como os animais que são. Quando pensam em um ato sórdido acrescentam mais e mais detalhes em cada vez. O PROCESSO JÁ COMEÇOU, você quer vivenciar o estupro, quer sentir a pressão da arma ao dar um tiro em alguém. NÃO LUTE, a sociedade é a jaula de vocês.
Os animais selvagens que são confinados em celas adoecem, morrem ou ficam loucos. RELAXE!
VOCÊ ME acha tolo escrevendo isso mas REPETE E REPETE tudo o que está na página NA SUA CABEÇA.
EU FICO impressionado com a força que desconhecem ter.
Faça um teste, fale para um amigo que adora torta de frango que tal alimento é insosso. Diga pra ele todos os dias. No final, o pensamento será CADA VEZ MAIS FORTE.
PAREÇO CADA VEZ MAIS HORRÍVEL!
E aposto contigo que a cabeça de seu amigo transformará a deliciosa torta de frango numa comida indigesta.
SUA CABEÇA VERÁ e de antemão provará todas as tortas de frango do mundo e as vai comparar a UM MONSTRO INIMAGINÁVEL.
E PARA HONRAR SUAS EXPECTATIVAS o paladar vai enganá-lo e ele sentirá um gosto de papel quando comer uma suculenta torta de frango.
EU VOU ME FORMANDO nos pequenos detalhes, na palmada extra no filho birrento, na puxada de cabelo mais forte durante a foda, na palavra atravessada para seu colega de trabalho.
Sempre PERTO DE ONDE VOCÊ ESTÁ!
EU BUSCO ALGUÉM que quer sair da jaula, alguém que você rotula como verme, em uma intensa procura COMO EU. DISPOSTO A UMA TROCA de sua tediosa rotina por um momento de jaula aberta.
Mesmo que isso signifique outra jaula no futuro ou a não existência.
SABE O ARREPIO QUE SENTE QUANDO ESTÁ SOZINHO?
É o animal querendo sair!
Você ficará grato QUANDO EU ESTIVER ATRÁS DE VOCÊ.
O prazer? ELE SERÁ PERMANENTE.
TENTE APAGAR da mente o que está lendo. Você não vai conseguir, é igual ao teste da torta com o amigo.
Quando tentam desesperadamente apagar algo da mente, esse pequeno algo vira o monstruoso algo.
O pensamento recorrente? Ele será permanente!
MAS DEIXA QUE EU COMANDO TUDO. Deixa que eu diga coisas que a sociedade não quer que você pense, mas que está maluco pra fazer.
COMO EU SEREI PRA VOCÊ?
Quando você matuta no pior que você poderia ser, no pior que poderia fazer, como está seu rosto?
Como está seu rosto ao ocultar UM CORPO PODRE?
Ou quando não quer que o vejam MUTILADO?
Quando ri em segredo de um sujeito INFESTADO DE TUMORES?
Como está seu rosto ao ver um corpo COBERTO DE VERMES? Quando pensa que bom que não sou eu.
Como está seu rosto?
Eu, eu não tenho rosto. Mas TE FAREI VER...
O MUNDO sempre foi podre. Explique a histeria em massa, uma ideia é difundida em um grupo de pessoas. Então vocês queimam mulheres “bruxas” e lincham negros.
Eles são como a torta de frango.
Vocês são animais dementes que suplicam por uma jaula e isso os deixa loucos.
SE EU QUISER me levantar, ascender, ter presença, preciso de alguém que queira ser um feliz membro da horda de animais soltos.
Enquanto isso você irá procurar uma razão pra viver. Um dia alguém encherá sua cabeça com políticas de direita. 
Achando-se dono de si VOCÊ IRÁ PRA DIREITA.
Sua atenção me tornará tangível, pleno, preenchido, uno, completo SE EU QUISER.
Não resista; comente, escreva, fale de mim. Discurse sobre o sem rosto.
E quando me sentir irá questionar sua saúde mental.
VOCÊ IRÁ procurar ajuda com seu pai de santo, com seu padre, com um médico.
E noutro dia alguém te encherá a cabeça de políticas de esquerda.
PRA ESQUERDA, você vai se arrastar.
Toda mensagem tem um propósito, mesmo as que parecem inocentes. Como a vontade de apertar mais a coleira de um cachorro que quer ganhar a rua.
A respiração sob estrangulamento do bicho é justificada pra você?
E NO FINAL fincarei meus pés no seu cérebro. E buscará me esquecer NAS ÚLTIMAS LINHAS.
SEREI UMA DESCULPA para que acenda as luzes e que vasculhe a casa. Quando a coisa mais perigosa dentro dela é você.
Afinal, eu não tenho rosto para ser encarado.
PRA FAZER o que quero, para ganhar por um tempo um semblante tenho que ser eficiente em minha mensagem.
O QUE VOCÊ REALMENTE QUER agora é afogar sua besta, estrangular o bicho em você.
Você sabe que em algum lugar perto surge um ferimento e depois um braço. Pode sentir no barulho do cômodo próximo minhas pernas recém aparecidas em passos erráticos.
Você pode sentir. SENTE O ARREPIO?
EU me esgueiro procurando por você.
Então ESTOU PERTO, perto o suficiente para sentir a vibração de seu coração acelerado.
Eu não tenho rosto, me sinto bem NO ESCURO.
Tente.
VIRE-SE após terminar a mensagem para devagar descobrir outra mensagem nas grandes palavras. Mas termine de ler antes de voltar ao começo.
E ME SAÚDE por meu êxito. Faremos o que você quiser, você não quer mais se encarar NO ESPELHO, não é?
VOCÊ É PIOR DO QUE EU.



