Citações

"Escabroso, delirante e assustador! Perfeito!" Por Drauzio Marqezini em 12/04/2012 no site Recanto das Letras.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Inefável


“A melancolia da paixão arrebatadora é o sentimento de existência efêmera e urgente”


1 – O parlamento da chuva

Foi durante o outono.
As montagens dele eram excepcionais, um imenso sucesso de crítica e público. Todos queriam um pedaço de Raul, o cultuado Raul¹.
Tinha lenda de uma personalidade complexa, metódica, repleta de contornos míticos. Era cheio de manias e tiques, diziam que era versado em diversas áreas.
Quando consegui o papel em sua adaptação para o teatro de Pensamento Atropelado sabia que era a chance da minha vida.
Imagine só uma atriz fresca prestes a estrear trabalhando com ele, um bilhete de loteria sorteado. Nos primeiros dias a ansiedade para conhecer o diretor quase me consumiu. Para agravar a situação ele tinha aplicado um de seus habituais sumiços.
Duravam sempre uma semana.
Então esperei os dias, mordendo os lábios, para ver a mente corajosa de Empalando Freiras Virgens.
Começou uma chuva forte numa tarde e eis que surge ensopado nas portas do teatro. Apolíneo e dionisíaco em si, pediu enquanto mastigava suas balas de goma.
- Podem me encontrar lá fora?
Boquiaberto, o elenco acompanhou a força de sua figura e fomos de encontro ao brilho dos raios. Em poucos segundos todos pareciam que tinham saído do mar. Alguns rostos demonstravam raiva e descontentamento, Raul sentou-se ao meio fio e com sua voz grave e a risada característica solicitou:
- Sentem-se comigo, apreciem a chuva!
Ele estava ali em seu bruto, um vanguardista brilhando na rua encharcada, naquele momento todos os presentes sorriram olhando o criador, que sentia milhares de gotas como abraços calorosos.
Fizemos um círculo na calçada e apreciamos a chuva, apreciamos nossas pessoas, apreciamos a arte.
E dali em diante torcíamos para que chovesse para mais um parlamento da chuva.

Natalia Gomes, atriz revelação vencedora do prêmio Esplendor.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Fim do expediente



"Seja bom, pelo amor de Satã... seja bom!"


 Todos os dias Yves acordava cedo. Os olhos cansados contemplavam o rosto acabado.
 Murmurava para o espelho sua oração:
 - Patético.
 E andava rápido em seu patético carro, enfiava-se no engarrafamento patético para chegar ao emprego igualmente patético.

 O dia passa entre as malditas ligações. Subemprego, soa como deve soar. A comida da lanchonete o fez engordar, a rotina o tornou ansioso.
 Duas décadas e meia de uma vida insignificante. Sentado, com o fone ao ouvido sentindo a existência escoar lentamente.
 Acostumou a atender os mal-educados que costumavam ofender sua adorável mãe todos os dias. Era gentil e bom com os novos funcionários que iam aprender o ofício com ele.
 Estava acostumado a ouvir:
 - Como você aguentou ficar três anos neste inferno?
 Respondia automático:
 - Não é tão ruim quando se acostuma.
 Quando se acostuma a destruir o orgulho, seus ouvidos, sua voz. Quando se acostuma a ver os puxa-sacos ganharem puxa-sacos ao subirem de cargo.
 Acostuma-se a ganhar dinheiro para instituições que claramente o viam como algarismo.
 Um número de funcionário.

 Ia começar a seleção interna para escolha do funcionário do mês, se ganhasse lhe dariam um broche idiota. Seu nome enfeitaria uma folha de sulfite imbecil.
 Poderia usufruir de uma folga bônus.
 Uma.

 Neste mês, ele cumprira os requisitos básicos da eleição. Para ser elegível o candidato não podia ter faltas injustificadas e advertências.
 No mês anterior Yves teve de assistir Willian se tornar o funcionário do mês.
 Willian, que tinha a supervisora em boa conta, que escondia suas faltas com resultados em vendas, que era um supremo lambe-botas. Um safado protegido.
 Yves faltou uma única vez no mês anterior por uma emergência familiar. Explicou tudo a supervisão e ganhou uma advertência.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um pedaço de mau caminho






