Citações

"Escabroso, delirante e assustador! Perfeito!" Por Drauzio Marqezini em 12/04/2012 no site Recanto das Letras.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Só por hoje







 Ele¹ acordou nove horas.
 Apesar de estar de férias.
 Sentiu que não estava aproveitando. Era para estar descansando, gostaria de acordar ao meio-dia.
 As pessoas o impulsionavam a fazer coisas e ele não gostava disso. A situação se agravou pois voltou a morar com a mãe. Ele se perguntava o porquê dos relacionamentos terminarem.
  Parecia que o destino cravava as garras em seu desapego familiar. Quando pensou que ficaria longe da mãe para sempre tudo deu errado.
 Morar com a namorada foi complicado.
 E após um tempo, insustentável.
 Residir com a namorada foi comparado com dividir o teto com qualquer parente no quesito chatice.
 Todos que se relacionavam com ele chegavam as mesmas atitudes. Dedos na cara e milhares de perguntas.
 "O que você faz com seu dinheiro?"
 "Você deveria fazer algo da tua vida!"
 "Você não pensa em crescer?"
 "Porquê não faz um curso ou volta pra faculdade?"
 Todos opinavam, todos questionavam. Ele queria morrer sempre que tinha de responder.
 "Paguei as contas e comprei..."
 Geralmente o rosto do opinador-questionador(chato entre outras conotações) se alterava diante dessa resposta. E soltava os cachorros.
 "Comprou o quê? Um livro? Um gibi estúpido? É por isso que você não consegue nada..."
 E blá, blá, blá.
 Ou quando respondia:
 "Eu não sei o que fazer."
 O opinador-questionador-chato ficava incrédulo.
 "Não acredito. Com essa idade ainda não sabe o que fazer?"
 Falavam como se ele fosse falecer em dois minutos. E toda vez que ele achava uma forma de prazer: escrever, teatro, cinema, quadrinhos etc. Tinha de escutar:
 "Vai fazer teatro com seus amigos? Mas eles são um fracasso! Um bando de gente que não tem onde cair morta."
 Ou:
 "Gastou quanto nisso!?"
 Um verbo que os opinadores-questionadores-chatos conheciam bem: gastar.
 Parecia que ninguém lembrava do verbo viver.
 Parou de matutar, correu para o banho. Estava atrasado.


 Saindo de casa a voz da mãe grita no seu cérebro.
 "Não esquece de dar comida para os cachorros."
 Estava de férias.
 Isso potencializava seu egoísmo frustrado. Queria somente se alimentar. Seria mais conveniente envenenar os caninos.
 A matriarca grita novamente e ele volta para dar comida aos animais.


 Ao entrar no transporte público lhe saltou da carteira a fácil nota de vinte. Tentou pagar o cobrador, este se recusou a aceitar o dinheiro. Apontou para um adesivo imbecil no vidro.
 "Troco máximo permitido R$ 10,00."
 Então era isso?
 Se por acaso lhe faltasse outras notas teria de descer. Ele pensa e olha para o cobrador.
 "O que eu faço com você?"
 Age rápido. Puxa a mão direita do cobrador de encontro a roleta, com o joelho prende a mão esmagando. O cobrador grita, ele puxa seus cabelos e começa a bater a cabeça contra o caixa.
 Os dentes quebrados caem no caixa aberto, manchando as notas de sangue.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Como um Leproso






Não me convidaram, por consequência minha família não foi convidada.
E isso me faz pensar.
Não é de hoje que me distancio, que pouco me afeto, que tão pouco me importo.
Me sinto como um leproso, preso numa bolha imposta por meu espírito, encarcerado pela minha vontade, cárcere este, auto imposto.
E como a lepra o processo foi progressivo, sou mais pária hoje do que era ontem. Já caminhava na estrada sem destino desde meus primeiros relacionamentos.
Um exemplo simples dos sintomas foi minha carreira profissional. Era incapaz de manter máscaras nos primeiros empregos portanto incapaz de manter. Duravam em média um ano se tanto.
Bastava um dia ruim para que eu pedisse a conta, bastava meu comportamento bizarro para que fosse mandado embora.
E nunca lamentei nenhum deles.
Conheci muitas mulheres e poucas me afetaram.
Pensava que não sabia amar, pobre tolo imaturo, até os que padecem como eu são capazes de amar.
Reflito aqui esperando o coletivo nesse sábado tétrico dando respostas do porquê não ter sido convidado.
Tenho receio de ter um rompante de meu fantasma passado e chutar a mesa com as cartas que tenho hoje.
Desenvolvi máscaras, quando percebi com a maturidade que meu modo de viver não era aceitável pela sociedade.
Afinal, tenho mais prazer lendo do que falando com pessoas que não me interessam, prefiro ouvir boa música do que ir a festivais onde me tocam involuntariamente, escrever meus textos de autor frustrado do que socializar.
Socializar, palavra difícil de falar e pior, difícil de praticar. Para mim, sem máscara, quase impossível. Minha “doença” não tem cura e aumenta com a idade, diferente da lepra que pode ser tratada mesmo que já tenha mutilado bastante seu portador.
Com a necessidade de expor detalhes das vidas nas redes sociais com fotos, áudios e posts ruins me torno um leproso dos tempos modernos.
Visto como o frio doente(cadáver) que não deseja sair com os “amigos” do trabalho.
Amigos do trabalho.
Outra mentira corporativa, posso dizer que tive poucos amigos reais na vida e destes pouquíssimos vieram dos trabalhos.
Uma forma amarga de ver a vida?
Nunca pensei assim, saboreio um livro bom como um macarrão bem feito, escuto músicas boas como se saboreasse um bolo de chocolate. Mas dá pra contar nos dedos as pessoas que me causaram isso com conversa, com brincadeiras ou com sexo.
Tentei ser o melhor possível com minhas namoradas. Algumas compreenderam minha patologia de maneira mais fácil, algumas partilhavam de outras doenças, algumas não me entendem até hoje.
Parei de me culpar (ou tentar) pelas traições muito cedo, parei de me culpar (ou tentar) por dizer as verdades nos relacionamentos mais tarde.
As traições, verdades utilizadas para destruir ou mudar na marra a dinâmica dos relacionamentos amorosos.
Traí e fui traído, dou risada quando escuto pessoas que dizem não trair.
Já nos traímos ao acordar e seguir uma rotina torturante para sobreviver com um sorriso no rosto. Nos traímos em relações de merda com folgados e folgadas.
Trair a si mesmo é uma característica do sapiens.
Se eu fosse uma carta de tarô seria o eremita. Viveria bem sozinho, com bons livros e boa música.
Eu odeio o mundo?
Eu não odeio ninguém, eu odeio ter de ir a encontros idiotas, conversar com gente vazia, sorrir em comemorações que não me apetecem, falar que amo só para tornar vidas suportáveis, odeio amar e não ter, odeio visitar pessoas quando poderia escrever ou ler, eu odeio conviver.
E isso é e sempre será perigoso pra todo o resto.
Eu posso fingir empatia e chorar em uma cena tocante para a maioria.
Mas eu não sinto nada por quase ninguém.
Eu sou aquele que na situação extrema causará o maior dano e tentará sair impune.
Aquele que envenenaria o café que todos tomam para atingir um único e igualmente insignificante ser.
E vou sobreviver a todos vocês.
Mesmo que me conheça a mais de dez anos e viva a três casas da minha. Mesmo que eu não te visite pois não gosto disso e não por que não gosto de você, mesmo que tenha chorado a morte do seu pai verdadeiramente e não espere nada disso.
Mesmo que não tenha me convidado ao seu casamento.
Hoje dizem que correspondemos de um a três por cento da população mundial.
O coletivo chegou.
Olho da janela uma menina contida em seus movimentos, sentada no banco procurando não encostar em ninguém. Tem um livro nas mãos e não quer fazer contato visual, não quer ser reconhecida.
A porcentagem aumenta a cada dia.
Que máscara vou vestir?
Só por hoje¹.


