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"Escabroso, delirante e assustador! Perfeito!" Por Drauzio Marqezini em 12/04/2012 no site Recanto das Letras.
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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Só por hoje







 Ele¹ acordou nove horas.
 Apesar de estar de férias.
 Sentiu que não estava aproveitando. Era para estar descansando, gostaria de acordar ao meio-dia.
 As pessoas o impulsionavam a fazer coisas e ele não gostava disso. A situação se agravou pois voltou a morar com a mãe. Ele se perguntava o porquê dos relacionamentos terminarem.
  Parecia que o destino cravava as garras em seu desapego familiar. Quando pensou que ficaria longe da mãe para sempre tudo deu errado.
 Morar com a namorada foi complicado.
 E após um tempo, insustentável.
 Residir com a namorada foi comparado com dividir o teto com qualquer parente no quesito chatice.
 Todos que se relacionavam com ele chegavam as mesmas atitudes. Dedos na cara e milhares de perguntas.
 "O que você faz com seu dinheiro?"
 "Você deveria fazer algo da tua vida!"
 "Você não pensa em crescer?"
 "Porquê não faz um curso ou volta pra faculdade?"
 Todos opinavam, todos questionavam. Ele queria morrer sempre que tinha de responder.
 "Paguei as contas e comprei..."
 Geralmente o rosto do opinador-questionador(chato entre outras conotações) se alterava diante dessa resposta. E soltava os cachorros.
 "Comprou o quê? Um livro? Um gibi estúpido? É por isso que você não consegue nada..."
 E blá, blá, blá.
 Ou quando respondia:
 "Eu não sei o que fazer."
 O opinador-questionador-chato ficava incrédulo.
 "Não acredito. Com essa idade ainda não sabe o que fazer?"
 Falavam como se ele fosse falecer em dois minutos. E toda vez que ele achava uma forma de prazer: escrever, teatro, cinema, quadrinhos etc. Tinha de escutar:
 "Vai fazer teatro com seus amigos? Mas eles são um fracasso! Um bando de gente que não tem onde cair morta."
 Ou:
 "Gastou quanto nisso!?"
 Um verbo que os opinadores-questionadores-chatos conheciam bem: gastar.
 Parecia que ninguém lembrava do verbo viver.
 Parou de matutar, correu para o banho. Estava atrasado.


 Saindo de casa a voz da mãe grita no seu cérebro.
 "Não esquece de dar comida para os cachorros."
 Estava de férias.
 Isso potencializava seu egoísmo frustrado. Queria somente se alimentar. Seria mais conveniente envenenar os caninos.
 A matriarca grita novamente e ele volta para dar comida aos animais.


 Ao entrar no transporte público lhe saltou da carteira a fácil nota de vinte. Tentou pagar o cobrador, este se recusou a aceitar o dinheiro. Apontou para um adesivo imbecil no vidro.
 "Troco máximo permitido R$ 10,00."
 Então era isso?
 Se por acaso lhe faltasse outras notas teria de descer. Ele pensa e olha para o cobrador.
 "O que eu faço com você?"
 Age rápido. Puxa a mão direita do cobrador de encontro a roleta, com o joelho prende a mão esmagando. O cobrador grita, ele puxa seus cabelos e começa a bater a cabeça contra o caixa.
 Os dentes quebrados caem no caixa aberto, manchando as notas de sangue.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um pedaço de mau caminho






 1 - Desgraçado


 Nasceu com olhos azuis e parecia...
 - Um anjinho.
 Essa foi a frase da mãe ao ver o bebê, para piorar a situação o bastardinho veio com cabelo loiro e ganhou nome de anjo.
 - Vai se chamar Gabriel.
 Dã.
 Mais típico impossível, desde o começo foi mimado. O pequeno gordinho mal saiu do hospital e era convidado a fazer comerciais. E foi enriquecendo os pais ainda sem saber limpar a bunda sozinho.
 Foi crescendo e habituando-se a receber de pronto seus desejos. Com oito anos, descobriu o valor de um rosto para o mundo.
 Estava na escola e roubou o giz colorido do Paulinho, a professora descobriu e veio tirar satisfação.
 - Gabriel. Isso não se faz...
 Ainda nem tinha beijado alguém e descobriu o cinismo.
 - Mas professora esse giz é meu.
 O Paulinho tinha um histórico horrível, batia em todo mundo e ferrava tudo mas ladrão, ladrão não era.
 - Ele tá mentindo professora!
 Doeu no querubim ser contrariado em sua farsa.
 - É meu sim. É meu sim.
 Começou a chorar como um rio, chorava de raiva.
 Vendo que o artifício não funcionava apelou, partiu para pancadaria. Nunca havia batido em ninguém. Talvez por isso tenha sido tão brutal, tão primitivo. Pegou o parrudo Paulinho de surpresa, este caiu para trás e perdeu dois dentes.
 Paulinho levantou com olhos de um carniceiro. Num salto avançou sobre o anjinho.
 Mas um braço forte o conteve de sua satisfação imediata. Era o diretor da escola que passava por ali.
 Gabriel levou sua mentira até as últimas consequências, como reparação, Paulinho foi expulso da escola.
 Neste mesmo dia esperou a saída de Gabriel da escola. Mas os pais do modelo-mirim foram buscar.
 - Não deixo mais meu filho nesta escola de ladrões.
 Sentenciou a mãe e o mudou para a melhor escola paga da região.
 Já o Paulinho; além de perder dois dentes levou uma surra ainda maior do Paulão, o pai, que era famoso por ter mão pesada e praticar boxe no filho.
 - Acho que o Gabriel vai precisar de terapia depois desse trauma, ele ficou tão mal que até bateu no ladrãozinho.
 A terapia do Paulinho pra aprender a não mexer com anjos foi de vários hematomas pelo corpo.
 Gabriel. Boa aparência, bem de vida, requisitos essenciais para surgir um desgraçado.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Rolê pacífico