 1 - Desgraçado


 Nasceu com olhos azuis e parecia...
 - Um anjinho.
 Essa foi a frase da mãe ao ver o bebê, para piorar a situação o bastardinho veio com cabelo loiro e ganhou nome de anjo.
 - Vai se chamar Gabriel.
 Dã.
 Mais típico impossível, desde o começo foi mimado. O pequeno gordinho mal saiu do hospital e era convidado a fazer comerciais. E foi enriquecendo os pais ainda sem saber limpar a bunda sozinho.
 Foi crescendo e habituando-se a receber de pronto seus desejos. Com oito anos, descobriu o valor de um rosto para o mundo.
 Estava na escola e roubou o giz colorido do Paulinho, a professora descobriu e veio tirar satisfação.
 - Gabriel. Isso não se faz...
 Ainda nem tinha beijado alguém e descobriu o cinismo.
 - Mas professora esse giz é meu.
 O Paulinho tinha um histórico horrível, batia em todo mundo e ferrava tudo mas ladrão, ladrão não era.
 - Ele tá mentindo professora!
 Doeu no querubim ser contrariado em sua farsa.
 - É meu sim. É meu sim.
 Começou a chorar como um rio, chorava de raiva.
 Vendo que o artifício não funcionava apelou, partiu para pancadaria. Nunca havia batido em ninguém. Talvez por isso tenha sido tão brutal, tão primitivo. Pegou o parrudo Paulinho de surpresa, este caiu para trás e perdeu dois dentes.
 Paulinho levantou com olhos de um carniceiro. Num salto avançou sobre o anjinho.
 Mas um braço forte o conteve de sua satisfação imediata. Era o diretor da escola que passava por ali.
 Gabriel levou sua mentira até as últimas consequências, como reparação, Paulinho foi expulso da escola.
 Neste mesmo dia esperou a saída de Gabriel da escola. Mas os pais do modelo-mirim foram buscar.
 - Não deixo mais meu filho nesta escola de ladrões.
 Sentenciou a mãe e o mudou para a melhor escola paga da região.
 Já o Paulinho; além de perder dois dentes levou uma surra ainda maior do Paulão, o pai, que era famoso por ter mão pesada e praticar boxe no filho.
 - Acho que o Gabriel vai precisar de terapia depois desse trauma, ele ficou tão mal que até bateu no ladrãozinho.
 A terapia do Paulinho pra aprender a não mexer com anjos foi de vários hematomas pelo corpo.
 Gabriel. Boa aparência, bem de vida, requisitos essenciais para surgir um desgraçado.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Rolê pacífico




Amigo, eu sou negro, nasci pobre e estava com meus irmãos no rolê pacífico. Não fica de pé me encarando, senta aí que eu conto.
Dizem no clube que se chama noche pacifica, mas amigo; eu vivia nas ruas.
Então eu chamo de rolê pacífico.
É quando um bando de veteranos, caras que foram baleados, torturados, mutilados, afogados e viveram para...
Viveram para um novo trabalho se reúnem para celebrar sem “interferir” no ambiente.
E por que isso?
Porque isso é um encerramento honroso que lembra a cerne de cada um de nós. Subimos de um buraco sozinhos, sobrevivemos a uma mãe, pai, marido ou esposa sozinhos. Tanto para o positivo quanto para o negativo. Sobrevivemos sozinhos, a tudo; sozinhos.
Mas o clube nos une.
Ali conversamos, bebemos, juntamos amigos de anos e é lógico arrumamos uns bicos. Um cagando pra vida do outro. Desde que nada ameace o clube.
Que bicos?
Que bicos, você pergunta.
Alguns serviços de extermínio de insetos, erradicação. Sim, isso mesmo que o senhor ouviu.
Erradicação.
Mas eles começaram senhor. Só queremos sair daqui, foi legítima defesa. Depois de tudo, o pessoal que estava lá disse que o bar quase tinha sido destruído na semana passada. Na ocasião, disseram que um cara doido acalmou todos com diálogo. Nós só conversamos com os nossos.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Socializando




Ela precisava socializar, é o que todos diziam.
“Flávia, você fica no seu mundo e conversa com os outros apenas pela internet, precisa sair mais”
Sair mais, não ficar sozinha mais uma noite. O mundo é fugaz, não basta nossa própria companhia para todos.
“Você é tão bonita, devia aproveitar a vida”
E era bonita mesmo, não achava que desperdiçava a vida. Não gostava que os outros sequer pensassem nela.
O fato é que de tanto martelarem, de tanto falarem, de tanto encherem o saco e somando as malditas festas de fim de ano, conseguiram deixá-la deprimida.
Ajeitou seu cabelo curto e preto, botou o batom vermelho e saiu sem rumo.