Publicado no site Recanto das Letras em 15/11/2016.



1 - Referência ao espírito do cidadão comum revoltado, presente no conto homônimo.


domingo, 21 de outubro de 2018

Turismo Penal






O rapaz bronzeado caminha pela praia em direção a câmera.
“- Olá, sou Gabriel Sovina, tri campeão mundial de surfe. Hoje não estou aqui para indicar materiais esportivos.
Todos sabem que já viajei o planeta com o esporte, estou aqui para falar de suas férias e da terra que adotei.
Isso mesmo.
Está cansado dos mesmos lugares, as mesmas praias e emoções? Que tal testar seu psicológico em um dos destinos mais assustadores do mundo?
Não falo de praticar esportes radicais, ou visitar parques de diversão com brinquedos imensos.
Falo de um local real que abriga criaturas saidas dos piores pesadelos dos escritores de terror.
Uma terra cujos nativos são considerados mestres da sobrevivência, lugar de atuação do ícone Mike Dundee¹ e seus famosos facões.
Andar armado por aqui, sempre é uma boa ideia. Pensando nisso, a Viagens Tártaro disponibiliza treinamento aos visitantes através do pacote H.P.².
Falo por conhecimento de causa, na semana passada uma criança do meu bairro foi atacada por um morcego raposa³. Já viu o tamanho do bicho?
Imagine um grande cachorro com asas e presas afiadas, durante o dia os vemos pendurados como primos distantes do Drácula, envergando árvores.
As abelhas, símbolos de saúde devido as propriedades curativas de sua cera e do mel, aqui alimentam fobias. O veneno de nossas abelhas mata mais pessoas durante o ano que os ataques de tubarões que dilaceram os surfistas.
Sem falar de aranhas que parecem grandes shurikens do tamanho de mesas. Uma visão capaz de paralisar os mais corajosos.
O perigo rodeia até os mais pacatos habitantes, em um banho de mar você pode topar com uma imensa criatura translúcida, com tentáculos de três metros, nossa superlativa água viva. As marcas que deixam lembram grandes queimaduras, sem tratamento, seu coração e os pulmões param.
O pacote H.P. disponibiliza antitoxinas para aproximadamente 70 tipos de veneno, guias e monitores que acompanham os visitantes todo o tempo e vasculham os quartos a noite procurando insetos, répteis e mamíferos hostis.
O clima de terror é garantido desde o momento em que o visitante desce do avião. Segundo especialistas a abundância de animais letais por metro quadrado supera qualquer outro país.
Dúvida?
Qualquer busca na rede mostrará estas horrendas maravilhas, se procura por emoções fortes, pesquise fotos dos singelos animais de que falei.
E o bônus, não são só os animais. Antigamente, nosso continente servia de imensa colônia penal e local para onde expurgavam indesejados, com o passar dos anos ocorreu a proliferação dos mais diversos crimes.
Os desaparecimentos fazem parte de nosso cotidiano, o clima e nossa disposição geográfica facilitam as atividades de assassinos em série em atividade em nosso solo.
E você pensando que seria radical viajar pro sul dos EUA nesta época do ano.
Acredite, lá nessa época se é capaz de fritar bifes nas ruas.
Aqui, você sua família, podem ser assados sem proteção, com os rigores de nosso verão.
 E se isso não é um desafio até pro Crocodilo Dundee, eu não sei o que é.
Visite nossa ex colônia penal, visite a Austrália pela Viagens Tártaro!




Publicado no site Recanto das Letras em 21/10/2018.


Extras e referências:

1 - 

2 - 

3 - 

4 - Tártaro cia, empresa sombria envolvida nos mais escabrosos empreendimentos, de testes ilegais de medicamentos a chacinas. Assombra vários contos do autor, entre eles, seu conto irmão A Propaganda.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Pior do que eu