Amigo, eu sou negro, nasci pobre e estava com meus irmãos no rolê pacífico. Não fica de pé me encarando, senta aí que eu conto.
Dizem no clube que se chama noche pacifica, mas amigo; eu vivia nas ruas.
Então eu chamo de rolê pacífico.
É quando um bando de veteranos, caras que foram baleados, torturados, mutilados, afogados e viveram para...
Viveram para um novo trabalho se reúnem para celebrar sem “interferir” no ambiente.
E por que isso?
Porque isso é um encerramento honroso que lembra a cerne de cada um de nós. Subimos de um buraco sozinhos, sobrevivemos a uma mãe, pai, marido ou esposa sozinhos. Tanto para o positivo quanto para o negativo. Sobrevivemos sozinhos, a tudo; sozinhos.
Mas o clube nos une.
Ali conversamos, bebemos, juntamos amigos de anos e é lógico arrumamos uns bicos. Um cagando pra vida do outro. Desde que nada ameace o clube.
Que bicos?
Que bicos, você pergunta.
Alguns serviços de extermínio de insetos, erradicação. Sim, isso mesmo que o senhor ouviu.
Erradicação.
Mas eles começaram senhor. Só queremos sair daqui, foi legítima defesa. Depois de tudo, o pessoal que estava lá disse que o bar quase tinha sido destruído na semana passada. Na ocasião, disseram que um cara doido acalmou todos com diálogo. Nós só conversamos com os nossos.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Socializando




Ela precisava socializar, é o que todos diziam.
“Flávia, você fica no seu mundo e conversa com os outros apenas pela internet, precisa sair mais”
Sair mais, não ficar sozinha mais uma noite. O mundo é fugaz, não basta nossa própria companhia para todos.
“Você é tão bonita, devia aproveitar a vida”
E era bonita mesmo, não achava que desperdiçava a vida. Não gostava que os outros sequer pensassem nela.
O fato é que de tanto martelarem, de tanto falarem, de tanto encherem o saco e somando as malditas festas de fim de ano, conseguiram deixá-la deprimida.
Ajeitou seu cabelo curto e preto, botou o batom vermelho e saiu sem rumo.

Acabou parando no bar de um amigo de faculdade. O ambiente era patético, poucos solitários iam para a rua nas vésperas de festas.
- Todos com a família e os amigos.
Lhe respondeu o dono.
Foi aí que viu ele.
Ele parecia grande mesmo sentado no balcão, tinha um rosto mediano e uma bela barba. Os olhos eram a cereja do bolo, pousaram fixos nela.
“Eu espero que ele venha até aqui, nem a pau que vou lá”
Estava decidida, tomaria mais uma dose e se ele não fosse falar com ela iria embora.
Então ele sorriu pra ela, o choque foi tão grande que ela retribuiu com um “uh”!
“Espero que ele não tenha ouvido isso”
Já vinha em sua direção, ele cheirava bem.
- Está criando coragem para aparecer na festa?
A investida boba a fez corar.
- Não tenho festa pra ir.
Ele continuou com as frases tolas:
- Bonita assim e toda arrumada sem lugar pra ir? Qual é seu nome?
Não sabia se era o jeito ingênuo da chegada dele, ou o modo que olhava, daria uma chance:
- Flávia.
Ele passou a mão pela barba.
- Flávia, eu sou Ivan. Tenho um lugar para ir mas me falta companhia.
E estendeu a mão.
- Quer ir comigo? Não se preocupe, é aqui perto.
Ela fez uma cara de relutante.
- Lembrando que toda a rua é iluminada e tem várias pessoas perambulando indo para suas casas.
Ela riu.
Saíram juntos do bar.

