Citações
"Escabroso, delirante e assustador! Perfeito!" Por Drauzio Marqezini em 12/04/2012 no site Recanto das Letras.
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quinta-feira, 31 de outubro de 2019
Só por hoje
Ele¹ acordou nove horas.
Apesar de estar de férias.
Sentiu que não estava aproveitando. Era para estar descansando, gostaria de acordar ao meio-dia.
As pessoas o impulsionavam a fazer coisas e ele não gostava disso. A situação se agravou pois voltou a morar com a mãe. Ele se perguntava o porquê dos relacionamentos terminarem.
Parecia que o destino cravava as garras em seu desapego familiar. Quando pensou que ficaria longe da mãe para sempre tudo deu errado.
Morar com a namorada foi complicado.
E após um tempo, insustentável.
Residir com a namorada foi comparado com dividir o teto com qualquer parente no quesito chatice.
Todos que se relacionavam com ele chegavam as mesmas atitudes. Dedos na cara e milhares de perguntas.
"O que você faz com seu dinheiro?"
"Você deveria fazer algo da tua vida!"
"Você não pensa em crescer?"
"Porquê não faz um curso ou volta pra faculdade?"
Todos opinavam, todos questionavam. Ele queria morrer sempre que tinha de responder.
"Paguei as contas e comprei..."
Geralmente o rosto do opinador-questionador(chato entre outras conotações) se alterava diante dessa resposta. E soltava os cachorros.
"Comprou o quê? Um livro? Um gibi estúpido? É por isso que você não consegue nada..."
E blá, blá, blá.
Ou quando respondia:
"Eu não sei o que fazer."
O opinador-questionador-chato ficava incrédulo.
"Não acredito. Com essa idade ainda não sabe o que fazer?"
Falavam como se ele fosse falecer em dois minutos. E toda vez que ele achava uma forma de prazer: escrever, teatro, cinema, quadrinhos etc. Tinha de escutar:
"Vai fazer teatro com seus amigos? Mas eles são um fracasso! Um bando de gente que não tem onde cair morta."
Ou:
"Gastou quanto nisso!?"
Um verbo que os opinadores-questionadores-chatos conheciam bem: gastar.
Parecia que ninguém lembrava do verbo viver.
Parou de matutar, correu para o banho. Estava atrasado.
Saindo de casa a voz da mãe grita no seu cérebro.
"Não esquece de dar comida para os cachorros."
Estava de férias.
Isso potencializava seu egoísmo frustrado. Queria somente se alimentar. Seria mais conveniente envenenar os caninos.
A matriarca grita novamente e ele volta para dar comida aos animais.
Ao entrar no transporte público lhe saltou da carteira a fácil nota de vinte. Tentou pagar o cobrador, este se recusou a aceitar o dinheiro. Apontou para um adesivo imbecil no vidro.
"Troco máximo permitido R$ 10,00."
Então era isso?
Se por acaso lhe faltasse outras notas teria de descer. Ele pensa e olha para o cobrador.
"O que eu faço com você?"
Age rápido. Puxa a mão direita do cobrador de encontro a roleta, com o joelho prende a mão esmagando. O cobrador grita, ele puxa seus cabelos e começa a bater a cabeça contra o caixa.
Os dentes quebrados caem no caixa aberto, manchando as notas de sangue.
domingo, 21 de outubro de 2018
Turismo Penal
O rapaz bronzeado caminha pela praia em direção a câmera.
“- Olá, sou Gabriel Sovina, tri campeão mundial de surfe.
Hoje não estou aqui para indicar materiais esportivos.
Todos sabem que já viajei o planeta com o esporte, estou
aqui para falar de suas férias e da terra que adotei.
Isso mesmo.
Está cansado dos mesmos lugares, as mesmas praias e emoções?
Que tal testar seu psicológico em um dos destinos mais assustadores do mundo?
Não falo de praticar esportes radicais, ou visitar parques
de diversão com brinquedos imensos.
Falo de um local real que abriga criaturas saidas dos piores
pesadelos dos escritores de terror.
Uma terra cujos nativos são considerados mestres da
sobrevivência, lugar de atuação do ícone Mike Dundee¹ e seus famosos facões.
Andar armado por aqui, sempre é uma boa ideia. Pensando
nisso, a Viagens Tártaro disponibiliza treinamento aos visitantes através do
pacote H.P.².
Falo por conhecimento de causa, na semana passada uma
criança do meu bairro foi atacada por um morcego raposa³. Já viu o tamanho do
bicho?
Imagine um grande cachorro com asas e presas afiadas,
durante o dia os vemos pendurados como primos distantes do Drácula, envergando
árvores.
As abelhas, símbolos de saúde devido as propriedades
curativas de sua cera e do mel, aqui alimentam fobias. O veneno de nossas
abelhas mata mais pessoas durante o ano que os ataques de tubarões que
dilaceram os surfistas.
Sem falar de aranhas que parecem grandes shurikens do
tamanho de mesas. Uma visão capaz de paralisar os mais corajosos.
O perigo rodeia até os mais pacatos habitantes, em um banho
de mar você pode topar com uma imensa criatura translúcida, com tentáculos de
três metros, nossa superlativa água viva. As marcas que deixam lembram grandes
queimaduras, sem tratamento, seu coração e os pulmões param.
O pacote H.P. disponibiliza antitoxinas para aproximadamente
70 tipos de veneno, guias e monitores que acompanham os visitantes todo o tempo
e vasculham os quartos a noite procurando insetos, répteis e mamíferos hostis.
O clima de terror é garantido desde o momento em que o visitante
desce do avião. Segundo especialistas a abundância de animais letais por metro
quadrado supera qualquer outro país.
Dúvida?
Qualquer busca na rede mostrará estas horrendas maravilhas,
se procura por emoções fortes, pesquise fotos dos singelos animais de que
falei.
E o bônus, não são só os animais. Antigamente, nosso
continente servia de imensa colônia penal e local para onde expurgavam indesejados,
com o passar dos anos ocorreu a proliferação dos mais diversos crimes.
Os desaparecimentos fazem parte de nosso cotidiano, o clima
e nossa disposição geográfica facilitam as atividades de assassinos em série em
atividade em nosso solo.
E você pensando que seria radical viajar pro sul dos EUA
nesta época do ano.
Acredite, lá nessa época se é capaz de fritar bifes nas
ruas.