PIOR QUE EU, você é pior do que eu. Eu me levanto rasgado, sangrando, coberto de porra, cheio de suor, sem rosto.
Esperando que alguém creia, esperando um dia, por uns dias ter lábios para foder, para beijar, para sorrir.
Enquanto procuro um rosto, busco alguém que não quer um rosto. Alguém que quer ser um anônimo de manchete, facilmente esquecido, que tenha um grande ato apenas.
NÃO ACHAVA QUE FUNCIONARIA DE NOVO mas vocês sempre querem agir como os animais que são. Quando pensam em um ato sórdido acrescentam mais e mais detalhes em cada vez. O PROCESSO JÁ COMEÇOU, você quer vivenciar o estupro, quer sentir a pressão da arma ao dar um tiro em alguém. NÃO LUTE, a sociedade é a jaula de vocês.
Os animais selvagens que são confinados em celas adoecem, morrem ou ficam loucos. RELAXE!
VOCÊ ME acha tolo escrevendo isso mas REPETE E REPETE tudo o que está na página NA SUA CABEÇA.
EU FICO impressionado com a força que desconhecem ter.
Faça um teste, fale para um amigo que adora torta de frango que tal alimento é insosso. Diga pra ele todos os dias. No final, o pensamento será CADA VEZ MAIS FORTE.
PAREÇO CADA VEZ MAIS HORRÍVEL!
E aposto contigo que a cabeça de seu amigo transformará a deliciosa torta de frango numa comida indigesta.
SUA CABEÇA VERÁ e de antemão provará todas as tortas de frango do mundo e as vai comparar a UM MONSTRO INIMAGINÁVEL.
E PARA HONRAR SUAS EXPECTATIVAS o paladar vai enganá-lo e ele sentirá um gosto de papel quando comer uma suculenta torta de frango.
EU VOU ME FORMANDO nos pequenos detalhes, na palmada extra no filho birrento, na puxada de cabelo mais forte durante a foda, na palavra atravessada para seu colega de trabalho.
Sempre PERTO DE ONDE VOCÊ ESTÁ!
EU BUSCO ALGUÉM que quer sair da jaula, alguém que você rotula como verme, em uma intensa procura COMO EU. DISPOSTO A UMA TROCA de sua tediosa rotina por um momento de jaula aberta.
Mesmo que isso signifique outra jaula no futuro ou a não existência.
SABE O ARREPIO QUE SENTE QUANDO ESTÁ SOZINHO?
É o animal querendo sair!
Você ficará grato QUANDO EU ESTIVER ATRÁS DE VOCÊ.
O prazer? ELE SERÁ PERMANENTE.
TENTE APAGAR da mente o que está lendo. Você não vai conseguir, é igual ao teste da torta com o amigo.
Quando tentam desesperadamente apagar algo da mente, esse pequeno algo vira o monstruoso algo.
O pensamento recorrente? Ele será permanente!
MAS DEIXA QUE EU COMANDO TUDO. Deixa que eu diga coisas que a sociedade não quer que você pense, mas que está maluco pra fazer.
COMO EU SEREI PRA VOCÊ?
Quando você matuta no pior que você poderia ser, no pior que poderia fazer, como está seu rosto?
Como está seu rosto ao ocultar UM CORPO PODRE?
Ou quando não quer que o vejam MUTILADO?
Quando ri em segredo de um sujeito INFESTADO DE TUMORES?
Como está seu rosto ao ver um corpo COBERTO DE VERMES? Quando pensa que bom que não sou eu.
Como está seu rosto?
Eu, eu não tenho rosto. Mas TE FAREI VER...
O MUNDO sempre foi podre. Explique a histeria em massa, uma ideia é difundida em um grupo de pessoas. Então vocês queimam mulheres “bruxas” e lincham negros.
Eles são como a torta de frango.
Vocês são animais dementes que suplicam por uma jaula e isso os deixa loucos.
SE EU QUISER me levantar, ascender, ter presença, preciso de alguém que queira ser um feliz membro da horda de animais soltos.
Enquanto isso você irá procurar uma razão pra viver. Um dia alguém encherá sua cabeça com políticas de direita. 
Achando-se dono de si VOCÊ IRÁ PRA DIREITA.
Sua atenção me tornará tangível, pleno, preenchido, uno, completo SE EU QUISER.
Não resista; comente, escreva, fale de mim. Discurse sobre o sem rosto.
E quando me sentir irá questionar sua saúde mental.
VOCÊ IRÁ procurar ajuda com seu pai de santo, com seu padre, com um médico.
E noutro dia alguém te encherá a cabeça de políticas de esquerda.
PRA ESQUERDA, você vai se arrastar.
Toda mensagem tem um propósito, mesmo as que parecem inocentes. Como a vontade de apertar mais a coleira de um cachorro que quer ganhar a rua.
A respiração sob estrangulamento do bicho é justificada pra você?
E NO FINAL fincarei meus pés no seu cérebro. E buscará me esquecer NAS ÚLTIMAS LINHAS.
SEREI UMA DESCULPA para que acenda as luzes e que vasculhe a casa. Quando a coisa mais perigosa dentro dela é você.
Afinal, eu não tenho rosto para ser encarado.
PRA FAZER o que quero, para ganhar por um tempo um semblante tenho que ser eficiente em minha mensagem.
O QUE VOCÊ REALMENTE QUER agora é afogar sua besta, estrangular o bicho em você.
Você sabe que em algum lugar perto surge um ferimento e depois um braço. Pode sentir no barulho do cômodo próximo minhas pernas recém aparecidas em passos erráticos.
Você pode sentir. SENTE O ARREPIO?
EU me esgueiro procurando por você.
Então ESTOU PERTO, perto o suficiente para sentir a vibração de seu coração acelerado.
Eu não tenho rosto, me sinto bem NO ESCURO.
Tente.
VIRE-SE após terminar a mensagem para devagar descobrir outra mensagem nas grandes palavras. Mas termine de ler antes de voltar ao começo.
E ME SAÚDE por meu êxito. Faremos o que você quiser, você não quer mais se encarar NO ESPELHO, não é?
VOCÊ É PIOR DO QUE EU.



Publicado no site Recanto das Letras em 24/01/2016.







sábado, 24 de fevereiro de 2018

Inefável


“A melancolia da paixão arrebatadora é o sentimento de existência efêmera e urgente”


1 – O parlamento da chuva

Foi durante o outono.
As montagens dele eram excepcionais, um imenso sucesso de crítica e público. Todos queriam um pedaço de Raul, o cultuado Raul¹.
Tinha lenda de uma personalidade complexa, metódica, repleta de contornos míticos. Era cheio de manias e tiques, diziam que era versado em diversas áreas.
Quando consegui o papel em sua adaptação para o teatro de Pensamento Atropelado sabia que era a chance da minha vida.
Imagine só uma atriz fresca prestes a estrear trabalhando com ele, um bilhete de loteria sorteado. Nos primeiros dias a ansiedade para conhecer o diretor quase me consumiu. Para agravar a situação ele tinha aplicado um de seus habituais sumiços.
Duravam sempre uma semana.
Então esperei os dias, mordendo os lábios, para ver a mente corajosa de Empalando Freiras Virgens.
Começou uma chuva forte numa tarde e eis que surge ensopado nas portas do teatro. Apolíneo e dionisíaco em si, pediu enquanto mastigava suas balas de goma.
- Podem me encontrar lá fora?
Boquiaberto, o elenco acompanhou a força de sua figura e fomos de encontro ao brilho dos raios. Em poucos segundos todos pareciam que tinham saído do mar. Alguns rostos demonstravam raiva e descontentamento, Raul sentou-se ao meio fio e com sua voz grave e a risada característica solicitou:
- Sentem-se comigo, apreciem a chuva!
Ele estava ali em seu bruto, um vanguardista brilhando na rua encharcada, naquele momento todos os presentes sorriram olhando o criador, que sentia milhares de gotas como abraços calorosos.
Fizemos um círculo na calçada e apreciamos a chuva, apreciamos nossas pessoas, apreciamos a arte.
E dali em diante torcíamos para que chovesse para mais um parlamento da chuva.

Natalia Gomes, atriz revelação vencedora do prêmio Esplendor.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Fim do expediente



"Seja bom, pelo amor de Satã... seja bom!"


 Todos os dias Yves acordava cedo. Os olhos cansados contemplavam o rosto acabado.
 Murmurava para o espelho sua oração:
 - Patético.
 E andava rápido em seu patético carro, enfiava-se no engarrafamento patético para chegar ao emprego igualmente patético.