A casa estava iluminada, havia pouco mais de uma dezena de pessoas ali. Flávia cruzou a porta e alguns conversaram entre si. Ninguém prestou a atenção nela e Ivan não a apresentou. O lugar fedia, justificado cheiro de festa.
De mãos dadas com Ivan não ligou. Tentaria socializar, haveria tempo para isso.
- Me diga o que você quer ouvir Flávia.
Ela pensou: Mas eu não conheço ninguém, e se não gostarem?
Ivan sorriu:
- Está na minha casa e vamos ouvir o que você quiser!
“Qualquer coisa que não seja pra baixo, afinal não estou sozinha, diga qualquer coisa menos Joy Division¹
E sua boca a traiu com o que queria de verdade:
- Joy Division.
O barbudo arregalou os olhos.
- Putz coloco com prazer, é uma das minhas bandas preferidas. Que coincidência.
E atravessou o grupo de pessoas para alcançar o som. Enquanto She's lost control invadia a sala ela permitiu balançar a cabeça e curtir de leve com as mãos.
Parecia que estava conseguindo.

O povo parecia não dar a mínima pra música. Para Ivan o que importava era Flávia, lhe trouxe uma taça de espumante devidamente gelado.
Então ele sentou ao seu lado, os outros convidados ficaram encarando, aquilo atraiu a atenção de todos.
- Você é um achado, sem sombra de dúvida.
Flávia pôde ouvir o cochicho do rapaz de camisa vermelha que estava próximo do sofá.
- Ele sempre diz isso...
Ivan chegava mais perto e já encostava a mão em sua perna.
- Flávia, Flávia. Parece que você é meu número, meu número da sorte.
E aí a magia se perdeu, ele veio como um carro desgovernado para cima dela. Avançando o sinal e adentrando sua boca.
Todos olhavam enquanto ela colocou as mãos no peito dele, tentando afastar o grandalhão.
“Ninguém vai me ajudar?”
De repente ele pareceu sentir as pequenas mãos e se afastou com o rosto perturbado.
- Desculpe, é que passo muito tempo sozinho e não sei como agir.
O rapaz de vermelho olhou para Flávia:
- Sempre a mesma desculpa, aff!
Ivan se levanta.
- Vou pegar mais alguma coisa pra bebermos.
E foi na cozinha, Flávia disse ao cara de vermelho:
- Depois desse atropelamento eu vou embora!
Atônito ele chegou mais perto dela:
- Você estava ouvindo o que eu disse!? Querida vai embora logo! Lucile!
Ele chamava uma negra muito bonita do outro lado da sala. Lucile foi até o som, parecia concentrada, após um toque a música parou.
Ivan gritou da cozinha:
- Desculpe, parece que a energia desta casa é uma bosta.
Quando o som voltou começou a tocar She's lost control novamente. E Ivan grita:
- Porra!
Flávia se sentia tonta, o homem de vermelho fala rapidamente:
- Ele vai mexer no rádio primeiro quando voltar, se você for embora logo, talvez não a alcance.
Apavorada pela urgência das palavras, Flávia tentou levantar mas suas pernas não responderam.
- Me ajudem!
Ela disse para todos na sala, os rostos consternados só observavam.
- Pobre coitada!  Acho que você não entendeu querida, estamos tentando ajudar como podemos.
E um momento depois Ivan já estava sobre ela, as mãos em seu pescoço invencíveis. Tudo se fechava naqueles segundos finais durante a violação e o estrangulamento. Flávia soltou um baixo pedido de socorro.
Em resposta, o rosto suado de Ivan:
- Estamos sós aqui, doze! Só nós!
Perdendo a vida, Flávia vê as pessoas da sala perdendo as formas.
Foi depositada embaixo do assoalho ao lado de um esqueleto com camisa vermelha.

Era o número onze.