Aqui, você sua família, podem ser assados sem proteção, com
os rigores de nosso verão.
E se isso não é um
desafio até pro Crocodilo Dundee, eu não sei o que é.
Visite nossa ex colônia penal, visite a Austrália pela
Viagens Tártaro!
Publicado no site Recanto das Letras em 21/10/2018.
Extras e referências:
1 -
2 -
3 -
4 - Tártaro cia, empresa sombria envolvida nos mais escabrosos empreendimentos, de testes ilegais de medicamentos a chacinas. Assombra vários contos do autor, entre eles, seu conto irmão A Propaganda.
terça-feira, 24 de julho de 2018
Pior do que eu
PIOR QUE EU, você é pior do que eu. Eu me levanto rasgado,
sangrando, coberto de porra, cheio de suor, sem rosto.
Esperando que alguém creia, esperando um dia, por uns dias
ter lábios para foder, para beijar, para sorrir.
Enquanto procuro um rosto, busco alguém que não quer um
rosto. Alguém que quer ser um anônimo de manchete, facilmente esquecido, que
tenha um grande ato apenas.
NÃO ACHAVA QUE FUNCIONARIA DE NOVO mas vocês sempre querem
agir como os animais que são. Quando pensam em um ato sórdido acrescentam mais
e mais detalhes em cada vez. O PROCESSO JÁ COMEÇOU, você quer vivenciar o
estupro, quer sentir a pressão da arma ao dar um tiro em alguém. NÃO LUTE, a
sociedade é a jaula de vocês.
Os animais selvagens que são confinados em celas adoecem,
morrem ou ficam loucos. RELAXE!
VOCÊ ME acha tolo escrevendo isso mas REPETE E REPETE tudo o
que está na página NA SUA CABEÇA.
EU FICO impressionado com a força que desconhecem ter.
Faça um teste, fale para um amigo que adora torta de frango
que tal alimento é insosso. Diga pra ele todos os dias. No final, o pensamento
será CADA VEZ MAIS FORTE.
PAREÇO CADA VEZ MAIS HORRÍVEL!
E aposto contigo que a cabeça de seu amigo transformará a
deliciosa torta de frango numa comida indigesta.
SUA CABEÇA VERÁ e de antemão provará todas as tortas de
frango do mundo e as vai comparar a UM MONSTRO INIMAGINÁVEL.
E PARA HONRAR SUAS EXPECTATIVAS o paladar vai enganá-lo e
ele sentirá um gosto de papel quando comer uma suculenta torta de frango.
EU VOU ME FORMANDO nos pequenos detalhes, na palmada extra
no filho birrento, na puxada de cabelo mais forte durante a foda, na palavra
atravessada para seu colega de trabalho.
Sempre PERTO DE ONDE VOCÊ ESTÁ!
EU BUSCO ALGUÉM que quer sair da jaula, alguém que você
rotula como verme, em uma intensa procura COMO EU. DISPOSTO A UMA TROCA de sua
tediosa rotina por um momento de jaula aberta.
Mesmo que isso signifique outra jaula no futuro ou a não
existência.
SABE O ARREPIO QUE SENTE QUANDO ESTÁ SOZINHO?
É o animal querendo sair!
Você ficará grato QUANDO EU ESTIVER ATRÁS DE VOCÊ.
O prazer? ELE SERÁ PERMANENTE.
TENTE APAGAR da mente o que está lendo. Você não vai
conseguir, é igual ao teste da torta com o amigo.
Quando tentam desesperadamente apagar algo da mente, esse
pequeno algo vira o monstruoso algo.
O pensamento recorrente? Ele será permanente!
MAS DEIXA QUE EU COMANDO TUDO. Deixa que eu diga coisas que
a sociedade não quer que você pense, mas que está maluco pra fazer.
COMO EU SEREI PRA VOCÊ?
Quando você matuta no pior que você poderia ser, no pior que
poderia fazer, como está seu rosto?
Como está seu rosto ao ocultar UM CORPO PODRE?
Ou quando não quer que o vejam MUTILADO?
Quando ri em segredo de um sujeito INFESTADO DE TUMORES?
Como está seu rosto ao ver um corpo COBERTO DE VERMES?
Quando pensa que bom que não sou eu.
Como está seu rosto?
Eu, eu não tenho rosto. Mas TE FAREI VER...
O MUNDO sempre foi podre. Explique a histeria em massa, uma
ideia é difundida em um grupo de pessoas. Então vocês queimam mulheres “bruxas”
e lincham negros.
Eles são como a torta de frango.
Vocês são animais dementes que suplicam por uma jaula e isso
os deixa loucos.
SE EU QUISER me levantar, ascender, ter presença, preciso de
alguém que queira ser um feliz membro da horda de animais soltos.
Enquanto isso você irá procurar uma razão pra viver. Um dia
alguém encherá sua cabeça com políticas de direita.
Achando-se dono de si VOCÊ
IRÁ PRA DIREITA.
Sua atenção me tornará tangível, pleno, preenchido, uno,
completo SE EU QUISER.
Não resista; comente, escreva, fale de mim. Discurse sobre o
sem rosto.
E quando me sentir irá questionar sua saúde mental.
VOCÊ IRÁ procurar ajuda com seu pai de santo, com seu padre,
com um médico.
E noutro dia alguém te encherá a cabeça de políticas de
esquerda.
PRA ESQUERDA, você vai se arrastar.
Toda mensagem tem um propósito, mesmo as que parecem
inocentes. Como a vontade de apertar mais a coleira de um cachorro que quer
ganhar a rua.
A respiração sob estrangulamento do bicho é justificada pra
você?
E NO FINAL fincarei meus pés no seu cérebro. E buscará me
esquecer NAS ÚLTIMAS LINHAS.
SEREI UMA DESCULPA para que acenda as luzes e que vasculhe a
casa. Quando a coisa mais perigosa dentro dela é você.
Afinal, eu não tenho rosto para ser encarado.
PRA FAZER o que quero, para ganhar por um tempo um semblante
tenho que ser eficiente em minha mensagem.
O QUE VOCÊ REALMENTE QUER agora é afogar sua besta,
estrangular o bicho em você.
Você sabe que em algum lugar perto surge um ferimento e
depois um braço. Pode sentir no barulho do cômodo próximo minhas pernas recém
aparecidas em passos erráticos.