 O dia passa entre as malditas ligações. Subemprego, soa como deve soar. A comida da lanchonete o fez engordar, a rotina o tornou ansioso.
 Duas décadas e meia de uma vida insignificante. Sentado, com o fone ao ouvido sentindo a existência escoar lentamente.
 Acostumou a atender os mal-educados que costumavam ofender sua adorável mãe todos os dias. Era gentil e bom com os novos funcionários que iam aprender o ofício com ele.
 Estava acostumado a ouvir:
 - Como você aguentou ficar três anos neste inferno?
 Respondia automático:
 - Não é tão ruim quando se acostuma.
 Quando se acostuma a destruir o orgulho, seus ouvidos, sua voz. Quando se acostuma a ver os puxa-sacos ganharem puxa-sacos ao subirem de cargo.
 Acostuma-se a ganhar dinheiro para instituições que claramente o viam como algarismo.
 Um número de funcionário.

 Ia começar a seleção interna para escolha do funcionário do mês, se ganhasse lhe dariam um broche idiota. Seu nome enfeitaria uma folha de sulfite imbecil.
 Poderia usufruir de uma folga bônus.
 Uma.

 Neste mês, ele cumprira os requisitos básicos da eleição. Para ser elegível o candidato não podia ter faltas injustificadas e advertências.
 No mês anterior Yves teve de assistir Willian se tornar o funcionário do mês.
 Willian, que tinha a supervisora em boa conta, que escondia suas faltas com resultados em vendas, que era um supremo lambe-botas. Um safado protegido.
 Yves faltou uma única vez no mês anterior por uma emergência familiar. Explicou tudo a supervisão e ganhou uma advertência.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um pedaço de mau caminho






 1 - Desgraçado


 Nasceu com olhos azuis e parecia...
 - Um anjinho.
 Essa foi a frase da mãe ao ver o bebê, para piorar a situação o bastardinho veio com cabelo loiro e ganhou nome de anjo.
 - Vai se chamar Gabriel.
 Dã.
 Mais típico impossível, desde o começo foi mimado. O pequeno gordinho mal saiu do hospital e era convidado a fazer comerciais. E foi enriquecendo os pais ainda sem saber limpar a bunda sozinho.
 Foi crescendo e habituando-se a receber de pronto seus desejos. Com oito anos, descobriu o valor de um rosto para o mundo.
 Estava na escola e roubou o giz colorido do Paulinho, a professora descobriu e veio tirar satisfação.
 - Gabriel. Isso não se faz...
 Ainda nem tinha beijado alguém e descobriu o cinismo.
 - Mas professora esse giz é meu.
 O Paulinho tinha um histórico horrível, batia em todo mundo e ferrava tudo mas ladrão, ladrão não era.
 - Ele tá mentindo professora!
 Doeu no querubim ser contrariado em sua farsa.
 - É meu sim. É meu sim.
 Começou a chorar como um rio, chorava de raiva.
 Vendo que o artifício não funcionava apelou, partiu para pancadaria. Nunca havia batido em ninguém. Talvez por isso tenha sido tão brutal, tão primitivo. Pegou o parrudo Paulinho de surpresa, este caiu para trás e perdeu dois dentes.
 Paulinho levantou com olhos de um carniceiro. Num salto avançou sobre o anjinho.
 Mas um braço forte o conteve de sua satisfação imediata. Era o diretor da escola que passava por ali.
 Gabriel levou sua mentira até as últimas consequências, como reparação, Paulinho foi expulso da escola.
 Neste mesmo dia esperou a saída de Gabriel da escola. Mas os pais do modelo-mirim foram buscar.
 - Não deixo mais meu filho nesta escola de ladrões.
 Sentenciou a mãe e o mudou para a melhor escola paga da região.
 Já o Paulinho; além de perder dois dentes levou uma surra ainda maior do Paulão, o pai, que era famoso por ter mão pesada e praticar boxe no filho.
 - Acho que o Gabriel vai precisar de terapia depois desse trauma, ele ficou tão mal que até bateu no ladrãozinho.
 A terapia do Paulinho pra aprender a não mexer com anjos foi de vários hematomas pelo corpo.
 Gabriel. Boa aparência, bem de vida, requisitos essenciais para surgir um desgraçado.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Rolê pacífico




Amigo, eu sou negro, nasci pobre e estava com meus irmãos no rolê pacífico. Não fica de pé me encarando, senta aí que eu conto.
Dizem no clube que se chama noche pacifica, mas amigo; eu vivia nas ruas.
Então eu chamo de rolê pacífico.
É quando um bando de veteranos, caras que foram baleados, torturados, mutilados, afogados e viveram para...
Viveram para um novo trabalho se reúnem para celebrar sem “interferir” no ambiente.
E por que isso?
Porque isso é um encerramento honroso que lembra a cerne de cada um de nós. Subimos de um buraco sozinhos, sobrevivemos a uma mãe, pai, marido ou esposa sozinhos. Tanto para o positivo quanto para o negativo. Sobrevivemos sozinhos, a tudo; sozinhos.
Mas o clube nos une.
Ali conversamos, bebemos, juntamos amigos de anos e é lógico arrumamos uns bicos. Um cagando pra vida do outro. Desde que nada ameace o clube.
Que bicos?
Que bicos, você pergunta.
Alguns serviços de extermínio de insetos, erradicação. Sim, isso mesmo que o senhor ouviu.
Erradicação.
Mas eles começaram senhor. Só queremos sair daqui, foi legítima defesa. Depois de tudo, o pessoal que estava lá disse que o bar quase tinha sido destruído na semana passada. Na ocasião, disseram que um cara doido acalmou todos com diálogo. Nós só conversamos com os nossos.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Socializando




Ela precisava socializar, é o que todos diziam.
“Flávia, você fica no seu mundo e conversa com os outros apenas pela internet, precisa sair mais”
Sair mais, não ficar sozinha mais uma noite. O mundo é fugaz, não basta nossa própria companhia para todos.
“Você é tão bonita, devia aproveitar a vida”
E era bonita mesmo, não achava que desperdiçava a vida. Não gostava que os outros sequer pensassem nela.
O fato é que de tanto martelarem, de tanto falarem, de tanto encherem o saco e somando as malditas festas de fim de ano, conseguiram deixá-la deprimida.
Ajeitou seu cabelo curto e preto, botou o batom vermelho e saiu sem rumo.