Extras e referências:

1 - Joy Division, banda liderada por Ian Curtis, expoente do pós-punk com flertes ao gótico. She's lost control representa a cama de gato com a protagonista.



domingo, 10 de dezembro de 2017

Diga mamãe





                              “Opus destruit hominem”


Eu odeio o seu mundo.
Vocês adoram se sentar em suas salas, fechados em cubículos e maquinando contra todos. Claramente engordando a cada segundo com suas idas cada vez mais frequentes a restaurantes e aos fast food enquanto alguns de seus subordinados nem trazem algo pra almoçar.
Adoram quando eles entram no seu “salão sagrado” mendigando algo que pode ajuda-los e vocês podem olhar de cima, sentados em suas cadeiras confortáveis.
Raramente me perguntam sobre meu filho, raramente perguntam se estou bem.
Fingem que a empresa possui valores e preenchem um mural com sua questionável moral. Seu código de conduta é um disfarce para a livre delação e outras práticas detestáveis. Aqui se você pisa fora de um dos parâmetros é traído sem pestanejar.
Devo dizer, nos quase nove anos nessa divisão do purgatório me tornei mais falso, mais amoral e mais cruel do que alguém que não seguiu essa carreira. Quanto mais alto o escalão nessa máquina, mais distante dos outros seres ficamos.
Eu sei por que estou aqui.
Você iria apontar o dedo na minha cara e enfiar goela abaixo que minhas atitudes não condizem com a firma. Na verdade, eu quero falar e você vai ouvir tudo. Tire a mão do telefone! Nenhum segurança deste monte de merda fodida chegará a tempo de te salvar.

domingo, 19 de novembro de 2017

O clube do escorpião





 1 - Longe da vista do mundo


 - Vou contar pra você o que aconteceu...


 "Aqueles dois só queriam um dia de descanso, uma visita ao bar parecia uma boa idéia.
 E ninguém no mundo "normal" espera por um sequestro.
 Na saída do bar foram dominados e encapuzados. Jogados em um porta-malas.
 Por quê um sequestro?
 Fausto e Oscar.
 Amigos inseparáveis até mesmo no sofrimento.
 Foram retirados do porta-malas num paradeiro desconhecido. Retiraram tudo o que lhes seria útil.
 Removeram os capuzes, Fausto e Oscar fitaram uma escuridão tão infindável quanto fria.
 - O que vocês querem? Dinheiro?
 Perguntou Oscar para a escuridão, um dos indivíduos ocultos respondeu:
 - Se tudo der certo tiramos vocês daí.
 Foram empurrados, a queda foi grande. Ao atingir o solo Fausto quebrou o tornozelo esquerdo.
 Oscar feriu a testa.
 Estavam abandonados em um buraco de paredes concretadas lisas. Lá embaixo não havia comida, água ou cobertores.
 Grandes amigos feridos.
 - Nós vamos sair dessa.


 As horas passam, a agonia traz companhia da fome e da sede. Especulam sobre o resgate que seria solicitado, para quem?


 Fausto lembra-se do pai inválido num colchão sujo do asilo. O mesmo inválido que em seus tempos áureos costumava usar o cinto para ensinar lições.
 A mãe era muda sem possuir deficiência alguma, distante e ausente. Morreu sem causar estardalhaço, dormindo.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Oscar lembra-se da rua, fugiu de casa com doze anos e não voltou. Contrariou estatísticas e ainda estava vivo.
 Saiu do grande vazio do seio familiar e buscou o vazio eterno da rua. Seria melhor que rostos estranhos o pudessem fazer mal, não toleraria mais que pessoas de sua família o fizessem trabalhar. Ou as visitas noturnas do seu tio.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Se corroíam com as lembranças e o silêncio. Os pulmões cansados de gritar.


 Cai a noite, a estação traz a chuva.
 Abençoada chuva.
 Fausto e Oscar bebem água da chuva das paredes lisas. Preciosa chuva, aguentariam a sede por hora.
 A temperatura cai rapidamente.
 Maldita chuva.
 Encharcados, morrendo congelados. Esfregam os corpos para diminuir a sensação.


 O cheiro, um odor forte que sentiram desde que aterrissaram ali os enchia de horror.
 Era um cheiro de morte.
 Alguém havia morrido naquele lugar.

sábado, 7 de outubro de 2017

Coceira



             “As palavras são a pintura e as mãos a moldura”