Você pode sentir. SENTE O ARREPIO?
EU me esgueiro procurando por você.
Então ESTOU PERTO, perto o suficiente para sentir a vibração
de seu coração acelerado.
Eu não tenho rosto, me sinto bem NO ESCURO.
Tente.
VIRE-SE após terminar a mensagem para devagar descobrir
outra mensagem nas grandes palavras. Mas termine de ler antes de voltar ao
começo.
E ME SAÚDE por meu êxito. Faremos o que você quiser, você
não quer mais se encarar NO ESPELHO, não é?
VOCÊ É PIOR DO QUE EU.
Publicado no site Recanto das Letras em 24/01/2016.
domingo, 21 de janeiro de 2018
Um pedaço de mau caminho
Nasceu com olhos
azuis e parecia...
- Um anjinho.
Essa foi a frase da
mãe ao ver o bebê, para piorar a situação o bastardinho veio com cabelo loiro e
ganhou nome de anjo.
- Vai se chamar
Gabriel.
Dã.
Mais típico
impossível, desde o começo foi mimado. O pequeno gordinho mal saiu do hospital
e era convidado a fazer comerciais. E foi enriquecendo os pais ainda sem saber
limpar a bunda sozinho.
Foi crescendo e
habituando-se a receber de pronto seus desejos. Com oito anos, descobriu o
valor de um rosto para o mundo.
Estava na escola e
roubou o giz colorido do Paulinho, a professora descobriu e veio tirar
satisfação.
- Gabriel. Isso não
se faz...
Ainda nem tinha
beijado alguém e descobriu o cinismo.
- Mas professora esse
giz é meu.
O Paulinho tinha um
histórico horrível, batia em todo mundo e ferrava tudo mas ladrão, ladrão não
era.
- Ele tá mentindo
professora!
Doeu no querubim ser
contrariado em sua farsa.
- É meu sim. É meu
sim.
Começou a chorar como
um rio, chorava de raiva.
Vendo que o artifício
não funcionava apelou, partiu para pancadaria. Nunca havia batido em ninguém.
Talvez por isso tenha sido tão brutal, tão primitivo. Pegou o parrudo Paulinho
de surpresa, este caiu para trás e perdeu dois dentes.
Paulinho levantou com
olhos de um carniceiro. Num salto avançou sobre o anjinho.
Mas um braço forte o
conteve de sua satisfação imediata. Era o diretor da escola que passava por
ali.
Gabriel levou sua
mentira até as últimas consequências, como reparação, Paulinho foi expulso da
escola.
Neste mesmo dia
esperou a saída de Gabriel da escola. Mas os pais do modelo-mirim foram buscar.
- Não deixo mais meu
filho nesta escola de ladrões.
Sentenciou a mãe e o
mudou para a melhor escola paga da região.
Já o Paulinho; além
de perder dois dentes levou uma surra ainda maior do Paulão, o pai, que era
famoso por ter mão pesada e praticar boxe no filho.
- Acho que o Gabriel
vai precisar de terapia depois desse trauma, ele ficou tão mal que até bateu no
ladrãozinho.
A terapia do Paulinho
pra aprender a não mexer com anjos foi de vários hematomas pelo corpo.
Gabriel. Boa
aparência, bem de vida, requisitos essenciais para surgir um desgraçado.
domingo, 31 de dezembro de 2017
Socializando
Ela precisava socializar, é o que todos diziam.
“Flávia, você fica no seu mundo e conversa com os outros
apenas pela internet, precisa sair mais”
Sair mais, não ficar sozinha mais uma noite. O mundo é
fugaz, não basta nossa própria companhia para todos.
“Você é tão bonita, devia aproveitar a vida”
E era bonita mesmo, não achava que desperdiçava a vida. Não
gostava que os outros sequer pensassem nela.
O fato é que de tanto martelarem, de tanto falarem, de tanto
encherem o saco e somando as malditas festas de fim de ano, conseguiram
deixá-la deprimida.
Ajeitou seu cabelo curto e preto, botou o batom vermelho e
saiu sem rumo.
Acabou parando no bar de um amigo de faculdade. O ambiente
era patético, poucos solitários iam para a rua nas vésperas de festas.
- Todos com a família e os amigos.
Lhe respondeu o dono.
Foi aí que viu ele.
Ele parecia grande mesmo sentado no balcão, tinha um rosto
mediano e uma bela barba. Os olhos eram a cereja do bolo, pousaram fixos nela.
“Eu espero que ele venha até aqui, nem a pau que vou lá”
Estava decidida, tomaria mais uma dose e se ele não fosse
falar com ela iria embora.
Então ele sorriu pra ela, o choque foi tão grande que ela
retribuiu com um “uh”!
“Espero que ele não tenha ouvido isso”
Já vinha em sua direção, ele cheirava bem.
- Está criando coragem para aparecer na festa?
A investida boba a fez corar.
- Não tenho festa pra ir.
Ele continuou com as frases tolas:
- Bonita assim e toda arrumada sem lugar pra ir? Qual é seu
nome?
Não sabia se era o jeito ingênuo da chegada dele, ou o modo
que olhava, daria uma chance:
- Flávia.
Ele passou a mão pela barba.
- Flávia, eu sou Ivan. Tenho um lugar para ir mas me falta
companhia.
E estendeu a mão.
- Quer ir comigo? Não se preocupe, é aqui perto.
Ela fez uma cara de relutante.
- Lembrando que toda a rua é iluminada e tem várias pessoas
perambulando indo para suas casas.
Ela riu.
Saíram juntos do bar.
A casa estava iluminada, havia pouco mais de uma dezena de
pessoas ali. Flávia cruzou a porta e alguns conversaram entre si. Ninguém
prestou a atenção nela e Ivan não a apresentou. O lugar fedia, justificado
cheiro de festa.
De mãos dadas com Ivan não ligou. Tentaria socializar,
haveria tempo para isso.
- Me diga o que você quer ouvir Flávia.
Ela pensou: Mas eu não conheço ninguém, e se não gostarem?
Ivan sorriu:
- Está na minha casa e vamos ouvir o que você quiser!
“Qualquer coisa que não seja pra baixo, afinal não estou
sozinha, diga qualquer coisa menos Joy Division¹”
E sua boca a traiu com o que queria de verdade:
- Joy Division.
O barbudo arregalou os olhos.