Acabou parando no bar de um amigo de faculdade. O ambiente era patético, poucos solitários iam para a rua nas vésperas de festas.
- Todos com a família e os amigos.
Lhe respondeu o dono.
Foi aí que viu ele.
Ele parecia grande mesmo sentado no balcão, tinha um rosto mediano e uma bela barba. Os olhos eram a cereja do bolo, pousaram fixos nela.
“Eu espero que ele venha até aqui, nem a pau que vou lá”
Estava decidida, tomaria mais uma dose e se ele não fosse falar com ela iria embora.
Então ele sorriu pra ela, o choque foi tão grande que ela retribuiu com um “uh”!
“Espero que ele não tenha ouvido isso”
Já vinha em sua direção, ele cheirava bem.
- Está criando coragem para aparecer na festa?
A investida boba a fez corar.
- Não tenho festa pra ir.
Ele continuou com as frases tolas:
- Bonita assim e toda arrumada sem lugar pra ir? Qual é seu nome?
Não sabia se era o jeito ingênuo da chegada dele, ou o modo que olhava, daria uma chance:
- Flávia.
Ele passou a mão pela barba.
- Flávia, eu sou Ivan. Tenho um lugar para ir mas me falta companhia.
E estendeu a mão.
- Quer ir comigo? Não se preocupe, é aqui perto.
Ela fez uma cara de relutante.
- Lembrando que toda a rua é iluminada e tem várias pessoas perambulando indo para suas casas.
Ela riu.
Saíram juntos do bar.

A casa estava iluminada, havia pouco mais de uma dezena de pessoas ali. Flávia cruzou a porta e alguns conversaram entre si. Ninguém prestou a atenção nela e Ivan não a apresentou. O lugar fedia, justificado cheiro de festa.
De mãos dadas com Ivan não ligou. Tentaria socializar, haveria tempo para isso.
- Me diga o que você quer ouvir Flávia.
Ela pensou: Mas eu não conheço ninguém, e se não gostarem?
Ivan sorriu:
- Está na minha casa e vamos ouvir o que você quiser!
“Qualquer coisa que não seja pra baixo, afinal não estou sozinha, diga qualquer coisa menos Joy Division¹
E sua boca a traiu com o que queria de verdade:
- Joy Division.
O barbudo arregalou os olhos.
- Putz coloco com prazer, é uma das minhas bandas preferidas. Que coincidência.
E atravessou o grupo de pessoas para alcançar o som. Enquanto She's lost control invadia a sala ela permitiu balançar a cabeça e curtir de leve com as mãos.
Parecia que estava conseguindo.

O povo parecia não dar a mínima pra música. Para Ivan o que importava era Flávia, lhe trouxe uma taça de espumante devidamente gelado.
Então ele sentou ao seu lado, os outros convidados ficaram encarando, aquilo atraiu a atenção de todos.
- Você é um achado, sem sombra de dúvida.
Flávia pôde ouvir o cochicho do rapaz de camisa vermelha que estava próximo do sofá.
- Ele sempre diz isso...
Ivan chegava mais perto e já encostava a mão em sua perna.
- Flávia, Flávia. Parece que você é meu número, meu número da sorte.
E aí a magia se perdeu, ele veio como um carro desgovernado para cima dela. Avançando o sinal e adentrando sua boca.
Todos olhavam enquanto ela colocou as mãos no peito dele, tentando afastar o grandalhão.
“Ninguém vai me ajudar?”
De repente ele pareceu sentir as pequenas mãos e se afastou com o rosto perturbado.
- Desculpe, é que passo muito tempo sozinho e não sei como agir.
O rapaz de vermelho olhou para Flávia:
- Sempre a mesma desculpa, aff!
Ivan se levanta.
- Vou pegar mais alguma coisa pra bebermos.
E foi na cozinha, Flávia disse ao cara de vermelho:
- Depois desse atropelamento eu vou embora!
Atônito ele chegou mais perto dela:
- Você estava ouvindo o que eu disse!? Querida vai embora logo! Lucile!
Ele chamava uma negra muito bonita do outro lado da sala. Lucile foi até o som, parecia concentrada, após um toque a música parou.
Ivan gritou da cozinha:
- Desculpe, parece que a energia desta casa é uma bosta.
Quando o som voltou começou a tocar She's lost control novamente. E Ivan grita:
- Porra!
Flávia se sentia tonta, o homem de vermelho fala rapidamente:
- Ele vai mexer no rádio primeiro quando voltar, se você for embora logo, talvez não a alcance.
Apavorada pela urgência das palavras, Flávia tentou levantar mas suas pernas não responderam.
- Me ajudem!
Ela disse para todos na sala, os rostos consternados só observavam.
- Pobre coitada!  Acho que você não entendeu querida, estamos tentando ajudar como podemos.
E um momento depois Ivan já estava sobre ela, as mãos em seu pescoço invencíveis. Tudo se fechava naqueles segundos finais durante a violação e o estrangulamento. Flávia soltou um baixo pedido de socorro.
Em resposta, o rosto suado de Ivan:
- Estamos sós aqui, doze! Só nós!
Perdendo a vida, Flávia vê as pessoas da sala perdendo as formas.
Foi depositada embaixo do assoalho ao lado de um esqueleto com camisa vermelha.

Era o número onze.



Extras e referências:

1 - Joy Division, banda liderada por Ian Curtis, expoente do pós-punk com flertes ao gótico. She's lost control representa a cama de gato com a protagonista.



domingo, 10 de dezembro de 2017

Diga mamãe





                              “Opus destruit hominem”


Eu odeio o seu mundo.
Vocês adoram se sentar em suas salas, fechados em cubículos e maquinando contra todos. Claramente engordando a cada segundo com suas idas cada vez mais frequentes a restaurantes e aos fast food enquanto alguns de seus subordinados nem trazem algo pra almoçar.
Adoram quando eles entram no seu “salão sagrado” mendigando algo que pode ajuda-los e vocês podem olhar de cima, sentados em suas cadeiras confortáveis.
Raramente me perguntam sobre meu filho, raramente perguntam se estou bem.
Fingem que a empresa possui valores e preenchem um mural com sua questionável moral. Seu código de conduta é um disfarce para a livre delação e outras práticas detestáveis. Aqui se você pisa fora de um dos parâmetros é traído sem pestanejar.
Devo dizer, nos quase nove anos nessa divisão do purgatório me tornei mais falso, mais amoral e mais cruel do que alguém que não seguiu essa carreira. Quanto mais alto o escalão nessa máquina, mais distante dos outros seres ficamos.
Eu sei por que estou aqui.
Você iria apontar o dedo na minha cara e enfiar goela abaixo que minhas atitudes não condizem com a firma. Na verdade, eu quero falar e você vai ouvir tudo. Tire a mão do telefone! Nenhum segurança deste monte de merda fodida chegará a tempo de te salvar.

domingo, 19 de novembro de 2017

O clube do escorpião





 1 - Longe da vista do mundo


 - Vou contar pra você o que aconteceu...