Eu sabia que você iria me chamar.
Fiquei lá esperando, perto daquele cara coberto de tatuagens infantis, perto do alucinado que diz ter se expandido e o cara que fez a Terceira Guerra Mundial na rua dele¹. Acho que sei até o que você pensou me chamando “vou falar com aquele farrapo humano pois ele me incomoda raspando a cara na parede”.
Quem sabe eu não paro com isso enquanto falo contigo, não é?
Tem partes da minha cabeça que o cabelo nem cresce mais.
Ahh... Me pergunta como isso começou, de novo?
A desconfiança, a perturbação, a coceira?
É preciso falar de Tania.
Eu tinha conhecido todas as drogas, todo o prazer que o mundo poderia me proporcionar. Ela se encaixou em mim pois me perturbava, me fazia olhar quando eu não queria, me fazia pensar nela enquanto comia. E nada me perturbava, parecia um instinto, um ato involuntário.
O que eu fazia?
Era um colecionador de livros, editor e crítico literário. Dei o mundo para ela, nos casamos rapidamente. Viajamos, visitamos os melhores restaurantes. Bon vivant.
Ela dizia que queria crescer e voltou a estudar em aulas particulares. Dizia que queria tratar sua mente como tabula rasa e na viagem a Bogotá teve um estalo “preciso aprender Matemática”. No retorno procuramos um bom professor da disciplina.
Quid pro quo, recebi o melhor sexo que ela podia oferecer no período. Depois de um tempo o professor de Matemática começou a me inquietar, só de lembrar dele minha barba coçava, saudades da minha barba.
Não ligue para as lágrimas, hoje aceito melhor a minha condição. É o que posso fazer, não é? O ato, o ferimento, a ação me diz que estou vivo.
O que eu fiz?
Disse a ela, perguntei se tinha algo com o professor. Completávamos quatro anos juntos e ela mentiu. Mentiu para quem conhecia seu cerne mais do que seus pais, para quem viu todas as suas fases e inconstâncias.
Olhou nos meus olhos e mentiu!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Alva




      "O nosso maior medo é reconhecer como somos de verdade"


 - Que tal Alva?
 A escolha do nome foi difícil, não era um bebê que estava a caminho. Mas era de vital importância um nome de comum acordo ao casal.
 Irina ouviu a sugestão de Lúcio e concordou com a cabeça.
 Ele riu.
 - Será Alva então!
 E voltaram aos beijos.


 Irina e Lúcio eram amigos de longa data. Ela se casou e Lúcio seguiu quebrando a cabeça. A mãe dele sempre dizia:
 - Não arruma mulher casada! Lembra dos problemas que conseguiu.
 Se referia a um caso antigo de Lúcio, uma tal de Joana. Mas foi por infelicidade que bastou Irina casar para Lúcio descobrir que a amava.
 Os amigos se tornaram amantes, faziam de tudo para estar juntos. Secretamente sempre se encontravam e construíam planos.
 - Estaremos juntos de verdade logo.
 Irina queria se divorciar e ficar com Lúcio. Encontravam duas barreiras que atrapalhavam seus planos.
 Uma era o marido de Irina, outra a mãe de Lúcio. Queriam acertar as coisas de modo rápido.
 Estavam "namorando" por dois meses quando tiveram a ideia.

sábado, 5 de agosto de 2017

Todo mundo comeu





                "Desconfiaremos primeiramente dos tímidos"


 1 - Ritinha

 Ritinha já estava desaparecida desde segunda. Onde foi parar aquela do riso inesquecível?
 É o que se perguntava o pai, Seu Aristides estava desconsolado, admirava a beleza da filha profundamente.
 - Perdi ano passado a Mirtes. E agora isso.
 E chorava como carpideira adiantada.
 - Com quem ela costumava sair?
 A pergunta do policial era simples para Aristides.
 - A melhor amiga os senhores já ouviram.
 O policial com o pescoço rígido foi incisivo.
 - Não. Ela tinha algum namorado, algum paquera?
 O pai não sabia responder sem denegrir, afinal aqueles policiais eram meros estranhos, achariam que a filha era uma perdida. Sem saberem o quanto Ritinha era doce, amuado ele nada falou.


 Frase de um banheiro da faculdade:
 "Ritinha doce vagabunda, todo mundo já comeu!"



 Se o pai soubesse mais da vida universitária da filha, teria morrido mais cedo.

domingo, 23 de julho de 2017

O maior espetáculo da Terra



   "O demônio tem outros nomes conhecidos, nomes humanos"


 1 - Pacto de circo


 Sua vida como hipnotizador estava um marasmo só, sim, existiam os famosos. Ele era somente uma atração do circo.
 Então se achava um fracassado.
 Até a mulher barbada tinha mais prestígio que o pobre Nero¹. Já via o dia que nem o dono do circo poderia aguentar seu desempenho medíocre.
 As pessoas não ficavam totalmente sob sua influência. Imagine que certa vez, a casa estava cheia e o Nero chamou alguém da plateia:
 - Quer participar do número?
 A menina olhou em volta e disse:
 - Tudo bem.
 E o Nero começou a hipnotizá-la. Certa hora gritou:
 - Você caíra em sono profundo agora!
 A menina visivelmente em alerta respondeu:
 - Quando? Agora?
 A gargalhada foi geral. Haviam aqueles que se perguntavam se aquilo era um número de comédia.
 Foi uma total humilhação. Dadas estas circunstâncias resolveu fazer um pacto com o diabo.
 Só não sabia como.
 Um dia terminou seu número, mais um fracasso, quando viu na saída um homem que lhe fez sinal e disse:
 - Você me chamou.
 Ele sabia que era o diabo, confie em mim, se você o olhar saberá que é ele.
 O diabo perguntou:
 - O que você deseja?
 Assustado Nero respondeu:
 - Quero ser famoso com a hipnose.
 O cramulhão:
 - Só isso?
 E o parvo:
 - Só.
 O demo deu uma tossida longa e fez que sim com a cabeça. Então Nero perguntou:
 - Qual é o preço? Minha alma?
 O diabo:
 - Também. Mas eu quero mais, eu quero almas inocentes.
 Nero pensou.
 "Pior do que está não pode ficar".
 E concordou.
 O diabo lhe soprou a testa e sumiu. E tudo mudou.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Amor em notas