- Putz coloco com prazer, é uma das minhas bandas
preferidas. Que coincidência.
E atravessou o grupo de pessoas para alcançar o som.
Enquanto She's lost control invadia a sala ela permitiu balançar a cabeça e
curtir de leve com as mãos.
Parecia que estava conseguindo.
O povo parecia não dar a mínima pra música. Para Ivan o que
importava era Flávia, lhe trouxe uma taça de espumante devidamente gelado.
Então ele sentou ao seu lado, os outros convidados ficaram
encarando, aquilo atraiu a atenção de todos.
- Você é um achado, sem sombra de dúvida.
Flávia pôde ouvir o cochicho do rapaz de camisa vermelha que
estava próximo do sofá.
- Ele sempre diz isso...
Ivan chegava mais perto e já encostava a mão em sua perna.
- Flávia, Flávia. Parece que você é meu número, meu número
da sorte.
E aí a magia se perdeu, ele veio como um carro desgovernado
para cima dela. Avançando o sinal e adentrando sua boca.
Todos olhavam enquanto ela colocou as mãos no peito dele,
tentando afastar o grandalhão.
“Ninguém vai me ajudar?”
De repente ele pareceu sentir as pequenas mãos e se afastou
com o rosto perturbado.
- Desculpe, é que passo muito tempo sozinho e não sei como
agir.
O rapaz de vermelho olhou para Flávia:
- Sempre a mesma desculpa, aff!
Ivan se levanta.
- Vou pegar mais alguma coisa pra bebermos.
E foi na cozinha, Flávia disse ao cara de vermelho:
- Depois desse atropelamento eu vou embora!
Atônito ele chegou mais perto dela:
- Você estava ouvindo o que eu disse!? Querida vai embora
logo! Lucile!
Ele chamava uma negra muito bonita do outro lado da sala.
Lucile foi até o som, parecia concentrada, após um toque a música parou.
Ivan gritou da cozinha:
- Desculpe, parece que a energia desta casa é uma bosta.
Quando o som voltou começou a tocar She's lost control
novamente. E Ivan grita:
- Porra!
Flávia se sentia tonta, o homem de vermelho fala
rapidamente:
- Ele vai mexer no rádio primeiro quando voltar, se você for
embora logo, talvez não a alcance.
Apavorada pela urgência das palavras, Flávia tentou levantar
mas suas pernas não responderam.
- Me ajudem!
Ela disse para todos na sala, os rostos consternados só observavam.
- Pobre coitada! Acho
que você não entendeu querida, estamos tentando ajudar como podemos.
E um momento depois Ivan já estava sobre ela, as mãos em seu
pescoço invencíveis. Tudo se fechava naqueles segundos finais durante a
violação e o estrangulamento. Flávia soltou um baixo pedido de socorro.
Em resposta, o rosto suado de Ivan:
- Estamos sós aqui, doze! Só nós!
Perdendo a vida, Flávia vê as pessoas da sala perdendo as
formas.
Foi depositada embaixo do assoalho ao lado de um esqueleto
com camisa vermelha.
Era o número onze.
Extras e referências:
1 - Joy Division, banda liderada por Ian Curtis, expoente do pós-punk com flertes ao gótico. She's lost control representa a cama de gato com a protagonista.
domingo, 19 de novembro de 2017
O clube do escorpião
1 - Longe da vista do
mundo
- Vou contar pra você
o que aconteceu...
"Aqueles dois só
queriam um dia de descanso, uma visita ao bar parecia uma boa idéia.
E ninguém no mundo
"normal" espera por um sequestro.
Na saída do bar foram
dominados e encapuzados. Jogados em um porta-malas.
Por quê um sequestro?
Fausto e Oscar.
Amigos inseparáveis
até mesmo no sofrimento.
Foram retirados do
porta-malas num paradeiro desconhecido. Retiraram tudo o que lhes seria útil.
Removeram os capuzes,
Fausto e Oscar fitaram uma escuridão tão infindável quanto fria.
- O que vocês querem?
Dinheiro?
Perguntou Oscar para
a escuridão, um dos indivíduos ocultos respondeu:
- Se tudo der certo
tiramos vocês daí.
Foram empurrados, a
queda foi grande. Ao atingir o solo Fausto quebrou o tornozelo esquerdo.
Oscar feriu a testa.
Estavam abandonados
em um buraco de paredes concretadas lisas. Lá embaixo não havia comida, água ou
cobertores.
Grandes amigos
feridos.
- Nós vamos sair dessa.
As horas passam, a
agonia traz companhia da fome e da sede. Especulam sobre o resgate que seria
solicitado, para quem?
Fausto lembra-se do
pai inválido num colchão sujo do asilo. O mesmo inválido que em seus tempos
áureos costumava usar o cinto para ensinar lições.
A mãe era muda sem
possuir deficiência alguma, distante e ausente. Morreu sem causar estardalhaço,
dormindo.
Fora daquele buraco
não possuía ninguém.
Oscar lembra-se da
rua, fugiu de casa com doze anos e não voltou. Contrariou estatísticas e ainda
estava vivo.
Saiu do grande vazio
do seio familiar e buscou o vazio eterno da rua. Seria melhor que rostos
estranhos o pudessem fazer mal, não toleraria mais que pessoas de sua família o
fizessem trabalhar. Ou as visitas noturnas do seu tio.
Fora daquele buraco
não possuía ninguém.
Se corroíam com as
lembranças e o silêncio. Os pulmões cansados de gritar.
Cai a noite, a
estação traz a chuva.
Abençoada chuva.
Fausto e Oscar bebem
água da chuva das paredes lisas. Preciosa chuva, aguentariam a sede por hora.
A temperatura cai
rapidamente.
Maldita chuva.
Encharcados, morrendo
congelados. Esfregam os corpos para diminuir a sensação.
O cheiro, um odor
forte que sentiram desde que aterrissaram ali os enchia de horror.
Era um cheiro de
morte.
Alguém havia morrido
naquele lugar.
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
A propaganda
Era veiculado durante as madrugadas.
Da varanda de uma casa antiga de madeira um velho de chapéu
olha para a câmera, olha pra você.
“Sim senhor, venha conhecer o pedaço. Temos em torno de 25
milhões de habitantes e baldes de ódio pra todo mundo.
Ó deserto imenso de paisagens tétricas, como a vida
conseguiu perseverar aqui?
Ódio amigo, do mais puro!