 "Aqueles dois só queriam um dia de descanso, uma visita ao bar parecia uma boa idéia.
 E ninguém no mundo "normal" espera por um sequestro.
 Na saída do bar foram dominados e encapuzados. Jogados em um porta-malas.
 Por quê um sequestro?
 Fausto e Oscar.
 Amigos inseparáveis até mesmo no sofrimento.
 Foram retirados do porta-malas num paradeiro desconhecido. Retiraram tudo o que lhes seria útil.
 Removeram os capuzes, Fausto e Oscar fitaram uma escuridão tão infindável quanto fria.
 - O que vocês querem? Dinheiro?
 Perguntou Oscar para a escuridão, um dos indivíduos ocultos respondeu:
 - Se tudo der certo tiramos vocês daí.
 Foram empurrados, a queda foi grande. Ao atingir o solo Fausto quebrou o tornozelo esquerdo.
 Oscar feriu a testa.
 Estavam abandonados em um buraco de paredes concretadas lisas. Lá embaixo não havia comida, água ou cobertores.
 Grandes amigos feridos.
 - Nós vamos sair dessa.


 As horas passam, a agonia traz companhia da fome e da sede. Especulam sobre o resgate que seria solicitado, para quem?


 Fausto lembra-se do pai inválido num colchão sujo do asilo. O mesmo inválido que em seus tempos áureos costumava usar o cinto para ensinar lições.
 A mãe era muda sem possuir deficiência alguma, distante e ausente. Morreu sem causar estardalhaço, dormindo.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Oscar lembra-se da rua, fugiu de casa com doze anos e não voltou. Contrariou estatísticas e ainda estava vivo.
 Saiu do grande vazio do seio familiar e buscou o vazio eterno da rua. Seria melhor que rostos estranhos o pudessem fazer mal, não toleraria mais que pessoas de sua família o fizessem trabalhar. Ou as visitas noturnas do seu tio.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Se corroíam com as lembranças e o silêncio. Os pulmões cansados de gritar.


 Cai a noite, a estação traz a chuva.
 Abençoada chuva.
 Fausto e Oscar bebem água da chuva das paredes lisas. Preciosa chuva, aguentariam a sede por hora.
 A temperatura cai rapidamente.
 Maldita chuva.
 Encharcados, morrendo congelados. Esfregam os corpos para diminuir a sensação.


 O cheiro, um odor forte que sentiram desde que aterrissaram ali os enchia de horror.
 Era um cheiro de morte.
 Alguém havia morrido naquele lugar.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A propaganda





Era veiculado durante as madrugadas.
Da varanda de uma casa antiga de madeira um velho de chapéu olha para a câmera, olha pra você.

“Sim senhor, venha conhecer o pedaço. Temos em torno de 25 milhões de habitantes e baldes de ódio pra todo mundo.
Ó deserto imenso de paisagens tétricas, como a vida conseguiu perseverar aqui?
Ódio amigo, do mais puro!
Conhece a história das nações?
Manchadas de sangue, traições e crimes macabros. Nada se compara com isso aqui compadre, nada mesmo!
Odiamos brancos, que odeiam negros, que odeiam índios, que odeiam chineses.
A própria terra daqui nos odeia. Lembrem das grandes caravanas, da fome, das pragas. Aqui o escalpo já foi bem pago, quanto maior a quantidade melhor. Livre das amarras da sociedade no cenário desolado o estupro era impune, nativos tinham como único direito assegurado o de ter uma morte horrível.

sábado, 7 de outubro de 2017

Coceira



             “As palavras são a pintura e as mãos a moldura”


Eu sabia que você iria me chamar.
Fiquei lá esperando, perto daquele cara coberto de tatuagens infantis, perto do alucinado que diz ter se expandido e o cara que fez a Terceira Guerra Mundial na rua dele¹. Acho que sei até o que você pensou me chamando “vou falar com aquele farrapo humano pois ele me incomoda raspando a cara na parede”.
Quem sabe eu não paro com isso enquanto falo contigo, não é?
Tem partes da minha cabeça que o cabelo nem cresce mais.
Ahh... Me pergunta como isso começou, de novo?
A desconfiança, a perturbação, a coceira?
É preciso falar de Tania.
Eu tinha conhecido todas as drogas, todo o prazer que o mundo poderia me proporcionar. Ela se encaixou em mim pois me perturbava, me fazia olhar quando eu não queria, me fazia pensar nela enquanto comia. E nada me perturbava, parecia um instinto, um ato involuntário.
O que eu fazia?
Era um colecionador de livros, editor e crítico literário. Dei o mundo para ela, nos casamos rapidamente. Viajamos, visitamos os melhores restaurantes. Bon vivant.
Ela dizia que queria crescer e voltou a estudar em aulas particulares. Dizia que queria tratar sua mente como tabula rasa e na viagem a Bogotá teve um estalo “preciso aprender Matemática”. No retorno procuramos um bom professor da disciplina.
Quid pro quo, recebi o melhor sexo que ela podia oferecer no período. Depois de um tempo o professor de Matemática começou a me inquietar, só de lembrar dele minha barba coçava, saudades da minha barba.
Não ligue para as lágrimas, hoje aceito melhor a minha condição. É o que posso fazer, não é? O ato, o ferimento, a ação me diz que estou vivo.
O que eu fiz?
Disse a ela, perguntei se tinha algo com o professor. Completávamos quatro anos juntos e ela mentiu. Mentiu para quem conhecia seu cerne mais do que seus pais, para quem viu todas as suas fases e inconstâncias.
Olhou nos meus olhos e mentiu!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Alva




      "O nosso maior medo é reconhecer como somos de verdade"


 - Que tal Alva?
 A escolha do nome foi difícil, não era um bebê que estava a caminho. Mas era de vital importância um nome de comum acordo ao casal.
 Irina ouviu a sugestão de Lúcio e concordou com a cabeça.
 Ele riu.
 - Será Alva então!
 E voltaram aos beijos.


 Irina e Lúcio eram amigos de longa data. Ela se casou e Lúcio seguiu quebrando a cabeça. A mãe dele sempre dizia:
 - Não arruma mulher casada! Lembra dos problemas que conseguiu.
 Se referia a um caso antigo de Lúcio, uma tal de Joana. Mas foi por infelicidade que bastou Irina casar para Lúcio descobrir que a amava.
 Os amigos se tornaram amantes, faziam de tudo para estar juntos. Secretamente sempre se encontravam e construíam planos.
 - Estaremos juntos de verdade logo.
 Irina queria se divorciar e ficar com Lúcio. Encontravam duas barreiras que atrapalhavam seus planos.
 Uma era o marido de Irina, outra a mãe de Lúcio. Queriam acertar as coisas de modo rápido.
 Estavam "namorando" por dois meses quando tiveram a ideia.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Ser como eles





 Do alto do prédio sede da empresa químico-farmacêutica¹ o homem olha.