Publicado no site Recanto das Letras em 24/01/2016.







sábado, 24 de fevereiro de 2018

Inefável


“A melancolia da paixão arrebatadora é o sentimento de existência efêmera e urgente”


1 – O parlamento da chuva

Foi durante o outono.
As montagens dele eram excepcionais, um imenso sucesso de crítica e público. Todos queriam um pedaço de Raul, o cultuado Raul¹.
Tinha lenda de uma personalidade complexa, metódica, repleta de contornos míticos. Era cheio de manias e tiques, diziam que era versado em diversas áreas.
Quando consegui o papel em sua adaptação para o teatro de Pensamento Atropelado sabia que era a chance da minha vida.
Imagine só uma atriz fresca prestes a estrear trabalhando com ele, um bilhete de loteria sorteado. Nos primeiros dias a ansiedade para conhecer o diretor quase me consumiu. Para agravar a situação ele tinha aplicado um de seus habituais sumiços.
Duravam sempre uma semana.
Então esperei os dias, mordendo os lábios, para ver a mente corajosa de Empalando Freiras Virgens.
Começou uma chuva forte numa tarde e eis que surge ensopado nas portas do teatro. Apolíneo e dionisíaco em si, pediu enquanto mastigava suas balas de goma.
- Podem me encontrar lá fora?
Boquiaberto, o elenco acompanhou a força de sua figura e fomos de encontro ao brilho dos raios. Em poucos segundos todos pareciam que tinham saído do mar. Alguns rostos demonstravam raiva e descontentamento, Raul sentou-se ao meio fio e com sua voz grave e a risada característica solicitou:
- Sentem-se comigo, apreciem a chuva!
Ele estava ali em seu bruto, um vanguardista brilhando na rua encharcada, naquele momento todos os presentes sorriram olhando o criador, que sentia milhares de gotas como abraços calorosos.
Fizemos um círculo na calçada e apreciamos a chuva, apreciamos nossas pessoas, apreciamos a arte.
E dali em diante torcíamos para que chovesse para mais um parlamento da chuva.

Natalia Gomes, atriz revelação vencedora do prêmio Esplendor.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Fim do expediente



"Seja bom, pelo amor de Satã... seja bom!"


 Todos os dias Yves acordava cedo. Os olhos cansados contemplavam o rosto acabado.
 Murmurava para o espelho sua oração:
 - Patético.
 E andava rápido em seu patético carro, enfiava-se no engarrafamento patético para chegar ao emprego igualmente patético.

 O dia passa entre as malditas ligações. Subemprego, soa como deve soar. A comida da lanchonete o fez engordar, a rotina o tornou ansioso.
 Duas décadas e meia de uma vida insignificante. Sentado, com o fone ao ouvido sentindo a existência escoar lentamente.
 Acostumou a atender os mal-educados que costumavam ofender sua adorável mãe todos os dias. Era gentil e bom com os novos funcionários que iam aprender o ofício com ele.
 Estava acostumado a ouvir:
 - Como você aguentou ficar três anos neste inferno?
 Respondia automático:
 - Não é tão ruim quando se acostuma.
 Quando se acostuma a destruir o orgulho, seus ouvidos, sua voz. Quando se acostuma a ver os puxa-sacos ganharem puxa-sacos ao subirem de cargo.
 Acostuma-se a ganhar dinheiro para instituições que claramente o viam como algarismo.
 Um número de funcionário.

 Ia começar a seleção interna para escolha do funcionário do mês, se ganhasse lhe dariam um broche idiota. Seu nome enfeitaria uma folha de sulfite imbecil.
 Poderia usufruir de uma folga bônus.
 Uma.

 Neste mês, ele cumprira os requisitos básicos da eleição. Para ser elegível o candidato não podia ter faltas injustificadas e advertências.
 No mês anterior Yves teve de assistir Willian se tornar o funcionário do mês.
 Willian, que tinha a supervisora em boa conta, que escondia suas faltas com resultados em vendas, que era um supremo lambe-botas. Um safado protegido.
 Yves faltou uma única vez no mês anterior por uma emergência familiar. Explicou tudo a supervisão e ganhou uma advertência.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um pedaço de mau caminho






 1 - Desgraçado


 Nasceu com olhos azuis e parecia...
 - Um anjinho.
 Essa foi a frase da mãe ao ver o bebê, para piorar a situação o bastardinho veio com cabelo loiro e ganhou nome de anjo.
 - Vai se chamar Gabriel.
 Dã.
 Mais típico impossível, desde o começo foi mimado. O pequeno gordinho mal saiu do hospital e era convidado a fazer comerciais. E foi enriquecendo os pais ainda sem saber limpar a bunda sozinho.
 Foi crescendo e habituando-se a receber de pronto seus desejos. Com oito anos, descobriu o valor de um rosto para o mundo.
 Estava na escola e roubou o giz colorido do Paulinho, a professora descobriu e veio tirar satisfação.
 - Gabriel. Isso não se faz...
 Ainda nem tinha beijado alguém e descobriu o cinismo.
 - Mas professora esse giz é meu.
 O Paulinho tinha um histórico horrível, batia em todo mundo e ferrava tudo mas ladrão, ladrão não era.
 - Ele tá mentindo professora!
 Doeu no querubim ser contrariado em sua farsa.
 - É meu sim. É meu sim.
 Começou a chorar como um rio, chorava de raiva.
 Vendo que o artifício não funcionava apelou, partiu para pancadaria. Nunca havia batido em ninguém. Talvez por isso tenha sido tão brutal, tão primitivo. Pegou o parrudo Paulinho de surpresa, este caiu para trás e perdeu dois dentes.
 Paulinho levantou com olhos de um carniceiro. Num salto avançou sobre o anjinho.
 Mas um braço forte o conteve de sua satisfação imediata. Era o diretor da escola que passava por ali.
 Gabriel levou sua mentira até as últimas consequências, como reparação, Paulinho foi expulso da escola.
 Neste mesmo dia esperou a saída de Gabriel da escola. Mas os pais do modelo-mirim foram buscar.
 - Não deixo mais meu filho nesta escola de ladrões.
 Sentenciou a mãe e o mudou para a melhor escola paga da região.
 Já o Paulinho; além de perder dois dentes levou uma surra ainda maior do Paulão, o pai, que era famoso por ter mão pesada e praticar boxe no filho.
 - Acho que o Gabriel vai precisar de terapia depois desse trauma, ele ficou tão mal que até bateu no ladrãozinho.
 A terapia do Paulinho pra aprender a não mexer com anjos foi de vários hematomas pelo corpo.
 Gabriel. Boa aparência, bem de vida, requisitos essenciais para surgir um desgraçado.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Rolê pacífico