Conhece a história das nações?
Manchadas de sangue, traições e crimes macabros. Nada se
compara com isso aqui compadre, nada mesmo!
Odiamos brancos, que odeiam negros, que odeiam índios, que
odeiam chineses.
A própria terra daqui nos odeia. Lembrem das grandes
caravanas, da fome, das pragas. Aqui o escalpo já foi bem pago, quanto maior a
quantidade melhor. Livre das amarras da sociedade no cenário desolado o estupro
era impune, nativos tinham como único direito assegurado o de ter uma morte
horrível.
sábado, 7 de outubro de 2017
Coceira
“As palavras são a pintura e as
mãos a moldura”
Eu sabia que você iria me chamar.
Fiquei lá esperando, perto daquele cara coberto de tatuagens
infantis, perto do alucinado que diz ter se expandido e o cara que fez a
Terceira Guerra Mundial na rua dele¹. Acho que sei até o que você pensou me
chamando “vou falar com aquele farrapo humano pois ele me incomoda raspando a
cara na parede”.
Quem sabe eu não paro com isso enquanto falo contigo, não é?
Tem partes da minha cabeça que o cabelo nem cresce mais.
Ahh... Me pergunta como isso começou, de novo?
A desconfiança, a perturbação, a coceira?
É preciso falar de Tania.
Eu tinha conhecido todas as drogas, todo o prazer que o
mundo poderia me proporcionar. Ela se encaixou em mim pois me perturbava, me
fazia olhar quando eu não queria, me fazia pensar nela enquanto comia. E nada
me perturbava, parecia um instinto, um ato involuntário.
O que eu fazia?
Era um colecionador de livros, editor e crítico literário.
Dei o mundo para ela, nos casamos rapidamente. Viajamos, visitamos os melhores
restaurantes. Bon vivant.
Ela dizia que queria crescer e voltou a estudar em aulas
particulares. Dizia que queria tratar sua mente como tabula rasa e na viagem a
Bogotá teve um estalo “preciso aprender Matemática”. No retorno procuramos um
bom professor da disciplina.
Quid pro quo, recebi o melhor sexo que ela podia oferecer no
período. Depois de um tempo o professor de Matemática começou a me inquietar,
só de lembrar dele minha barba coçava, saudades da minha barba.
Não ligue para as lágrimas, hoje aceito melhor a minha
condição. É o que posso fazer, não é? O ato, o ferimento, a ação me diz que
estou vivo.
O que eu fiz?
Disse a ela, perguntei se tinha algo com o professor.
Completávamos quatro anos juntos e ela mentiu. Mentiu para quem conhecia seu
cerne mais do que seus pais, para quem viu todas as suas fases e inconstâncias.
Olhou nos meus olhos e mentiu!
terça-feira, 29 de agosto de 2017
Destoante
"Por vezes o
sentido da vida é a insanidade"
1 - Reunião babaca
Reuniam-se toda
sexta-feira, era um grupo de leitura e discussões sobre poesia.
Quem presidia as
sessões era um tal de Plínio.
Plínio era professor
de português dos mais quadrados, era praticamente a figura geométrica. Chato
era apelido.
Os outros integrantes
da reunião pouco diferiam dele.
Lucas e Tatiane: um
casal de poetas medíocres, um crítico certa vez os chamou de casal calmante, devido
ao teor sonífero de suas poesias monótonas e sem sal.
Otoniel: amante da
poesia "dor-nos-córneos", separado há anos, ainda amava a adúltera
ex-esposa. Detestava qualquer conotação sexual em poemas.
Dona Vera: viúva que
mantinha o Dona, lutava com o câncer e repudiava poesias macabras e sinistras.
Temia imensamente a morte.
O Plínio nem dava
aulas na sexta, apenas para estar com seus amigos em chatice. O grupo lia e
relia poetas que não cheiravam, nem fediam.
Se alguma pessoa
citasse Augusto dos Anjos era taxado de mórbido por eles. Se citassem Vinícius,
era uma página central de revista de nus para seus ouvidos, julgado
pornográfico pelo grupo. E o Bocage?
Bocage era promíscuo.
Ginsberg?
Nem queriam saber de
Ginsberg.
Numa sexta-feira
comum estavam em sua "sede", a casa de Plinio, quando alguém bateu na
porta. Plínio foi atender.
- Quem será?
Era uma jovem linda¹.
Estava sobriamente vestida de preto. Plinio pensou:
"Deve ter errado
o endereço, ou deve estar vendendo algo."
- Aqui é a reunião de
amantes da poesia?
Plínio respondeu.
- Sim... o que
deseja?
A jovem disse firme:
- Participar.
Plínio já ia fechando
a porta, a moça continuou ali.
- Desculpe é um grupo
fechado. Passar bem...
A moça colocou o pé
na porta, bem no vão.
- Tratam a poesia
como algo restrito?
Quatro pares de olhos
estavam em cima das costas de Plínio. Esperando pela resposta que ele daria.
Ele pensou e disse:
- Não mocinha... É
que, é que nem sabemos o seu nome.
A linda moça
respondeu:
- Saibam somente que
sou uma apreciadora de boa poesia. Também faço meus versos.
Os olhos de todos
brilharam até os de Plínio, afinal, faziam meses que só liam e reliam poesias
antigas. Leram até a obra completa de Lucas e Tatiane. Mesmo assim o quadrado
disse:
- Desculpe mocinha.
Os quatro atrás
responderam:
- Não; espera!
Plínio ficou sem
ação, Otoniel segurou seu braço e cochichou em seu ouvido:
- Se ela for ruim a
chutamos...
A moça impaciente:
- E então?
Plínio à contragosto:
- Está bem. Entre.
E a deixaram entrar
naquela reunião babaca.
domingo, 20 de agosto de 2017
Férias atrasadas
Estava com vontade de
usar a tesoura. Quando a retirou da caixa, o homem amarrado à mesa começou a
gritar novamente.
Parecia ter uma
resistência enorme naqueles pulmões.
Ele introduziu as
lâminas da tesoura nas narinas do homem e fechou.
O jato de sangue
atingiu sua mão direita em satisfação breve.
Frederico precisava
de férias¹.
Para sair daquela
rotina de cortes e ferimentos imaginou uma bela praia. Camarões fritos, cerveja
gelada e uma brisa de fim de tarde. Crianças fazendo castelos de areia.