1 - Conta o poeta


 O pessoal se reunia na praça para ouvir o poeta declamar suas poesias. Estranhamente ele diz a todos:
 - Hoje não recitarei minhas poesias. Mas contarei uma estória que é a pura poesia.
 E começou a contar.
 " Havia um casal perfeito formado na cidade, uma união de alquimia pura. Ela era uma poetisa de renome. Ele um multi-instrumentista premiado. Conheceram-se em um encontro de belas artes e nunca mais se largaram.
 Já se amavam antes de se conhecer pessoalmente, ela escrevia suas poesias escutando os discos que ele fizera. Ele lia as poesias dela e realizava composições.
 Tudo estava destinado.
 O casamento aconteceu pouco depois do primeiro beijo. Sentiam que pertenciam ao outro. A alegria dos dois transbordava e a festa foi luxuosa.
 Foram morar numa casa enorme e bela. Com um jardim imenso e quartos para a música e a poesia.
 Durante essa época lançaram suas mais conhecidas obras. E com o devido sucesso eles melhoraram ainda mais sua situação financeira.
 Difícil ver pessoas mais felizes que Rosa e Proteus. Tinham alguns empregados na vasta casa, arrumadeiras, mordomo e até um jardineiro.
 E o tempo passou, logo completaram cinco anos de casamento. Proteus tinha uma surpresa para Rosa.
 Após todos saírem, os convidados do aniversário e empregados, Proteus pegou seu violino.
 - Essa é tua música Rosa...
 E tocou a composição mais bela do mundo, a poetisa pôs-se a bailar. Seus olhos marejavam em felicidade. Nunca havia ouvido algo tão bonito, tão forte e ao mesmo tempo tão sentimental.
 - É linda Proteus. É a música mais linda que já ouvi.
 Proteus chorou após a execução, enxugou as lágrimas e disse.
 - Chama-se Réquiem para Rosa¹, um réquiem para a vida, enquanto essa música existir você será imortal nas notas.
 Beijaram-se fortemente.
 Da janela alguém observava o casal e de forma suja... cobriu as plantas do jardim com "amor solitário"."

domingo, 11 de junho de 2017

Dívida






1 - Era hora de dormir


 Na hora do sono, Daniel colocava duas cobertas por cima do corpo fizesse calor ou frio. Estava com sete anos, orfão de mãe e abandonado pelo pai, morava com o tio.
 O nome do tio era Wagner.
 Bons tratos e carinho fizeram que amasse o tio.
 E na hora de dormir, todas as noites, Wagner contava uma estória para Daniel.


 O garoto tinha um gosto estranho.
 Gostava das estórias de um assassino que sempre fugia da polícia.
 O assassino se chamava "Confessor"¹, costumava cortar as orelhas das vítimas. E a cada noite Wagner contava um capítulo da violenta saga do maníaco.


 O tio entrou no quarto e recebeu a pergunta:
 - Vai contar como continua a estória tio?
 Wagner sorriu.
 - Lógico Dan. Onde eu tinha parado ontem?
 O garoto piscou e começou a falar:
 - O Confessor tinha matado a madame Dória e estava saindo da casa dela.
 Wagner respondeu.
 - Certo.
 E prosseguiu a narrativa.


 "Após ter matado Dória porque achava que ela não o escutava, o Confessor retirou as orelhas da madame e saiu da casa.
 Chovia terrivelmente. No meio da rua ele dava passos lentos.
 Levantou uma das orelhas de Dória até a boca e começou a falar:
 - Está me ouvindo agora? Está me ouvindo sua miserável!?
 Estava passando pela ponte do rio coletor. Foi quando um carro desgovernado o acertou em cheio.
 Com a pancada ele foi jogado no rio.
 Pensou que iria morrer, não sabia nadar.
 Pensou que era melhor morrer que ser preso, então dois braços o puxaram para fora da água. Um homem vestido de branco o salvou.
 Recomposto do susto com a boca sangrando disse ao homem de branco.
 - Estou em dívida com você...
 O homem de branco disse que não se preocupasse, afinal, era um enfermeiro e realizava socorros todo tempo. O Confessor estendeu até o enfermeiro um cartão com um número de telefone.
 Ao realizar o movimento para pegar o cartão o enfermeiro o deixou cair, no chão viu assustado uma orelha. Perguntou ao Confessor:
 -Você feriu a orelha?
 Notou que o Confessor tinha as orelhas intactas.
 Olhou frio para o homem de branco.
 - Estou em dívida com você enfermeiro.
 E foi embora.
 O enfermeiro assustado olhou um tempo o cartão e..."