Amigo, eu sou negro, nasci pobre e estava com meus irmãos no rolê pacífico. Não fica de pé me encarando, senta aí que eu conto.
Dizem no clube que se chama noche pacifica, mas amigo; eu vivia nas ruas.
Então eu chamo de rolê pacífico.
É quando um bando de veteranos, caras que foram baleados, torturados, mutilados, afogados e viveram para...
Viveram para um novo trabalho se reúnem para celebrar sem “interferir” no ambiente.
E por que isso?
Porque isso é um encerramento honroso que lembra a cerne de cada um de nós. Subimos de um buraco sozinhos, sobrevivemos a uma mãe, pai, marido ou esposa sozinhos. Tanto para o positivo quanto para o negativo. Sobrevivemos sozinhos, a tudo; sozinhos.
Mas o clube nos une.
Ali conversamos, bebemos, juntamos amigos de anos e é lógico arrumamos uns bicos. Um cagando pra vida do outro. Desde que nada ameace o clube.
Que bicos?
Que bicos, você pergunta.
Alguns serviços de extermínio de insetos, erradicação. Sim, isso mesmo que o senhor ouviu.
Erradicação.
Mas eles começaram senhor. Só queremos sair daqui, foi legítima defesa. Depois de tudo, o pessoal que estava lá disse que o bar quase tinha sido destruído na semana passada. Na ocasião, disseram que um cara doido acalmou todos com diálogo. Nós só conversamos com os nossos.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Diga mamãe





                              “Opus destruit hominem”


Eu odeio o seu mundo.
Vocês adoram se sentar em suas salas, fechados em cubículos e maquinando contra todos. Claramente engordando a cada segundo com suas idas cada vez mais frequentes a restaurantes e aos fast food enquanto alguns de seus subordinados nem trazem algo pra almoçar.
Adoram quando eles entram no seu “salão sagrado” mendigando algo que pode ajuda-los e vocês podem olhar de cima, sentados em suas cadeiras confortáveis.
Raramente me perguntam sobre meu filho, raramente perguntam se estou bem.
Fingem que a empresa possui valores e preenchem um mural com sua questionável moral. Seu código de conduta é um disfarce para a livre delação e outras práticas detestáveis. Aqui se você pisa fora de um dos parâmetros é traído sem pestanejar.
Devo dizer, nos quase nove anos nessa divisão do purgatório me tornei mais falso, mais amoral e mais cruel do que alguém que não seguiu essa carreira. Quanto mais alto o escalão nessa máquina, mais distante dos outros seres ficamos.
Eu sei por que estou aqui.
Você iria apontar o dedo na minha cara e enfiar goela abaixo que minhas atitudes não condizem com a firma. Na verdade, eu quero falar e você vai ouvir tudo. Tire a mão do telefone! Nenhum segurança deste monte de merda fodida chegará a tempo de te salvar.

domingo, 19 de novembro de 2017

O clube do escorpião





 1 - Longe da vista do mundo


 - Vou contar pra você o que aconteceu...


 "Aqueles dois só queriam um dia de descanso, uma visita ao bar parecia uma boa idéia.
 E ninguém no mundo "normal" espera por um sequestro.
 Na saída do bar foram dominados e encapuzados. Jogados em um porta-malas.
 Por quê um sequestro?
 Fausto e Oscar.
 Amigos inseparáveis até mesmo no sofrimento.
 Foram retirados do porta-malas num paradeiro desconhecido. Retiraram tudo o que lhes seria útil.
 Removeram os capuzes, Fausto e Oscar fitaram uma escuridão tão infindável quanto fria.
 - O que vocês querem? Dinheiro?
 Perguntou Oscar para a escuridão, um dos indivíduos ocultos respondeu:
 - Se tudo der certo tiramos vocês daí.
 Foram empurrados, a queda foi grande. Ao atingir o solo Fausto quebrou o tornozelo esquerdo.
 Oscar feriu a testa.
 Estavam abandonados em um buraco de paredes concretadas lisas. Lá embaixo não havia comida, água ou cobertores.
 Grandes amigos feridos.
 - Nós vamos sair dessa.


 As horas passam, a agonia traz companhia da fome e da sede. Especulam sobre o resgate que seria solicitado, para quem?


 Fausto lembra-se do pai inválido num colchão sujo do asilo. O mesmo inválido que em seus tempos áureos costumava usar o cinto para ensinar lições.
 A mãe era muda sem possuir deficiência alguma, distante e ausente. Morreu sem causar estardalhaço, dormindo.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Oscar lembra-se da rua, fugiu de casa com doze anos e não voltou. Contrariou estatísticas e ainda estava vivo.
 Saiu do grande vazio do seio familiar e buscou o vazio eterno da rua. Seria melhor que rostos estranhos o pudessem fazer mal, não toleraria mais que pessoas de sua família o fizessem trabalhar. Ou as visitas noturnas do seu tio.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Se corroíam com as lembranças e o silêncio. Os pulmões cansados de gritar.


 Cai a noite, a estação traz a chuva.
 Abençoada chuva.
 Fausto e Oscar bebem água da chuva das paredes lisas. Preciosa chuva, aguentariam a sede por hora.
 A temperatura cai rapidamente.
 Maldita chuva.
 Encharcados, morrendo congelados. Esfregam os corpos para diminuir a sensação.


 O cheiro, um odor forte que sentiram desde que aterrissaram ali os enchia de horror.
 Era um cheiro de morte.
 Alguém havia morrido naquele lugar.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A propaganda





Era veiculado durante as madrugadas.
Da varanda de uma casa antiga de madeira um velho de chapéu olha para a câmera, olha pra você.

“Sim senhor, venha conhecer o pedaço. Temos em torno de 25 milhões de habitantes e baldes de ódio pra todo mundo.
Ó deserto imenso de paisagens tétricas, como a vida conseguiu perseverar aqui?
Ódio amigo, do mais puro!
Conhece a história das nações?
Manchadas de sangue, traições e crimes macabros. Nada se compara com isso aqui compadre, nada mesmo!
Odiamos brancos, que odeiam negros, que odeiam índios, que odeiam chineses.
A própria terra daqui nos odeia. Lembrem das grandes caravanas, da fome, das pragas. Aqui o escalpo já foi bem pago, quanto maior a quantidade melhor. Livre das amarras da sociedade no cenário desolado o estupro era impune, nativos tinham como único direito assegurado o de ter uma morte horrível.

sábado, 7 de outubro de 2017

Coceira



             “As palavras são a pintura e as mãos a moldura”