Sorrisos presentes em rostos de todas as idades. E, infelizmente, sempre temos
de voltar.
O sangue invadia os
olhos do homem na mesa. Frederico limpou com uma toalha o excesso, era preciso
que ele visse o que acontecia. Sem a conexão não haveria sentido em nada
daquilo. Retirou uma gilete da caixa, com uma das mãos segurou o pênis do homem
e foi lhe abrindo a uretra. O trabalho ficou difícil com o vermelho que
espirrava. O homem desmaiou, típico.
Outro lugar bom para
as férias seria o campo. Tardes de temperatura agradável. Conversas na varanda
e ótima comida.
Pães de queijo e café
com leite, bolo de fubá e requeijão. Dias que pareciam mais longos.
sábado, 5 de agosto de 2017
Todo mundo comeu
"Desconfiaremos primeiramente dos tímidos"
1 - Ritinha
Ritinha já estava
desaparecida desde segunda. Onde foi parar aquela do riso inesquecível?
É o que se perguntava
o pai, Seu Aristides estava desconsolado, admirava a beleza da filha
profundamente.
- Perdi ano passado a
Mirtes. E agora isso.
E chorava como
carpideira adiantada.
- Com quem ela
costumava sair?
A pergunta do
policial era simples para Aristides.
- A melhor amiga os senhores
já ouviram.
O policial com o
pescoço rígido foi incisivo.
- Não. Ela tinha
algum namorado, algum paquera?
O pai não sabia
responder sem denegrir, afinal aqueles policiais eram meros estranhos, achariam
que a filha era uma perdida. Sem saberem o quanto Ritinha era doce, amuado ele
nada falou.
Frase de um banheiro
da faculdade:
"Ritinha doce
vagabunda, todo mundo já comeu!"
Se o pai soubesse
mais da vida universitária da filha, teria morrido mais cedo.
sábado, 29 de julho de 2017
As chaves certas
Eu¹ estou nesta casa a
muito tempo.
Apenas seguindo esta
vida estranha.
Abro a porta com
cuidado, deixo o lixo ou faço qualquer coisa rapidamente.
A saída sempre é
assegurada antes, verifico seu estranho mundo durante um longo tempo pelo meu
amigo, o olho mágico.
Sua sujeira, suas
monstruosidades, tem de ficar fora.
Porta; barreira, muro
que me mantêm pouco mais protegido.
Para quem ou o quê invadir
guardo a arma, dependendo do que entrar não será de muita valia.
Eles, o acaso, os
lixeiros, os médicos falhos, assassinos apoiados na escuridão, os canais fora
do ar que nos induzem, criaturas rastejando no escuro, trabalhos que nos matam
na rotina, filas que apodrecem nossos espíritos, contas que nos encarceram no
processo, estão todos nos rodeando, conheço cada centímetro da minha casa².
Ponto.
Sempre que estou
pensando questiono o porquê de se escrever, olhando as paredes de minha prisão
aceita questiono muito.
Que serve de terapia
todo mundo sabe, quem já fez algum tratamento mental conhece isso, eu descobri
algo importante há algum tempo.
Você nunca está
sozinho realmente sabia? Se o humano se comunica de várias formas mesmo com sua
fragilidade assustadora, o que dizer de coisas incrivelmente profanas e más?
Lê este texto agora
perguntando-se: onde ele quer chegar?
Meus contatos
rareiam, é verdade. Sou taxado de insano por me esconder no lugar que me é mais
seguro.
Textos, contos,
mensagens escondem mais significados que aparentam em seu âmago.
Vírgula.
Eles, que escreviam
coisas sinistras antes de mim entendiam esta simetria macabra, os que ainda
escrevem partilham de minha dor enquanto em sua ignorância o resto do mundo
sorri.
Sorriem pois desconhecem a totalidade deste absurdo, eu tive alguns sonhos ruins em que vislumbrei este
caos, por estes sonhos eles falaram comigo, os medos falaram comigo e me deram
grande incumbência.
Acima de qualquer
terapia e de qualquer vocação, os homens sempre seguem as ordens de seus medos.
De toda agonia que
você pode imaginar confrontar seu maior medo é ápice.
Seus temores lhe
visitam quando está sozinho, quando está sozinha? Ora, eu já disse... nós nunca
estamos sozinhos realmente, eu tenho suas chaves... as chaves certas.
Ombros curvados em
direção desta página não te fizeram entender? Por vezes dizemos tudo o que
queremos pelas primeiras palavras de nossos períodos.
HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ
HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ
Última página do diário de Allan Miller³.
"Você fez alusão a nomes como Poe, Lovecraft e até Jamie Delano encontrou as chaves e sabe usá-las muito bem."
Jefferson Ravazzi, colecionador irmão.
Extras e referências:
1 - "Eu apenas abro sua porta para eles. Sempre que você lê meus textos, eles sorriem acima de seus ombros." As primeiras palavras dos períodos indicam uma mensagem de Miller sobre sua real intenção.
2 - Aqui Miller faz referência a vários contos de Barone: Peculiaridades, Horda, O maior espetáculo da Terra, Rasteja no escuro, Fim do expediente, A espera. Trechos a frente Miller presta homenagem a grandes escritores perturbados.
3 - Allan Miller, o nome junta dois gênios das HQs (Alan Moore e Frank Miller), psiquiatra e escritor de Horror recluso, Miller sofre de Agorafobia e durante anos trabalhou com os piores casos do Hospício Santa Clara. Um de seus livros mais famosos é Penumbra e cenas mórbidas.
domingo, 23 de julho de 2017
O maior espetáculo da Terra
"O demônio tem outros
nomes conhecidos, nomes humanos"
1 - Pacto de circo
Sua vida como
hipnotizador estava um marasmo só, sim, existiam os famosos. Ele era somente
uma atração do circo.
Então se achava um
fracassado.
Até a mulher barbada
tinha mais prestígio que o pobre Nero¹. Já via o dia que nem o dono do circo
poderia aguentar seu desempenho medíocre.
As pessoas não
ficavam totalmente sob sua influência. Imagine que certa vez, a casa estava
cheia e o Nero chamou alguém da plateia:
- Quer participar do
número?
A menina olhou em
volta e disse:
- Tudo bem.
E o Nero começou a
hipnotizá-la. Certa hora gritou:
- Você caíra em sono
profundo agora!