 Os tons mudam da raiz ao topo, lá em cima o predominante cinza².
 Ele se serve da bebida na mesa e olha pela grande janela aberta do arranha-céu. Divaga com o copo na mão, olha transtornado para baixo.


 - Eu queria ser como eles.


 - Daqui de cima parecem minúsculas formigas operárias que trabalham para senhores como eu. Suas vidas possuem regras simples: colocar o pão na mesa, reunir pessoas queridas, diversões dentro dos limites monetários, amar.  Alheios a minha presença. Eles me olham nos jornais como notícia momentânea. Sou um assunto fraco nas conversas. Facilmente esquecido.


 Vai até a mesa e serve mais bebida. Volta a olhar o abismo.


 - Eu sou o desvio de caminho de suas vidas básicas. Com única decisão posso esmagar milhares de futuros, milhares de sonhos dos que estão lá embaixo. Crio crises em suas cadeias simples. Posso alimentar os males de toda uma geração. Poder com uma decisão.


 Ele sorri. O rosto rapidamente se contrai amargo.


 - Sobra somente a satisfação destrutiva para quem está no topo. Criamos corporações e empresas gigantescas, movemos a vida das formigas. Com o dinheiro-alimento, movem suas vidas transformando. Multiplicando-se. Enchendo as ruas e alavancando-me a prédios maiores. Fico cada vez mais alto, cada vez mais distante. Para me lembrar sempre que não sou como eles.


 Deposita o copo na mesa, vai novamente até a janela. Amargurado.


 - Contentam-se com pouco; abrem seus melhores sorrisos com beijos...


 Em tom mais alto:


 - Eu conheci o mundo inteiro! Eles se importam com a viagem que fizeram ao parente de outra cidade, tenho dinheiro para forrar minha casa! Eles só querem que sobre o suficiente para pagar as contas.


 Coloca as mãos nos bolsos, olha triste o vazio.


 - Riem; aproveitam a curta vida. Interagem expondo minha fragilidade. Eu sou um homem poderoso.


 Retira um cigarro do bolso e o coloca na boca. Faz menção de acendê-lo com o isqueiro. Joga o cigarro pela janela. Apoia a mão na beirada.


 - O abismo é aqui; não lá embaixo. As esperanças acabam quando se está tão alto. O solo é a segurança, ele te faz lembrar que você pertence a algo.


 Ele chora leve.


 - Vidas notáveis. Pessoas que eu adoraria conhecer, sujeitos que se unem por causas. Quando nascemos a vida nos invade com cheiros, com sons, com visões para nos ajudar a compreender seu propósito. Isso não se pode perder durante o tempo, quanto mais distanciamos menos vivemos. O abismo de cada um deles é onde estou. É onde a humanidade acaba.


 Joga o maço de cigarros lá embaixo.


 - Meus amigos de fachada são como eu. As pessoas somente se aproximam de alguém nesta posição quando querem algo.


 O vento açoita os cabelos.


 - Ela me abriu os olhos quando foi embora. Foi viver como eles e ainda sinto o calor de seu beijo de despedida. Disse que eu estava cada vez mais frio. Já se passaram dez anos e o calor do beijo permanece em meus lábios.


 Toca os lábios relembrando.


 - Já é tarde demais para mim, a distância é grande demais. Há quanto tempo não sinto o amor verdadeiro de alguém? Há quanto tempo não se importam verdadeiramente comigo? Há quanto tempo não me importo com alguém?


 Toca a beirada novamente.


 - É tarde. Não tenho tempo para encurtar a distância aos poucos, quero tudo ou nada! Eu queria ser como eles...


 Chora.


 - Devo alcançá-los, abraçá-los.


 Desajeitado sobe ao parapeito.


 - Abraçá-los. Devo alcançá-los, me misturar a eles.


 O homem salta.

 Mistura-se a multidão pasma, as sirenes tocam.







"Conto muito foda! É triste, é intenso, é real!"
Carla Garcia, professora, comentário postado em 15/06/2009.


Extras e referências:

1 - Xemox, complexo químico inspirada em uma fábrica que joga uma nuvem pútrida em uma cidade do interior de SP. A Xemox assombra vários contos do autor, exemplos: O único, Quando a esmola é demais.

2 - Novamente a cor cinza retrata algum sentimento negativo assim como em A maquete.



terça-feira, 29 de agosto de 2017

Destoante



"Por vezes o sentido da vida é a insanidade"


 1 - Reunião babaca


 Reuniam-se toda sexta-feira, era um grupo de leitura e discussões sobre poesia.
 Quem presidia as sessões era um tal de Plínio.
 Plínio era professor de português dos mais quadrados, era praticamente a figura geométrica. Chato era apelido.
 Os outros integrantes da reunião pouco diferiam dele.
 Lucas e Tatiane: um casal de poetas medíocres, um crítico certa vez os chamou de casal calmante, devido ao teor sonífero de suas poesias monótonas e sem sal.
 Otoniel: amante da poesia "dor-nos-córneos", separado há anos, ainda amava a adúltera ex-esposa. Detestava qualquer conotação sexual em poemas.
 Dona Vera: viúva que mantinha o Dona, lutava com o câncer e repudiava poesias macabras e sinistras. Temia imensamente a morte.


 O Plínio nem dava aulas na sexta, apenas para estar com seus amigos em chatice. O grupo lia e relia poetas que não cheiravam, nem fediam.
 Se alguma pessoa citasse Augusto dos Anjos era taxado de mórbido por eles. Se citassem Vinícius, era uma página central de revista de nus para seus ouvidos, julgado pornográfico pelo grupo. E o Bocage?
 Bocage era promíscuo.
 Ginsberg?
 Nem queriam saber de Ginsberg.
 Numa sexta-feira comum estavam em sua "sede", a casa de Plinio, quando alguém bateu na porta. Plínio foi atender.
 - Quem será?
 Era uma jovem linda¹. Estava sobriamente vestida de preto. Plinio pensou:
 "Deve ter errado o endereço, ou deve estar vendendo algo."
 - Aqui é a reunião de amantes da poesia?
 Plínio respondeu.
 - Sim... o que deseja?
 A jovem disse firme:
 - Participar.
 Plínio já ia fechando a porta, a moça continuou ali.
 - Desculpe é um grupo fechado. Passar bem...
 A moça colocou o pé na porta, bem no vão.
 - Tratam a poesia como algo restrito?
 Quatro pares de olhos estavam em cima das costas de Plínio. Esperando pela resposta que ele daria. Ele pensou e disse:
 - Não mocinha... É que, é que nem sabemos o seu nome.
 A linda moça respondeu:
 - Saibam somente que sou uma apreciadora de boa poesia. Também faço meus versos.
 Os olhos de todos brilharam até os de Plínio, afinal, faziam meses que só liam e reliam poesias antigas. Leram até a obra completa de Lucas e Tatiane. Mesmo assim o quadrado disse:
 - Desculpe mocinha.
 Os quatro atrás responderam:
 - Não; espera!
 Plínio ficou sem ação, Otoniel segurou seu braço e cochichou em seu ouvido:
 - Se ela for ruim a chutamos...
 A moça impaciente:
 - E então?
 Plínio à contragosto:
 - Está bem. Entre.
 E a deixaram entrar naquela reunião babaca.