Eu sabia que você iria me chamar.
Fiquei lá esperando, perto daquele cara coberto de tatuagens infantis, perto do alucinado que diz ter se expandido e o cara que fez a Terceira Guerra Mundial na rua dele¹. Acho que sei até o que você pensou me chamando “vou falar com aquele farrapo humano pois ele me incomoda raspando a cara na parede”.
Quem sabe eu não paro com isso enquanto falo contigo, não é?
Tem partes da minha cabeça que o cabelo nem cresce mais.
Ahh... Me pergunta como isso começou, de novo?
A desconfiança, a perturbação, a coceira?
É preciso falar de Tania.
Eu tinha conhecido todas as drogas, todo o prazer que o mundo poderia me proporcionar. Ela se encaixou em mim pois me perturbava, me fazia olhar quando eu não queria, me fazia pensar nela enquanto comia. E nada me perturbava, parecia um instinto, um ato involuntário.
O que eu fazia?
Era um colecionador de livros, editor e crítico literário. Dei o mundo para ela, nos casamos rapidamente. Viajamos, visitamos os melhores restaurantes. Bon vivant.
Ela dizia que queria crescer e voltou a estudar em aulas particulares. Dizia que queria tratar sua mente como tabula rasa e na viagem a Bogotá teve um estalo “preciso aprender Matemática”. No retorno procuramos um bom professor da disciplina.
Quid pro quo, recebi o melhor sexo que ela podia oferecer no período. Depois de um tempo o professor de Matemática começou a me inquietar, só de lembrar dele minha barba coçava, saudades da minha barba.
Não ligue para as lágrimas, hoje aceito melhor a minha condição. É o que posso fazer, não é? O ato, o ferimento, a ação me diz que estou vivo.
O que eu fiz?
Disse a ela, perguntei se tinha algo com o professor. Completávamos quatro anos juntos e ela mentiu. Mentiu para quem conhecia seu cerne mais do que seus pais, para quem viu todas as suas fases e inconstâncias.
Olhou nos meus olhos e mentiu!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Ser como eles





 Do alto do prédio sede da empresa químico-farmacêutica¹ o homem olha.


 Os tons mudam da raiz ao topo, lá em cima o predominante cinza².
 Ele se serve da bebida na mesa e olha pela grande janela aberta do arranha-céu. Divaga com o copo na mão, olha transtornado para baixo.


 - Eu queria ser como eles.


 - Daqui de cima parecem minúsculas formigas operárias que trabalham para senhores como eu. Suas vidas possuem regras simples: colocar o pão na mesa, reunir pessoas queridas, diversões dentro dos limites monetários, amar.  Alheios a minha presença. Eles me olham nos jornais como notícia momentânea. Sou um assunto fraco nas conversas. Facilmente esquecido.


 Vai até a mesa e serve mais bebida. Volta a olhar o abismo.


 - Eu sou o desvio de caminho de suas vidas básicas. Com única decisão posso esmagar milhares de futuros, milhares de sonhos dos que estão lá embaixo. Crio crises em suas cadeias simples. Posso alimentar os males de toda uma geração. Poder com uma decisão.


 Ele sorri. O rosto rapidamente se contrai amargo.


 - Sobra somente a satisfação destrutiva para quem está no topo. Criamos corporações e empresas gigantescas, movemos a vida das formigas. Com o dinheiro-alimento, movem suas vidas transformando. Multiplicando-se. Enchendo as ruas e alavancando-me a prédios maiores. Fico cada vez mais alto, cada vez mais distante. Para me lembrar sempre que não sou como eles.


 Deposita o copo na mesa, vai novamente até a janela. Amargurado.


 - Contentam-se com pouco; abrem seus melhores sorrisos com beijos...


 Em tom mais alto:


 - Eu conheci o mundo inteiro! Eles se importam com a viagem que fizeram ao parente de outra cidade, tenho dinheiro para forrar minha casa! Eles só querem que sobre o suficiente para pagar as contas.


 Coloca as mãos nos bolsos, olha triste o vazio.


 - Riem; aproveitam a curta vida. Interagem expondo minha fragilidade. Eu sou um homem poderoso.


 Retira um cigarro do bolso e o coloca na boca. Faz menção de acendê-lo com o isqueiro. Joga o cigarro pela janela. Apoia a mão na beirada.


 - O abismo é aqui; não lá embaixo. As esperanças acabam quando se está tão alto. O solo é a segurança, ele te faz lembrar que você pertence a algo.


 Ele chora leve.


 - Vidas notáveis. Pessoas que eu adoraria conhecer, sujeitos que se unem por causas. Quando nascemos a vida nos invade com cheiros, com sons, com visões para nos ajudar a compreender seu propósito. Isso não se pode perder durante o tempo, quanto mais distanciamos menos vivemos. O abismo de cada um deles é onde estou. É onde a humanidade acaba.


 Joga o maço de cigarros lá embaixo.


 - Meus amigos de fachada são como eu. As pessoas somente se aproximam de alguém nesta posição quando querem algo.


 O vento açoita os cabelos.


 - Ela me abriu os olhos quando foi embora. Foi viver como eles e ainda sinto o calor de seu beijo de despedida. Disse que eu estava cada vez mais frio. Já se passaram dez anos e o calor do beijo permanece em meus lábios.


 Toca os lábios relembrando.


 - Já é tarde demais para mim, a distância é grande demais. Há quanto tempo não sinto o amor verdadeiro de alguém? Há quanto tempo não se importam verdadeiramente comigo? Há quanto tempo não me importo com alguém?


 Toca a beirada novamente.


 - É tarde. Não tenho tempo para encurtar a distância aos poucos, quero tudo ou nada! Eu queria ser como eles...


 Chora.


 - Devo alcançá-los, abraçá-los.


 Desajeitado sobe ao parapeito.


 - Abraçá-los. Devo alcançá-los, me misturar a eles.


 O homem salta.

 Mistura-se a multidão pasma, as sirenes tocam.







"Conto muito foda! É triste, é intenso, é real!"
Carla Garcia, professora, comentário postado em 15/06/2009.


Extras e referências:

1 - Xemox, complexo químico inspirada em uma fábrica que joga uma nuvem pútrida em uma cidade do interior de SP. A Xemox assombra vários contos do autor, exemplos: O único, Quando a esmola é demais.