Acabou parando no bar de um amigo de faculdade. O ambiente era patético, poucos solitários iam para a rua nas vésperas de festas.
- Todos com a família e os amigos.
Lhe respondeu o dono.
Foi aí que viu ele.
Ele parecia grande mesmo sentado no balcão, tinha um rosto mediano e uma bela barba. Os olhos eram a cereja do bolo, pousaram fixos nela.
“Eu espero que ele venha até aqui, nem a pau que vou lá”
Estava decidida, tomaria mais uma dose e se ele não fosse falar com ela iria embora.
Então ele sorriu pra ela, o choque foi tão grande que ela retribuiu com um “uh”!
“Espero que ele não tenha ouvido isso”
Já vinha em sua direção, ele cheirava bem.
- Está criando coragem para aparecer na festa?
A investida boba a fez corar.
- Não tenho festa pra ir.
Ele continuou com as frases tolas:
- Bonita assim e toda arrumada sem lugar pra ir? Qual é seu nome?
Não sabia se era o jeito ingênuo da chegada dele, ou o modo que olhava, daria uma chance:
- Flávia.
Ele passou a mão pela barba.
- Flávia, eu sou Ivan. Tenho um lugar para ir mas me falta companhia.
E estendeu a mão.
- Quer ir comigo? Não se preocupe, é aqui perto.
Ela fez uma cara de relutante.
- Lembrando que toda a rua é iluminada e tem várias pessoas perambulando indo para suas casas.
Ela riu.
Saíram juntos do bar.

A casa estava iluminada, havia pouco mais de uma dezena de pessoas ali. Flávia cruzou a porta e alguns conversaram entre si. Ninguém prestou a atenção nela e Ivan não a apresentou. O lugar fedia, justificado cheiro de festa.
De mãos dadas com Ivan não ligou. Tentaria socializar, haveria tempo para isso.
- Me diga o que você quer ouvir Flávia.
Ela pensou: Mas eu não conheço ninguém, e se não gostarem?
Ivan sorriu:
- Está na minha casa e vamos ouvir o que você quiser!
“Qualquer coisa que não seja pra baixo, afinal não estou sozinha, diga qualquer coisa menos Joy Division¹
E sua boca a traiu com o que queria de verdade:
- Joy Division.
O barbudo arregalou os olhos.
- Putz coloco com prazer, é uma das minhas bandas preferidas. Que coincidência.
E atravessou o grupo de pessoas para alcançar o som. Enquanto She's lost control invadia a sala ela permitiu balançar a cabeça e curtir de leve com as mãos.
Parecia que estava conseguindo.

O povo parecia não dar a mínima pra música. Para Ivan o que importava era Flávia, lhe trouxe uma taça de espumante devidamente gelado.
Então ele sentou ao seu lado, os outros convidados ficaram encarando, aquilo atraiu a atenção de todos.
- Você é um achado, sem sombra de dúvida.
Flávia pôde ouvir o cochicho do rapaz de camisa vermelha que estava próximo do sofá.
- Ele sempre diz isso...
Ivan chegava mais perto e já encostava a mão em sua perna.
- Flávia, Flávia. Parece que você é meu número, meu número da sorte.
E aí a magia se perdeu, ele veio como um carro desgovernado para cima dela. Avançando o sinal e adentrando sua boca.
Todos olhavam enquanto ela colocou as mãos no peito dele, tentando afastar o grandalhão.
“Ninguém vai me ajudar?”
De repente ele pareceu sentir as pequenas mãos e se afastou com o rosto perturbado.
- Desculpe, é que passo muito tempo sozinho e não sei como agir.
O rapaz de vermelho olhou para Flávia:
- Sempre a mesma desculpa, aff!
Ivan se levanta.
- Vou pegar mais alguma coisa pra bebermos.
E foi na cozinha, Flávia disse ao cara de vermelho:
- Depois desse atropelamento eu vou embora!
Atônito ele chegou mais perto dela:
- Você estava ouvindo o que eu disse!? Querida vai embora logo! Lucile!
Ele chamava uma negra muito bonita do outro lado da sala. Lucile foi até o som, parecia concentrada, após um toque a música parou.
Ivan gritou da cozinha:
- Desculpe, parece que a energia desta casa é uma bosta.
Quando o som voltou começou a tocar She's lost control novamente. E Ivan grita:
- Porra!
Flávia se sentia tonta, o homem de vermelho fala rapidamente:
- Ele vai mexer no rádio primeiro quando voltar, se você for embora logo, talvez não a alcance.
Apavorada pela urgência das palavras, Flávia tentou levantar mas suas pernas não responderam.
- Me ajudem!
Ela disse para todos na sala, os rostos consternados só observavam.
- Pobre coitada!  Acho que você não entendeu querida, estamos tentando ajudar como podemos.
E um momento depois Ivan já estava sobre ela, as mãos em seu pescoço invencíveis. Tudo se fechava naqueles segundos finais durante a violação e o estrangulamento. Flávia soltou um baixo pedido de socorro.
Em resposta, o rosto suado de Ivan:
- Estamos sós aqui, doze! Só nós!
Perdendo a vida, Flávia vê as pessoas da sala perdendo as formas.
Foi depositada embaixo do assoalho ao lado de um esqueleto com camisa vermelha.