A menina visivelmente
em alerta respondeu:
- Quando? Agora?
A gargalhada foi
geral. Haviam aqueles que se perguntavam se aquilo era um número de comédia.
Foi uma total
humilhação. Dadas estas circunstâncias resolveu fazer um pacto com o diabo.
Só não sabia como.
Um dia terminou seu
número, mais um fracasso, quando viu na saída um homem que lhe fez sinal e
disse:
- Você me chamou.
Ele sabia que era o
diabo, confie em mim, se você o olhar saberá que é ele.
O diabo perguntou:
- O que você deseja?
Assustado Nero
respondeu:
- Quero ser famoso
com a hipnose.
O cramulhão:
- Só isso?
E o parvo:
- Só.
O demo deu uma
tossida longa e fez que sim com a cabeça. Então Nero perguntou:
- Qual é o preço?
Minha alma?
O diabo:
- Também. Mas eu
quero mais, eu quero almas inocentes.
Nero pensou.
"Pior do que
está não pode ficar".
E concordou.
O diabo lhe soprou a
testa e sumiu. E tudo mudou.
sábado, 15 de julho de 2017
Faixa 16
1 – Ruptura¹
- Eu não vou
concordar nunca com essa merda!
Segurava a foto da
próxima capa incrédulo. Ela mostrava dois golfinhos nadando com uma moça de
biquíni.
Fred Fracasso não se
conformava. Rud falou:
- É mudança musical
Fred. Aceita velho...
Há algum tempo
percebia que somente ele ainda andava com a jaqueta de couro surrada, os tênis
detonados.
Todos estavam
diferentes.
Cabelos lambidos da
moda, detestável moda. Fred ainda era creditado com seu codinome. Mas era uma
questão de tempo para que os patrões mudassem tudo.
E a última coisa a
ser mudada seria ele.
Parecia um Sid
Vicious num Coldplay.
Uma roda e moshs num
show da Enya.
Ou seja...
Ele era um peixe fora
d'água. E desde quando aquele aquário deixou de ser seu?
Agora ele estava ali
com dois alienígenas que lembravam seus amigos.
Onde estavam os
piercings na cara de Dani Desastre? Onde estava o cabelo espetado e bizarro de
Rud Ruína? Onde estavam as olheiras e os olhares vidrados dos dois?
Fred mantinha suas
olheiras e seu olhar vidrado, injetado ali.
- Parece que nem o
nome da banda se aplica mais a vocês, seus traíras!
Fred saiu da sala.
Dani o encontrou fora do prédio. Estava sentado num banco fumando um charuto
vagabundo.
A olhou com desprezo:
- Se veio me
convencer pode ir embora!
Ela parou na frente
dele:
- Cresça Fred. Não dá
para você pensar alto? Porra, não dá pra ganhar dinheiro de verdade daquele
jeito.
Ele arregalou os
olhos:
- Dani Desastre você
está aí? Você disse porra. Bandas melosas não dizem porra! Eu sei que debaixo
destas roupinhas da moda está uma baixista cabulosa.
- As vezes você faz
jus ao teu nome. Fred, faz isso por nós?
- Dani... eu não faço
música diluída.
Ela sentou ao seu
lado.
- Fred, eu tenho uma
filha agora. Não posso mais viver como uma porra-louca.
- Dani. Vocês colocaram golfinhos na capa. Golfinhos!
Ela dá um tapa no
ombro dele.
- Para! Essa jogada
vai dar certo, vai criar polêmica. É uma mudança radical cara. Eu e o Rud
queremos muito isso. Até as composições estão prontas.
- Aquelas merdas que
eu ouvi na sala são as novas músicas? Eu nem participei de nada.
Ela grita.
- O senhor? O senhor
estava com o nariz entupido. Com o braço recheado de agulhas! Não está nem aí
pra nós Fred!
Fala mais baixo.
- Eu e o Rud fizemos
até a parte das guitarras.
- Isso está na cara.
Não tinha nem um pouco de peso, nem uma sombra de distorção.
- Nós sabíamos que
não ia ser fácil com você.
Fred traga o charuto,
solta a fumaça e responde.
- E eu sabia que este
contrato com gravadora grande ia fazer isso com a gente.
Dani segura a mão de
Fred.
- Você é nosso amigo,
queremos você conosco.
- Ou?
- Evoluímos,
aprendemos até o seu instrumento. Você entendeu, não é?
Com o rosto em fúria.
- Estão me chutando?
Ela se levanta.
- Pensa bem Fred.
E vai embora, Fred
grita.
- Estão me chutando
da banda que eu fundei!?
A raiva habitual
invadiu os sentidos e inundou o corpo. Era o que o impulsionava.
Surgiu em uma
infância tão ruim quanto o inferno e se apegou a ele. Depois de um tempo ela
precisou que ele a despejasse, a descarregasse.
A adolescência e a
música. A mistura volátil que lhe foi entregue com amigos tão revoltados quanto
ele.
A banda, os codinomes
e toda vertente de autodestruição possível.
Anos de abusos e
perigos. Brigas, confusões e agressões. A raiva precisa de alimento para
existir.
Dani quase morreu com
uma overdose cinco anos atrás. Rud perdeu alguns dentes.
E a raiva vai mudando
de alvo, de direção.
Raiva por ver outros
amigos do mundo caótico morrendo.
Por acabar com todo o
dinheiro ganho comprando coisas que lhe faziam mal. Que roubavam sua energia.
Dois anos atrás Dani
recusou-se a dormir com ele novamente. Fred estranhou, viviam livres, sem
obrigações com ninguém.
Dani respondeu que
estava apaixonada por Rud.
E Fred sentiu raiva.
Ela havia parado com
a diversão, depois que ficou com Rud. O que Fred não percebia é que para seus
amigos não havia mais diversão.
Só sequelas.
Para completar o
quadro ela teve uma filha.
E Fred sentiu raiva
por se importar com isso. O contrato da gravadora chegou em meio ao caos da
banda. Eles tinham vários fãs no submundo da música. Lotavam os shows.
Mas os lugares para
tocar escasseavam, os fãs transbordavam de raiva e quebravam os
estabelecimentos.
Os cachês mal pagavam
os estragos.
Ficaram famosos por
isso.
Uma gravadora grande
cresceu os olhos, achou que a banda conseguiria o estrelato em mídias maiores.
Assinaram o contrato.