domingo, 7 de maio de 2017

O que eu quero





Não é comum que perguntem.
As pessoas hoje, cada vez mais engolidas pelos celulares, pela rede, não te olham nos olhos e perguntam o que você quer.
O que eu queria era uma vida idílica, idealizada e cálida pois não levava desaforo pra casa.
Um trabalho que não me destruísse física e espiritualmente, amigos que estariam lá para o que desse e viesse.
Um enlatado americano.
Quando percebi que estava beirando os trinta, que meu trabalho era um saco e que meus amigos tinham suas próprias e indispensáveis vidas, eu aceitei.
Eu queria planejar uma família como quando escrevia minhas listas de supermercado.
Recebi uma gravidez inesperada e caótica, senti dores que nunca senti e jamais fiquei tão incomodada.
Mas ela nasceu perfeita com um temperamento vivaz e único.
Me apago.
Queria que ela fosse para a melhor faculdade, tivesse amigos leais e nunca perdesse aquele sorriso que era seu maior trunfo.
Nove meses de sofrimento, apenas seis anos fora da minha barriga e ela adoeceu.
Eu queria o melhor tratamento, médicos competentes, bons e baratos remédios.
Ganhei um plantão lotado de domingo e um diagnóstico errado.

domingo, 23 de abril de 2017

Devolva




"Emprestar é um prazer, devolver é um dever."


 1 - O amanhecer doentio


 Acordou de manhã e tomou seu café magro: pão com manteiga e chá. Foi até o quarto e apanhou o que procurava.
 Não era a primeira vez que faria isso. Deu uma olhada em seu caderno de anotações e limpou suas armas.
 A viagem seria longa e só poderia ser feita após seu trabalho.
 Saiu então para trabalhar, era funcionário dos correios.
 O dia passou em meio ao turbilhão de pessoas que lotava os guichês. Saiu do trabalho aliviado pois agora iria atrás de sua vingança.
 Assoviava um hino de sua nova igreja.


 Rubens estava sem um puto no bolso, quem diria.
 Após uma vida cheia de mimos se tornou um garoto de programa.
 O pior era encarar aquelas velhas carcomidas e aqueles homens nojentos. Vivia então neste ritmo monótono de luxúria.
 Mas esta noite era diferente.
 Rubens estava parado em seu ponto quando viu aquele homem estranho se aproximar de uma casa. O homem carregava uma mala.
 "Deve ser turista, só pode."
 Aquele homem foi se aproximando e lhe perguntou:
 - Você conhece o Renê? Fiquei sabendo que ele morava por aqui.
 O garoto de programa conhecia o Renê, afinal era o maior viciado daquelas bandas. Diziam que o Renê devia até a alma aos traficantes.
 - Conheço sim. Ele mora ali ó!
 E apontou para mostrar a casa. O homem olhou Rubens e disse:
 - Renê tem algo que é meu. Você sabe se ele está em casa?
 Rubens respondeu:
 - Não sei não, ele vive por aí procurando droga...
 O homem começou a andar em direção da casa de Renê, no meio do caminho se virou e disse ao Rubens:
 - Sai dessa vida garoto.
 E lhe deu as costas, Rubens lhe mostrou o dedo médio.
 "Que otário!"
 Viu então o homem bater palmas em frente da casa. Era em torno de onze e quinze.
 Rubens deixou o cigarro nas mãos interessado na cena.
 Renê saiu chapado para atender.
 - Quem é?
 O homem disse:
 - Não lembra de mim Renê?
 Renê coçou os olhos:
 - Não lembro não. Se não te devo... cai fora!
 Ia fechar a porta mas o homem falou gravemente:
 - Me deve sim, vim buscar minha Laura!
 Renê ouviu aquilo espantado:
 - Cara, é você mesmo? Quantos anos que não te vejo, quer entrar?
 O homem respondeu:
 - Só quero a Laura. E uma reparação.
 O chapado lhe disse:
 - Tu vem até minha casa a esta hora procurando isso? Você tá me zoando meu?
 O homem riu:
 - Sabia que não seria fácil. Eu sabia e esperava que não fosse pois isso torna o que vou fazer certo.
 Rubens viu então o brilho da doze, cano cerrado. O homem apontou para Renê e atirou.
 O primeiro tiro destruiu os genitais e parte das coxas.
 - Ahhhhhhhhhrrrrgggghhh!!!
 Os gritos invadiram a rua. O homem levou o indicador à boca e disse a Rubens:
 - Shhhhhh!
 Disse calmamente.
 - Onde está Laura?
 Chorando e sangrando muito Renê apontou o interior da casa. O homem pulou Renê no chão e entrou.
 Gritou dentro da casa:
 - Onde?
 Renê gritou a resposta:
 - Na estante porra! Tu me matou. Tu arregaçou meu pau por causa de uma merda dessa...
 O homem saiu da casa com uma caixa pequena nas mãos.
 - É minha reparação Renê. Meu Senhor, a vingança é minha!
 E atirou na cabeça do drogado. A massa cerebral fez parte do quintal. O homem foi embora calmamente assoviando.
 Rubens estava chocado.
 Só depois percebeu que o cigarro queimava seus dedos.
 A polícia não deu muita atenção ao caso pois Renê era um viciadinho.
 De manhã Rubens saiu de casa para procurar um emprego... num amanhecer doentio.