2 - Novamente a cor cinza retrata algum sentimento negativo assim como em A maquete.



terça-feira, 29 de agosto de 2017

Destoante



"Por vezes o sentido da vida é a insanidade"


 1 - Reunião babaca


 Reuniam-se toda sexta-feira, era um grupo de leitura e discussões sobre poesia.
 Quem presidia as sessões era um tal de Plínio.
 Plínio era professor de português dos mais quadrados, era praticamente a figura geométrica. Chato era apelido.
 Os outros integrantes da reunião pouco diferiam dele.
 Lucas e Tatiane: um casal de poetas medíocres, um crítico certa vez os chamou de casal calmante, devido ao teor sonífero de suas poesias monótonas e sem sal.
 Otoniel: amante da poesia "dor-nos-córneos", separado há anos, ainda amava a adúltera ex-esposa. Detestava qualquer conotação sexual em poemas.
 Dona Vera: viúva que mantinha o Dona, lutava com o câncer e repudiava poesias macabras e sinistras. Temia imensamente a morte.


 O Plínio nem dava aulas na sexta, apenas para estar com seus amigos em chatice. O grupo lia e relia poetas que não cheiravam, nem fediam.
 Se alguma pessoa citasse Augusto dos Anjos era taxado de mórbido por eles. Se citassem Vinícius, era uma página central de revista de nus para seus ouvidos, julgado pornográfico pelo grupo. E o Bocage?
 Bocage era promíscuo.
 Ginsberg?
 Nem queriam saber de Ginsberg.
 Numa sexta-feira comum estavam em sua "sede", a casa de Plinio, quando alguém bateu na porta. Plínio foi atender.
 - Quem será?
 Era uma jovem linda¹. Estava sobriamente vestida de preto. Plinio pensou:
 "Deve ter errado o endereço, ou deve estar vendendo algo."
 - Aqui é a reunião de amantes da poesia?
 Plínio respondeu.
 - Sim... o que deseja?
 A jovem disse firme:
 - Participar.
 Plínio já ia fechando a porta, a moça continuou ali.
 - Desculpe é um grupo fechado. Passar bem...
 A moça colocou o pé na porta, bem no vão.
 - Tratam a poesia como algo restrito?
 Quatro pares de olhos estavam em cima das costas de Plínio. Esperando pela resposta que ele daria. Ele pensou e disse:
 - Não mocinha... É que, é que nem sabemos o seu nome.
 A linda moça respondeu:
 - Saibam somente que sou uma apreciadora de boa poesia. Também faço meus versos.
 Os olhos de todos brilharam até os de Plínio, afinal, faziam meses que só liam e reliam poesias antigas. Leram até a obra completa de Lucas e Tatiane. Mesmo assim o quadrado disse:
 - Desculpe mocinha.
 Os quatro atrás responderam:
 - Não; espera!
 Plínio ficou sem ação, Otoniel segurou seu braço e cochichou em seu ouvido:
 - Se ela for ruim a chutamos...
 A moça impaciente:
 - E então?
 Plínio à contragosto:
 - Está bem. Entre.
 E a deixaram entrar naquela reunião babaca.

domingo, 20 de agosto de 2017

Férias atrasadas





 Estava com vontade de usar a tesoura. Quando a retirou da caixa, o homem amarrado à mesa começou a gritar novamente.
 Parecia ter uma resistência enorme naqueles pulmões.
 Ele introduziu as lâminas da tesoura nas narinas do homem e fechou.
 O jato de sangue atingiu sua mão direita em satisfação breve.
 Frederico precisava de férias¹.

 Para sair daquela rotina de cortes e ferimentos imaginou uma bela praia. Camarões fritos, cerveja gelada e uma brisa de fim de tarde. Crianças fazendo castelos de areia. Sorrisos presentes em rostos de todas as idades. E, infelizmente, sempre temos de voltar.

 O sangue invadia os olhos do homem na mesa. Frederico limpou com uma toalha o excesso, era preciso que ele visse o que acontecia. Sem a conexão não haveria sentido em nada daquilo. Retirou uma gilete da caixa, com uma das mãos segurou o pênis do homem e foi lhe abrindo a uretra. O trabalho ficou difícil com o vermelho que espirrava. O homem desmaiou, típico.

 Outro lugar bom para as férias seria o campo. Tardes de temperatura agradável. Conversas na varanda e ótima comida.
 Pães de queijo e café com leite, bolo de fubá e requeijão. Dias que pareciam mais longos.

sábado, 29 de julho de 2017

As chaves certas




 Eu¹ estou nesta casa a muito tempo.

 Apenas seguindo esta vida estranha.

 Abro a porta com cuidado, deixo o lixo ou faço qualquer coisa rapidamente.

 A saída sempre é assegurada antes, verifico seu estranho mundo durante um longo tempo pelo meu amigo, o olho mágico.

 Sua sujeira, suas monstruosidades, tem de ficar fora.

 Porta; barreira, muro que me mantêm pouco mais protegido.

 Para quem ou o quê invadir guardo a arma, dependendo do que entrar não será de muita valia.

 Eles, o acaso, os lixeiros, os médicos falhos, assassinos apoiados na escuridão, os canais fora do ar que nos induzem, criaturas rastejando no escuro, trabalhos que nos matam na rotina, filas que apodrecem nossos espíritos, contas que nos encarceram no processo, estão todos nos rodeando, conheço cada centímetro da minha casa².

 Ponto.

 Sempre que estou pensando questiono o porquê de se escrever, olhando as paredes de minha prisão aceita questiono muito.

 Que serve de terapia todo mundo sabe, quem já fez algum tratamento mental conhece isso, eu descobri algo importante há algum tempo.

 Você nunca está sozinho realmente sabia? Se o humano se comunica de várias formas mesmo com sua fragilidade assustadora, o que dizer de coisas incrivelmente profanas e más?

  este texto agora perguntando-se: onde ele quer chegar?

 Meus contatos rareiam, é verdade. Sou taxado de insano por me esconder no lugar que me é mais seguro.

 Textos, contos, mensagens escondem mais significados que aparentam em seu âmago.

 Vírgula.

 Eles, que escreviam coisas sinistras antes de mim entendiam esta simetria macabra, os que ainda escrevem partilham de minha dor enquanto em sua ignorância o resto do mundo sorri.

 Sorriem pois desconhecem a totalidade deste absurdo, eu tive alguns sonhos ruins em que vislumbrei este caos, por estes sonhos eles falaram comigo, os medos falaram comigo e me deram grande incumbência.

 Acima de qualquer terapia e de qualquer vocação, os homens sempre seguem as ordens de seus medos.