Com o dinheiro do
adiantamento para produzir um novo disco, Rud e Dani procuraram outras
sonoridades.
E Fred se encheu de
drogas.
Meia hora depois
entrou na sala de reuniões novamente. Todos esperavam uma reação explosiva.
E ficaram surpresos
com o que ele disse.
- Tá bem! Eu quero
fazer uma faixa para o disco.
Rud e Dani olharam
para o figurão da gravadora. O chefão se pronunciou:
- Certo. Poderá ser
um bônus: faixa 16.
Fred olhou para baixo
escondendo seu olhar de ódio.
- E depois saio da
banda.
Ninguém manifestou
única objeção. Saiu rápido da sala.
Entre os dois
integrantes restantes e o chefão ficou tudo acertado.
- Será bom... um
petisco para seus antigos fãs.
domingo, 2 de julho de 2017
Singular
“Ocasião que torna
infiéis os prometidos”
- Agora ela deu pra
achar que eu vou abandoná-la. Você acredita?
Omar encheu a mão de
salgadinhos e respondeu.
- Grávidas são assim
mesmo. Elas ficam mais sensíveis e o escambau, o que você diz de forma simples
vira a terceira guerra mundial.
Leandro coçou o
queixo.
- Então você passou
por isso quando a Amélia estava grávida?
- Ô, ela achava que
eu ia embora com a vizinha que só tinha dois dentes!
Riram, Leandro olhava
para a paisagem repetitiva. A vida estava nos eixos, emprego estável, filho a
caminho, acabando a faculdade. Sempre quis ser pai, quando receberam o
resultado do exame abriu um sorrisão.
Tinha certeza que não
iria deixá-la¹.
A viagem de ônibus
continuava. Omar empolgado, queria conversar sobre algo que lera.
- Quem escapou disse
que as luzes se apagam, ainda fico com isso na cabeça, é como uma bateria sem
carga.
Leandro concordou com
a cabeça, Omar prosseguiu.
- Outros disseram
enxergar uma luz distante em um breu, um farol moribundo.
A metáfora de Omar o
levou a pensar em Tereza, sua mulher foi o farol de sua vida turbulenta.
Três horas da manhã.
Um ruído era o sinal
nas trevas do quarto, Tereza estava chorando, ele a abraçou forte.
- Estou aqui, está
tudo bem.
As lágrimas escorriam
pelo rosto e molhavam o peito de Leandro.
- Com o que sonhou
linda?
Ela comprimiu-se nos
braços dele, não respondeu de imediato. Ele a conhecia como a palma da mão e
lhe deu tempo.
- Sabia que ia me
deixar, foi embora com uma loira bonita! Eu não sou bonita.
Ela chorava baixinho.
- Eu não vou te
deixar, já tenho tudo o que eu quero do mundo.
A apertou, tocando o
barrigão.
- Estou falando
sozinho aqui meu?
Leandro voltou a si.
- Desculpe Omar.
- Ainda pensando na
Tereza né? Você ama ela cara, não entre na paranoia. Lembre-se do que eu disse:
grávidas são sensíveis.
- Eu... eu não, eu
nunca pensei em trai-la sabe? Como foi que ela colocou isso na cabeça?
- Leandro, não
precisa me convencer. Sei que nem pensa em fazer cachorrada com a Tereza. A sua
mulher só teve um pesadelo! É só um pesadelo cara! Não alimente a ideia que não
faz bem pra nenhum dos dois. Mudamos de assunto; eu acho que trabalhamos muito
longe meu velho.
Leandro sorriu, Omar
podia ter razão. Tentar apagar um incêndio com jornais não daria certo, retomou
a conversa.
- Continue o assunto
de que falava antes.
Omar aprovou com
brilho nos olhos.
- Sobre o filme
mental. Nossas melhores cenas em um compilado pessoal especial. Melhor que
Copolla, Scorcese ou qualquer grande diretor². Nossas maiores conquistas,
desejos, decepções, saudades e amores. Sempre achei esta ideia mais elegante. O
que acha?
- Gosto mais de outra
ideia.
- Qual?
Leandro não
respondeu, diante dele uma loira bonita procurava um lugar para sentar. Vinha
sorrindo e era como a descrição de Tereza.
terça-feira, 20 de junho de 2017
Amor em notas
1 - Conta o poeta
O pessoal se reunia
na praça para ouvir o poeta declamar suas poesias. Estranhamente ele diz a
todos:
- Hoje não recitarei
minhas poesias. Mas contarei uma estória que é a pura poesia.
E começou a contar.
" Havia um casal
perfeito formado na cidade, uma união de alquimia pura. Ela era uma poetisa de
renome. Ele um multi-instrumentista premiado. Conheceram-se em um encontro de
belas artes e nunca mais se largaram.
Já se amavam antes de
se conhecer pessoalmente, ela escrevia suas poesias escutando os discos que ele
fizera. Ele lia as poesias dela e realizava composições.
Tudo estava
destinado.
O casamento aconteceu
pouco depois do primeiro beijo. Sentiam que pertenciam ao outro. A alegria dos
dois transbordava e a festa foi luxuosa.
Foram morar numa casa
enorme e bela. Com um jardim imenso e quartos para a música e a poesia.
Durante essa época
lançaram suas mais conhecidas obras. E com o devido sucesso eles melhoraram
ainda mais sua situação financeira.
Difícil ver pessoas
mais felizes que Rosa e Proteus. Tinham alguns empregados na vasta casa,
arrumadeiras, mordomo e até um jardineiro.
E o tempo passou,
logo completaram cinco anos de casamento. Proteus tinha uma surpresa para Rosa.
Após todos saírem, os
convidados do aniversário e empregados, Proteus pegou seu violino.
- Essa é tua música
Rosa...
E tocou a composição
mais bela do mundo, a poetisa pôs-se a bailar. Seus olhos marejavam em
felicidade. Nunca havia ouvido algo tão bonito, tão forte e ao mesmo tempo tão
sentimental.
- É linda Proteus. É
a música mais linda que já ouvi.
Proteus chorou após a
execução, enxugou as lágrimas e disse.
- Chama-se Réquiem para Rosa¹, um réquiem para a
vida, enquanto essa música existir você será imortal nas notas.
Beijaram-se
fortemente.
Da janela alguém
observava o casal e de forma suja... cobriu as plantas do jardim com "amor
solitário"."
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