sábado, 22 de abril de 2017

O único




“A sociedade e a ignorância caminham juntas”


 Estava na reunião não se sabia o porquê, era o típico reacionário. Detestava mudanças.
 Acompanhava-lhe a mulher grávida, a triste Joice, com seu barrigão bonito. Linda como era destoava do chato Veiga.
 A reunião foi organizada pelos “amigos do bairro”.
 Era capitaneada pelo Queiroz, um gordão simpático, que começou a falar:
 - A empresa química-farmacêutica Xemox¹ tem agido em nossa cidade a anos. Recentemente houve um incidente envolvendo o nome da empresa na cidade vizinha. Vazamento químico é coisa séria gente.
 O Veiga lhe interrompeu:
 - E o que isso tem a ver conosco?
 O Queiroz bateu levemente no barrigão e disse:
 - Tudo Veiga! Proponho realizar uma investigação por nós mesmos. A polícia pouco ajudaria ou qualquer orgão. Tenho a suspeita que a empresa despeja lixo em nosso principal rio.
 O mala do Veiga:
 - E..?
 Irritado o Queiroz revela:
 - Pode haver contaminação de solo, da água e dos animais, até nós podemos estar contaminados.
 Houve então a votação pela investigação, somente o Veiga recusou.
 Pensava em outras coisas e recusou.
 E foi o único.

domingo, 9 de abril de 2017

O que eu vejo





Eu vejo um estranho,
Alguém errático pela casa,
Um pássaro sem uma asa,
Fico arrepiada com seu jeito medonho.

Acomodado com a vida que tem,
Estático com seu dia monótono, calmo,
Uma irreal criatura de um salmo,
Com uma tola máscara¹ que se mantêm.

Desinteressado nos meus dilemas,
Desinteressante, parte da massa uniformizada,
Decepção; nunca quis a parte pesada,
Decepcionante na resolução dos problemas.

A carapuça serviu a anos,
Acabou com MEUS planos,
Vivendo no automático, com script,
Mas meu caro: tempus fugit, tempus fugit.

Permitir meu jardim²,
Pra você foi um favor,
Um propósito pra mim,
Para acabar com a dor.

Que pagamento para suportar,
Seu mal humor, sua mudança,
Para conduzir este contrato, esta dança,
Cedeu um canto para não se importar.

Separar não era uma opção,
Continuaria com meu tormento,
Me torturar, seria sua ação,
Eu decidi e NÃO lamento.

Me arrependeria se fosse bom,
Se deixasse um legado,
Não fosse integrante do gado,
Aceitando; sem emitir som.

E nesses dias te fodi com gentileza,
Foram almoços e jantares excelentes,
Via o maxilar dançando, mostrando dentes,
Um bicho, uma besta, com clareza.

Quantidades cavalares de veneno, de mágoa,
Seu sangue tóxico e não sabia,
Se doasse para alguém, mataria,
Mais, ainda mais denso que a água.

Agora tomba a cabeça na mesa,
Continuo comendo outra comida,
Perecendo me deixou saída,
Apodrecendo, para que eu lhe esqueça.

Macarrão com almôndegas, o melhor,
Delicioso, enquanto controlo o pior.

Dependendo da visão qualquer coisa é monstruosa,

Até o rosto de quem mais gosta.






Extras e referências:


1 - Para o autor a vida é uma constante troca de máscaras. Conceito explorado em outros contos, exemplos: Como um leproso, O bloqueio do traça, Pior do que eu.

2 - Vemos outro ângulo do crime do conto O que eu quero.