domingo, 20 de agosto de 2017

Férias atrasadas





 Estava com vontade de usar a tesoura. Quando a retirou da caixa, o homem amarrado à mesa começou a gritar novamente.
 Parecia ter uma resistência enorme naqueles pulmões.
 Ele introduziu as lâminas da tesoura nas narinas do homem e fechou.
 O jato de sangue atingiu sua mão direita em satisfação breve.
 Frederico precisava de férias¹.

 Para sair daquela rotina de cortes e ferimentos imaginou uma bela praia. Camarões fritos, cerveja gelada e uma brisa de fim de tarde. Crianças fazendo castelos de areia. Sorrisos presentes em rostos de todas as idades. E, infelizmente, sempre temos de voltar.

 O sangue invadia os olhos do homem na mesa. Frederico limpou com uma toalha o excesso, era preciso que ele visse o que acontecia. Sem a conexão não haveria sentido em nada daquilo. Retirou uma gilete da caixa, com uma das mãos segurou o pênis do homem e foi lhe abrindo a uretra. O trabalho ficou difícil com o vermelho que espirrava. O homem desmaiou, típico.

 Outro lugar bom para as férias seria o campo. Tardes de temperatura agradável. Conversas na varanda e ótima comida.
 Pães de queijo e café com leite, bolo de fubá e requeijão. Dias que pareciam mais longos.

sábado, 5 de agosto de 2017

Todo mundo comeu





                "Desconfiaremos primeiramente dos tímidos"


 1 - Ritinha

 Ritinha já estava desaparecida desde segunda. Onde foi parar aquela do riso inesquecível?
 É o que se perguntava o pai, Seu Aristides estava desconsolado, admirava a beleza da filha profundamente.
 - Perdi ano passado a Mirtes. E agora isso.
 E chorava como carpideira adiantada.
 - Com quem ela costumava sair?
 A pergunta do policial era simples para Aristides.
 - A melhor amiga os senhores já ouviram.
 O policial com o pescoço rígido foi incisivo.
 - Não. Ela tinha algum namorado, algum paquera?
 O pai não sabia responder sem denegrir, afinal aqueles policiais eram meros estranhos, achariam que a filha era uma perdida. Sem saberem o quanto Ritinha era doce, amuado ele nada falou.


 Frase de um banheiro da faculdade:
 "Ritinha doce vagabunda, todo mundo já comeu!"



 Se o pai soubesse mais da vida universitária da filha, teria morrido mais cedo.

sábado, 29 de julho de 2017

As chaves certas




 Eu¹ estou nesta casa a muito tempo.

 Apenas seguindo esta vida estranha.

 Abro a porta com cuidado, deixo o lixo ou faço qualquer coisa rapidamente.

 A saída sempre é assegurada antes, verifico seu estranho mundo durante um longo tempo pelo meu amigo, o olho mágico.

 Sua sujeira, suas monstruosidades, tem de ficar fora.

 Porta; barreira, muro que me mantêm pouco mais protegido.

 Para quem ou o quê invadir guardo a arma, dependendo do que entrar não será de muita valia.

 Eles, o acaso, os lixeiros, os médicos falhos, assassinos apoiados na escuridão, os canais fora do ar que nos induzem, criaturas rastejando no escuro, trabalhos que nos matam na rotina, filas que apodrecem nossos espíritos, contas que nos encarceram no processo, estão todos nos rodeando, conheço cada centímetro da minha casa².

 Ponto.

 Sempre que estou pensando questiono o porquê de se escrever, olhando as paredes de minha prisão aceita questiono muito.

 Que serve de terapia todo mundo sabe, quem já fez algum tratamento mental conhece isso, eu descobri algo importante há algum tempo.

 Você nunca está sozinho realmente sabia? Se o humano se comunica de várias formas mesmo com sua fragilidade assustadora, o que dizer de coisas incrivelmente profanas e más?

  este texto agora perguntando-se: onde ele quer chegar?

 Meus contatos rareiam, é verdade. Sou taxado de insano por me esconder no lugar que me é mais seguro.

 Textos, contos, mensagens escondem mais significados que aparentam em seu âmago.

 Vírgula.

 Eles, que escreviam coisas sinistras antes de mim entendiam esta simetria macabra, os que ainda escrevem partilham de minha dor enquanto em sua ignorância o resto do mundo sorri.

 Sorriem pois desconhecem a totalidade deste absurdo, eu tive alguns sonhos ruins em que vislumbrei este caos, por estes sonhos eles falaram comigo, os medos falaram comigo e me deram grande incumbência.

 Acima de qualquer terapia e de qualquer vocação, os homens sempre seguem as ordens de seus medos.

 De toda agonia que você pode imaginar confrontar seu maior medo é ápice.

 Seus temores lhe visitam quando está sozinho, quando está sozinha? Ora, eu já disse... nós nunca estamos sozinhos realmente, eu tenho suas chaves... as chaves certas.

 Ombros curvados em direção desta página não te fizeram entender? Por vezes dizemos tudo o que queremos pelas primeiras palavras de nossos períodos.

 HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ









Última página do diário de Allan Miller³.



"Você fez alusão a nomes como Poe, Lovecraft e até Jamie Delano encontrou as chaves e sabe usá-las muito bem."
Jefferson Ravazzi, colecionador irmão.


Extras e referências:

1 - "Eu apenas abro sua porta para eles. Sempre que você lê meus textos, eles sorriem acima de seus ombros." As primeiras palavras dos períodos indicam uma mensagem de Miller sobre sua real intenção.

2 - Aqui Miller faz referência a vários contos de Barone: Peculiaridades, Horda, O maior espetáculo da Terra, Rasteja no escuro, Fim do expediente, A espera. Trechos a frente Miller presta homenagem a grandes escritores perturbados.

3 - Allan Miller, o nome junta dois gênios das HQs (Alan Moore e Frank Miller), psiquiatra e escritor de Horror recluso, Miller sofre de Agorafobia e durante anos trabalhou com os piores casos do Hospício Santa Clara. Um de seus livros mais famosos é Penumbra e cenas mórbidas.