 De toda agonia que você pode imaginar confrontar seu maior medo é ápice.

 Seus temores lhe visitam quando está sozinho, quando está sozinha? Ora, eu já disse... nós nunca estamos sozinhos realmente, eu tenho suas chaves... as chaves certas.

 Ombros curvados em direção desta página não te fizeram entender? Por vezes dizemos tudo o que queremos pelas primeiras palavras de nossos períodos.

 HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ









Última página do diário de Allan Miller³.



"Você fez alusão a nomes como Poe, Lovecraft e até Jamie Delano encontrou as chaves e sabe usá-las muito bem."
Jefferson Ravazzi, colecionador irmão.


Extras e referências:

1 - "Eu apenas abro sua porta para eles. Sempre que você lê meus textos, eles sorriem acima de seus ombros." As primeiras palavras dos períodos indicam uma mensagem de Miller sobre sua real intenção.

2 - Aqui Miller faz referência a vários contos de Barone: Peculiaridades, Horda, O maior espetáculo da Terra, Rasteja no escuro, Fim do expediente, A espera. Trechos a frente Miller presta homenagem a grandes escritores perturbados.

3 - Allan Miller, o nome junta dois gênios das HQs (Alan Moore e Frank Miller), psiquiatra e escritor de Horror recluso, Miller sofre de Agorafobia e durante anos trabalhou com os piores casos do Hospício Santa Clara. Um de seus livros mais famosos é Penumbra e cenas mórbidas.




domingo, 23 de julho de 2017

O maior espetáculo da Terra



   "O demônio tem outros nomes conhecidos, nomes humanos"


 1 - Pacto de circo


 Sua vida como hipnotizador estava um marasmo só, sim, existiam os famosos. Ele era somente uma atração do circo.
 Então se achava um fracassado.
 Até a mulher barbada tinha mais prestígio que o pobre Nero¹. Já via o dia que nem o dono do circo poderia aguentar seu desempenho medíocre.
 As pessoas não ficavam totalmente sob sua influência. Imagine que certa vez, a casa estava cheia e o Nero chamou alguém da plateia:
 - Quer participar do número?
 A menina olhou em volta e disse:
 - Tudo bem.
 E o Nero começou a hipnotizá-la. Certa hora gritou:
 - Você caíra em sono profundo agora!
 A menina visivelmente em alerta respondeu:
 - Quando? Agora?
 A gargalhada foi geral. Haviam aqueles que se perguntavam se aquilo era um número de comédia.
 Foi uma total humilhação. Dadas estas circunstâncias resolveu fazer um pacto com o diabo.
 Só não sabia como.
 Um dia terminou seu número, mais um fracasso, quando viu na saída um homem que lhe fez sinal e disse:
 - Você me chamou.
 Ele sabia que era o diabo, confie em mim, se você o olhar saberá que é ele.
 O diabo perguntou:
 - O que você deseja?
 Assustado Nero respondeu:
 - Quero ser famoso com a hipnose.
 O cramulhão:
 - Só isso?
 E o parvo:
 - Só.
 O demo deu uma tossida longa e fez que sim com a cabeça. Então Nero perguntou:
 - Qual é o preço? Minha alma?
 O diabo:
 - Também. Mas eu quero mais, eu quero almas inocentes.
 Nero pensou.
 "Pior do que está não pode ficar".
 E concordou.
 O diabo lhe soprou a testa e sumiu. E tudo mudou.

sábado, 15 de julho de 2017

Faixa 16




 1 – Ruptura¹


 - Eu não vou concordar nunca com essa merda!
 Segurava a foto da próxima capa incrédulo. Ela mostrava dois golfinhos nadando com uma moça de biquíni.
 Fred Fracasso não se conformava. Rud falou:
 - É mudança musical Fred. Aceita velho...
 Há algum tempo percebia que somente ele ainda andava com a jaqueta de couro surrada, os tênis detonados.
 Todos estavam diferentes.
 Cabelos lambidos da moda, detestável moda. Fred ainda era creditado com seu codinome. Mas era uma questão de tempo para que os patrões mudassem tudo.
 E a última coisa a ser mudada seria ele.
 Parecia um Sid Vicious num Coldplay.
 Uma roda e moshs num show da Enya.
 Ou seja...
 Ele era um peixe fora d'água. E desde quando aquele aquário deixou de ser seu?
 Agora ele estava ali com dois alienígenas que lembravam seus amigos.
 Onde estavam os piercings na cara de Dani Desastre? Onde estava o cabelo espetado e bizarro de Rud Ruína? Onde estavam as olheiras e os olhares vidrados dos dois?
 Fred mantinha suas olheiras e seu olhar vidrado, injetado ali.
 - Parece que nem o nome da banda se aplica mais a vocês, seus traíras!
 Fred saiu da sala. Dani o encontrou fora do prédio. Estava sentado num banco fumando um charuto vagabundo.
 A olhou com desprezo:
 - Se veio me convencer pode ir embora!
 Ela parou na frente dele:
 - Cresça Fred. Não dá para você pensar alto? Porra, não dá pra ganhar dinheiro de verdade daquele jeito.
 Ele arregalou os olhos:
 - Dani Desastre você está aí? Você disse porra. Bandas melosas não dizem porra! Eu sei que debaixo destas roupinhas da moda está uma baixista cabulosa.
 - As vezes você faz jus ao teu nome. Fred, faz isso por nós?
 - Dani... eu não faço música diluída.
 Ela sentou ao seu lado.
 - Fred, eu tenho uma filha agora. Não posso mais viver como uma porra-louca.
 - Dani.  Vocês colocaram golfinhos na capa. Golfinhos!
 Ela dá um tapa no ombro dele.
 - Para! Essa jogada vai dar certo, vai criar polêmica. É uma mudança radical cara. Eu e o Rud queremos muito isso. Até as composições estão prontas.
 - Aquelas merdas que eu ouvi na sala são as novas músicas? Eu nem participei de nada.
 Ela grita.
 - O senhor? O senhor estava com o nariz entupido. Com o braço recheado de agulhas! Não está nem aí pra nós Fred!
 Fala mais baixo.
 - Eu e o Rud fizemos até a parte das guitarras.
 - Isso está na cara. Não tinha nem um pouco de peso, nem uma sombra de distorção.
 - Nós sabíamos que não ia ser fácil com você.
 Fred traga o charuto, solta a fumaça e responde.
 - E eu sabia que este contrato com gravadora grande ia fazer isso com a gente.
 Dani segura a mão de Fred.
 - Você é nosso amigo, queremos você conosco.
 - Ou?
 - Evoluímos, aprendemos até o seu instrumento. Você entendeu, não é?
 Com o rosto em fúria.
 - Estão me chutando?
 Ela se levanta.
 - Pensa bem Fred.
 E vai embora, Fred grita.
 - Estão me chutando da banda que eu fundei!?