Era o número onze.



Extras e referências:

1 - Joy Division, banda liderada por Ian Curtis, expoente do pós-punk com flertes ao gótico. She's lost control representa a cama de gato com a protagonista.



domingo, 10 de dezembro de 2017

Diga mamãe





                              “Opus destruit hominem”


Eu odeio o seu mundo.
Vocês adoram se sentar em suas salas, fechados em cubículos e maquinando contra todos. Claramente engordando a cada segundo com suas idas cada vez mais frequentes a restaurantes e aos fast food enquanto alguns de seus subordinados nem trazem algo pra almoçar.
Adoram quando eles entram no seu “salão sagrado” mendigando algo que pode ajuda-los e vocês podem olhar de cima, sentados em suas cadeiras confortáveis.
Raramente me perguntam sobre meu filho, raramente perguntam se estou bem.
Fingem que a empresa possui valores e preenchem um mural com sua questionável moral. Seu código de conduta é um disfarce para a livre delação e outras práticas detestáveis. Aqui se você pisa fora de um dos parâmetros é traído sem pestanejar.
Devo dizer, nos quase nove anos nessa divisão do purgatório me tornei mais falso, mais amoral e mais cruel do que alguém que não seguiu essa carreira. Quanto mais alto o escalão nessa máquina, mais distante dos outros seres ficamos.
Eu sei por que estou aqui.
Você iria apontar o dedo na minha cara e enfiar goela abaixo que minhas atitudes não condizem com a firma. Na verdade, eu quero falar e você vai ouvir tudo. Tire a mão do telefone! Nenhum segurança deste monte de merda fodida chegará a tempo de te salvar.

domingo, 19 de novembro de 2017

O clube do escorpião





 1 - Longe da vista do mundo


 - Vou contar pra você o que aconteceu...


 "Aqueles dois só queriam um dia de descanso, uma visita ao bar parecia uma boa idéia.
 E ninguém no mundo "normal" espera por um sequestro.
 Na saída do bar foram dominados e encapuzados. Jogados em um porta-malas.
 Por quê um sequestro?
 Fausto e Oscar.
 Amigos inseparáveis até mesmo no sofrimento.
 Foram retirados do porta-malas num paradeiro desconhecido. Retiraram tudo o que lhes seria útil.
 Removeram os capuzes, Fausto e Oscar fitaram uma escuridão tão infindável quanto fria.
 - O que vocês querem? Dinheiro?
 Perguntou Oscar para a escuridão, um dos indivíduos ocultos respondeu:
 - Se tudo der certo tiramos vocês daí.
 Foram empurrados, a queda foi grande. Ao atingir o solo Fausto quebrou o tornozelo esquerdo.
 Oscar feriu a testa.
 Estavam abandonados em um buraco de paredes concretadas lisas. Lá embaixo não havia comida, água ou cobertores.
 Grandes amigos feridos.
 - Nós vamos sair dessa.


 As horas passam, a agonia traz companhia da fome e da sede. Especulam sobre o resgate que seria solicitado, para quem?


 Fausto lembra-se do pai inválido num colchão sujo do asilo. O mesmo inválido que em seus tempos áureos costumava usar o cinto para ensinar lições.
 A mãe era muda sem possuir deficiência alguma, distante e ausente. Morreu sem causar estardalhaço, dormindo.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Oscar lembra-se da rua, fugiu de casa com doze anos e não voltou. Contrariou estatísticas e ainda estava vivo.
 Saiu do grande vazio do seio familiar e buscou o vazio eterno da rua. Seria melhor que rostos estranhos o pudessem fazer mal, não toleraria mais que pessoas de sua família o fizessem trabalhar. Ou as visitas noturnas do seu tio.
 Fora daquele buraco não possuía ninguém.


 Se corroíam com as lembranças e o silêncio. Os pulmões cansados de gritar.


 Cai a noite, a estação traz a chuva.
 Abençoada chuva.
 Fausto e Oscar bebem água da chuva das paredes lisas. Preciosa chuva, aguentariam a sede por hora.
 A temperatura cai rapidamente.
 Maldita chuva.
 Encharcados, morrendo congelados. Esfregam os corpos para diminuir a sensação.


 O cheiro, um odor forte que sentiram desde que aterrissaram ali os enchia de horror.
 Era um cheiro de morte.
 Alguém havia morrido naquele lugar.