 A raiva habitual invadiu os sentidos e inundou o corpo. Era o que o impulsionava.
 Surgiu em uma infância tão ruim quanto o inferno e se apegou a ele. Depois de um tempo ela precisou que ele a despejasse, a descarregasse.
 A adolescência e a música. A mistura volátil que lhe foi entregue com amigos tão revoltados quanto ele.
 A banda, os codinomes e toda vertente de autodestruição possível.
 Anos de abusos e perigos. Brigas, confusões e agressões. A raiva precisa de alimento para existir.


 Dani quase morreu com uma overdose cinco anos atrás. Rud perdeu alguns dentes.
 E a raiva vai mudando de alvo, de direção.
 Raiva por ver outros amigos do mundo caótico morrendo.
 Por acabar com todo o dinheiro ganho comprando coisas que lhe faziam mal. Que roubavam sua energia.
 Dois anos atrás Dani recusou-se a dormir com ele novamente. Fred estranhou, viviam livres, sem obrigações com ninguém.
 Dani respondeu que estava apaixonada por Rud.
 E Fred sentiu raiva.
 Ela havia parado com a diversão, depois que ficou com Rud. O que Fred não percebia é que para seus amigos não havia mais diversão.
 Só sequelas.
 Para completar o quadro ela teve uma filha.
 E Fred sentiu raiva por se importar com isso. O contrato da gravadora chegou em meio ao caos da banda. Eles tinham vários fãs no submundo da música. Lotavam os shows.
 Mas os lugares para tocar escasseavam, os fãs transbordavam de raiva e quebravam os estabelecimentos.
 Os cachês mal pagavam os estragos.
 Ficaram famosos por isso.
 Uma gravadora grande cresceu os olhos, achou que a banda conseguiria o estrelato em mídias maiores.
 Assinaram o contrato.
 Com o dinheiro do adiantamento para produzir um novo disco, Rud e Dani procuraram outras sonoridades.
 E Fred se encheu de drogas.


 Meia hora depois entrou na sala de reuniões novamente. Todos esperavam uma reação explosiva.
 E ficaram surpresos com o que ele disse.
 - Tá bem! Eu quero fazer uma faixa para o disco.
 Rud e Dani olharam para o figurão da gravadora. O chefão se pronunciou:
 - Certo. Poderá ser um bônus: faixa 16.
 Fred olhou para baixo escondendo seu olhar de ódio.
 - E depois saio da banda.
 Ninguém manifestou única objeção. Saiu rápido da sala.
 Entre os dois integrantes restantes e o chefão ficou tudo acertado.
 - Será bom... um petisco para seus antigos fãs.

domingo, 23 de abril de 2017

Devolva




"Emprestar é um prazer, devolver é um dever."


 1 - O amanhecer doentio


 Acordou de manhã e tomou seu café magro: pão com manteiga e chá. Foi até o quarto e apanhou o que procurava.
 Não era a primeira vez que faria isso. Deu uma olhada em seu caderno de anotações e limpou suas armas.
 A viagem seria longa e só poderia ser feita após seu trabalho.
 Saiu então para trabalhar, era funcionário dos correios.
 O dia passou em meio ao turbilhão de pessoas que lotava os guichês. Saiu do trabalho aliviado pois agora iria atrás de sua vingança.
 Assoviava um hino de sua nova igreja.


 Rubens estava sem um puto no bolso, quem diria.
 Após uma vida cheia de mimos se tornou um garoto de programa.
 O pior era encarar aquelas velhas carcomidas e aqueles homens nojentos. Vivia então neste ritmo monótono de luxúria.
 Mas esta noite era diferente.
 Rubens estava parado em seu ponto quando viu aquele homem estranho se aproximar de uma casa. O homem carregava uma mala.
 "Deve ser turista, só pode."
 Aquele homem foi se aproximando e lhe perguntou:
 - Você conhece o Renê? Fiquei sabendo que ele morava por aqui.
 O garoto de programa conhecia o Renê, afinal era o maior viciado daquelas bandas. Diziam que o Renê devia até a alma aos traficantes.
 - Conheço sim. Ele mora ali ó!
 E apontou para mostrar a casa. O homem olhou Rubens e disse:
 - Renê tem algo que é meu. Você sabe se ele está em casa?
 Rubens respondeu:
 - Não sei não, ele vive por aí procurando droga...
 O homem começou a andar em direção da casa de Renê, no meio do caminho se virou e disse ao Rubens:
 - Sai dessa vida garoto.
 E lhe deu as costas, Rubens lhe mostrou o dedo médio.
 "Que otário!"
 Viu então o homem bater palmas em frente da casa. Era em torno de onze e quinze.
 Rubens deixou o cigarro nas mãos interessado na cena.
 Renê saiu chapado para atender.
 - Quem é?
 O homem disse:
 - Não lembra de mim Renê?
 Renê coçou os olhos:
 - Não lembro não. Se não te devo... cai fora!
 Ia fechar a porta mas o homem falou gravemente:
 - Me deve sim, vim buscar minha Laura!
 Renê ouviu aquilo espantado:
 - Cara, é você mesmo? Quantos anos que não te vejo, quer entrar?
 O homem respondeu:
 - Só quero a Laura. E uma reparação.
 O chapado lhe disse:
 - Tu vem até minha casa a esta hora procurando isso? Você tá me zoando meu?
 O homem riu:
 - Sabia que não seria fácil. Eu sabia e esperava que não fosse pois isso torna o que vou fazer certo.
 Rubens viu então o brilho da doze, cano cerrado. O homem apontou para Renê e atirou.
 O primeiro tiro destruiu os genitais e parte das coxas.
 - Ahhhhhhhhhrrrrgggghhh!!!
 Os gritos invadiram a rua. O homem levou o indicador à boca e disse a Rubens:
 - Shhhhhh!
 Disse calmamente.
 - Onde está Laura?
 Chorando e sangrando muito Renê apontou o interior da casa. O homem pulou Renê no chão e entrou.
 Gritou dentro da casa:
 - Onde?
 Renê gritou a resposta:
 - Na estante porra! Tu me matou. Tu arregaçou meu pau por causa de uma merda dessa...
 O homem saiu da casa com uma caixa pequena nas mãos.
 - É minha reparação Renê. Meu Senhor, a vingança é minha!
 E atirou na cabeça do drogado. A massa cerebral fez parte do quintal. O homem foi embora calmamente assoviando.
 Rubens estava chocado.
 Só depois percebeu que o cigarro queimava seus dedos.
 A polícia não deu muita atenção ao caso pois Renê era um viciadinho.
 De manhã Rubens saiu de casa para procurar um emprego... num amanhecer doentio.

sábado, 22 de abril de 2017

O único




“A sociedade e a ignorância caminham juntas”


 Estava na reunião não se sabia o porquê, era o típico reacionário. Detestava mudanças.
 Acompanhava-lhe a mulher grávida, a triste Joice, com seu barrigão bonito. Linda como era destoava do chato Veiga.
 A reunião foi organizada pelos “amigos do bairro”.
 Era capitaneada pelo Queiroz, um gordão simpático, que começou a falar:
 - A empresa química-farmacêutica Xemox¹ tem agido em nossa cidade a anos. Recentemente houve um incidente envolvendo o nome da empresa na cidade vizinha. Vazamento químico é coisa séria gente.
 O Veiga lhe interrompeu:
 - E o que isso tem a ver conosco?
 O Queiroz bateu levemente no barrigão e disse:
 - Tudo Veiga! Proponho realizar uma investigação por nós mesmos. A polícia pouco ajudaria ou qualquer orgão. Tenho a suspeita que a empresa despeja lixo em nosso principal rio.
 O mala do Veiga:
 - E..?
 Irritado o Queiroz revela:
 - Pode haver contaminação de solo, da água e dos animais, até nós podemos estar contaminados.
 Houve então a votação pela investigação, somente o Veiga recusou.
 Pensava em outras coisas e recusou.
 E foi o único.

domingo, 12 de março de 2017

Conheça o criador



Sempre quis conversar com você diretamente, sem utilizar metáforas ou desvios. Eu tenho família, pago contas mensais, crio meu filho nesse mundo cada vez mais difícil, cada vez mais caro.
Diferente da maioria eu não me contento somente com o embotamento da televisão e da avalanche de merda que se tornou nossa música.
Sem ganhar um centavo, na mais pura paixão, quando tenho momentos de tranquilidade eu crio, alimento e construo pesadelos.

Quando a dúvida e a suspeita se tornam fortes, quando o arrepio se forma na coluna e a perplexidade é tangível tenho a convicção de uma boa obra.
Você precisa disso, você necessita de alguém que lhe mostre que o mundo nem sempre é bom. Que várias vezes as coisas não saem da melhor forma.
Bons criadores de pesadelos evitam mortes.
O medo mais forte é o disseminado. Quantas vezes lhe disseram para não andar sozinha em locais mal iluminados, não caminhar com o pagamento no bolso, não se encher de comidas pesadas noite adentro, não se entupir de drogas.

A república do não é instaurada pelo medo.

Nossos pais, nossa família, nossos amigos são disseminadores não conscientes do Horror. Mesmo os achando um porre provavelmente você só está vivo ou viva pelos conselhos e sermões não solicitados.
Afinal, se você é branco está em perigo, se é negro está em perigo, se é mulher está em perigo.
Há perigo de sobra para asiáticos, crianças, católicos, evangélicos, judeus e protestantes.
Dia desses li sobre um sujeito que gostava de estuprar brutalmente velhinhas e estrangular com o sutiã.
Não se pode evitar o estupro sendo velha hoje em dia, nem homem, nem bebê...
O medo nos movimenta, você se acha alguém sem medo? Ninguém é Murdock¹, temos medo de demonstrar o que sentimos, temos medo de como falamos e para quem falamos.
Construo pesadelos e nunca ficarei sem matéria prima. Sempre haverá uma caneta, um lápis, um teclado, página ou tela.
Sempre haverá uma mente, um enigma.
Um quebra cabeça horrendo.
Uma dona de casa serve o almoço em seu vestido perfeito. Na mesa os convidados sorriem mostrando dentes perfeitos. Elogiam o molho de carne e ela sorri em seu quadro de Rockwell². Dão falta do pequeno cachorro que mordia os calcanhares perfeitos da perfeita Amélia. Antes de todos chegarem ela torcia para a receita dar certo, olhando os pratos cheios na mesa veio a certeza de que havia cozinhado bem o cão.
Perto dali um homem transtornado convicto em sua fé recupera com sangue tudo o que havia emprestado³. Sua lógica insana desafia a policial que o caça, que tece um cenário aterrador. A nova igreja da cidade sempre criará um novo monstro. 
E o culto acontece toda noite.

Talvez isso, essa declaração, essa carta de amor à criação seja uma introdução de um livro nunca escrito.
Talvez seja um desabafo de alguém que todos os dias pensa em desistir mas se lembra do prazer de ver a caneta criando um mundo na folha branca.
Alguém eufórico que deseja afetar as pessoas. Que não quer passar apagado como aquele pesadelo que montou.
Aquele em que o sujeito queria destruir sua identidade e se torna nada.
Permita que eu encha um momento do seu dia de desconfiança, de imprevisibilidade, de caos.
Aqui sou o Rei no reino das páginas, governante das linhas, sentenciando personagens ao tormento, ao delírio, à vida, sentenciando-os à morte!
Muito prazer, sou um criador de pesadelos.




Publicado no site Recanto das Letras em 15/05/2016.




"Diálogo claro de um criador de ideias, visceral, que quer te mostrar que o mais mundano dos eventos é recheado do horror, se você parar para imaginar. Pois a matéria prima do pesadelo é a realidade, e as quimeras que nos atormentam são mutações dos medos banais que nos impõem. Sobra ao autor de terror apenas organizar o caos em um mundo onde poucos apreciam um bom trabalho, como sempre digo, valorize o criador que valoriza você, leitor." 
Psycho Vincent, escritor que publica no Recanto das Letras desde 2011.